Roger Waters faz do show 'The Wall' uma experiência grandiosa em São Paulo

Ex-baixista do Pink Floyd se apresentou neste domingo no estádio do Morumbi

Carlos Messias, especial para o iG Cultura |

A terceira apresentação da turnê brasileira de Roger Waters, com o espetáculo “The Wall”, reuniu 70 mil pessoas - segundo os organizadores -  no estádio do Morumbi, em São Paulo, na noite de domingo (dia 1). Ainda há ingressos para a quarta e última data, nesta terça-feira, no mesmo local.

AE
O músico Roger Waters durante show no estádio do Morumbi, em São Paulo

O ex-Pink Floyd não demonstrou pontualidade britânica e subiu ao palco com 13 minutos de atraso, às 21h43. Logo no início, nota-se que é uma produção tão ambiciosa quanto o álbum clássico da banda inglesa – “The Wall”, de 1979 –, que é executado na íntegra. Waters e sua banda de apoio se apresentam entre as ruínas de um gigantesco muro cenográfico (com 137 metros de largura), que vai sendo reconstruído, tijolo a tijolo, ao longo da performance. Não economizaram em efeitos audiovisuais que vão desde o som de um ataque aéreo a bonecos gigantes, pirotecnia e projeções gráficas hipnotizantes que ilustram cada canção.

Infográfico: Compare a versão atual da turnê "The Wall" com a de 1980

Aproveitando o conceito do disco, o muro (the wall, em português) é um coringa que representa ora a desintegração social do capitalismo ou a separação da Berlim pós-Segunda Guerra, ora o isolamento afetivo do indivíduo ou até a intransponível barreira que separa um artista no palco do seu público. O muro, ao encobrir os músicos gradualmente, não só enfatiza esta conotação, como reforça a impressão de que a música está em segundo plano.

O que não significa que tenha sido executada com menos brilho. Aos 68 anos, Roger Waters ainda é um performer de fôlego, seja dedilhando seu baixo ou aproveitando o timbre vocal grave e rouco para emular encorpadas entonações.

Sua enorme banda de apoio também é competentíssima, e a reprodução de “The Wall” beira a perfeição. Os solos sutis e cirúrgicos de David Gilmour (guitarrista, vocalista e cocompositor do disco) em canções como “Empty Spaces” e “Hey You” são releitos com primor por Dave Kilminster, G.E. Smith e Snowy White, que foi membro do Thin Lizzy e atuou como músico de apoio do Pink Floyd na primeira turnê de “The Wall”, em 1980. Gilmour faz mais falta quando o segundo vocalista, Robbie Wyckoff, entoa os versos que lhe pertencem.

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O que pode incomodar um pouco nesta ópera-rock é a total e completa falta de espontaneidade, com um programa (dividido em dois atos) seguido à risca e movimentos nitidamente ensaiados. Como nas vezes em que agradece ao público, em inglês, e o telão imediatamente estampa um “obrigado”. Em “The Happiest Days of Our Lives”, foi projetada a imagem do seu pai, Eric Fletcher Waters, que morreu na Segunda Guerra Mundial, e a de centenas de militares, bombeiros e civis que perderam suas vidas em decorrência de conflitos armados ou terrorismo.

Na segunda das três partes de “Another Brick in the Wall”, Waters fez mais uma vez a sua homenagem ao brasileiro Jean Charles de Menezes (1978-2005), a quem dedicou o show com discurso em português. A tão comentada participação do coral do Instituto Baccarelli, que tem sede na favela de Heliópolis (São Paulo), não passou de uma estratégia de marketing, já que as crianças sequer seguraram um microfone.

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Em “Mother”, Waters cantou em dueto consigo mesmo por meio de um vídeo da canção, registrada em 1980, em que disse estar com aparência de “ferrado, chapado e miserável”. Já no segundo ato, Waters interpreta “Nobody Home” em uma sala de estar cenográfica e demonstra plena canastrice dramática. Assim como nos momentos em que empunha uma metralhadora de brinquedo ou quando faz gestos de um comandante militar nada que tenha comprometido o show.

A etérea “Confortably Numb” rendeu um dos momentos mais extasiantes, com Rogers no palco se revezando com o vocalista Wyckoff, que surgiu em cima do muro junto ao guitarrista Kilminster. Ao final da épica “The Trial”, a construção cênica volta a ir abaixo e os músicos ressurgem em meio às ruínas para um último número, a simpática “Outside the Wall”.

Infográfico: Compare a versão atual da turnê "The Wall" com a de 1980

O espetáculo "The Wall" às vezes infantiliza o poder imagético das canções e esbarra nos piores clichês dos shows voltados para as massas. Mas, ainda assim, é um espetáculo grandioso e uma experiência única, recomendável até para quem não se interessa por Pink Floyd.

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