Roger Waters dispara contra Israel e elogia progresso do Brasil

Ex-Pink Floyd se mostra indignado com caso da morte de Jean Charles, lembrado em seu show: 'Não fez nada e levou 8 tiros na nuca'

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |

Antes do início da entrevista de Roger Waters , a assessoria de imprensa do baixista avisou: a primeira parte da coletiva teria de ser obrigatoriamente sobre o apoio do músico ao Fórum Social Mundial Palestina Livre, que acontecerá em novembro, em Porto Alegre. O inglês avisou que não participará do evento, que resolveu divulgar após o "pedido de um amigo". Foi distribuído também um pronunciamento do ex-Pink Floyd, onde narra como se envolveu com a causa dos palestinos, em visita ao território em 2006. Ele criticou a postura de Israel, evitou atacar o presidente americano Barack Obama e elogiou o desenvolvimento do Brasil, citando Dilma Rousseff e Lula.

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Néstor J. Beremblum/Divulgação
Roger Waters se apresenta o seu show 'The Wall Live' no Rio nesta quinta-feira
Waters foi bastante incisivo também ao comentar o caso de Jean Charles de Menezes, brasileiro morto em Londres ao ser confundido com um terrorista por uma unidade armada da Scotland Yard. Jean Charles é lembrado no show da turnê "The Wall Live" , que acontecerá no Rio de Janeiro nesta quinta, no Engenhão, durante a execução de "Another Brick in The Wall". Inicialmente, ele procurou mostrar que não era apenas a respeito de Jean Charles e citou seu pai.

"Se você for ao show, vai ver o motivo (de o Jean Charles ser lembrado). Não lembro apenas dele. Lembro de vários entes queridos que morreram em guerras e conflitos, na minha opinião mortes desnecessárias. Creio que toda guerra é desnecessária. O primeiro rosto que você vê no meu show é do meu pai. Acredito que a guerra em que ele morreu era necessária. O fascismo na Europa tinha de ser parado e quem se juntou a essa luta fez a nós todos um grande favor", disse.

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Em seguida, partiu para o ataque às autoridades britânicas. "Não estou focado em Jean, particularmente. Ele é a última adição ao meu show. Obviamente por eu ser inglês e o caso ter sido uma manifestação do terrorismo do Estado do qual sou cidadão, ainda que não viva mais lá. Pareceu legítimo fazer isso. Ninguém foi processado por nada, ninguém foi responsabilizado. O Jean Charles não fez nada, foi jogado no chão em uma estação de metrô e levou oito tiros na nuca. Na verdade, atiraram 11 vezes, mas erraram três. Foram oito tiros na nuca! Ele não fez nada, nem parecia que faria. Eles arrumaram essa história de que ele correu, mas agora sabemos que é bobagem, pelas câmeras de vigilância. É trágico", analisou o músico.

Ao comentar sobre a América do Sul, já que recentemente fez shows na Argentina e no Chile, colocou o Brasil em destaque. Disse enxergar grandes mudanças no continente. "Adoro vir para a América do Sul. Adoro o público, adoro a atmosfera. Claro que há problemas sociais, econômicos, mas pela minha visão, de alguém de fora que frequenta a região há uma década, enxergo muitas mudanças. Especialmente no Brasil, através do ex-presidente Lula e a mulher que está agora no poder, Dilma. O Brasil é muito rico e parece que vocês estão se organizando. O país está se tornando uma potência mundial que pode passar um exemplo ao mundo".

AE
Roger Waters homenageia Jean Charles em show em Porto Alegre
Falando sobre os conflitos entre Israel e os palestinos, Waters citou "a parede da desinformação" como "a maior força negativa sobre nossas vidas". Disse acreditar que a única solução é de fato Israel aceitar voltar às fronteiras de 1967 e reconhecer o Estado Palestino, reforçando que "não se trata de um Estado terrorista". A todo momento, mesmo negando uma "teoria da conspiração", ele citava acordos por baixo dos panos, movimentos políticos além de sua compreensão. Foi o seu discurso ao responder sobre a política externa de Barack Obama, presidente dos Estados Unidos.

"É difícil escapar à ideia de que, chegando à Casa Branca, alguém o chama e diz: 'Vem cá, filho. É assim que realmente funciona. Esqueça todo o resto, é isso que você vai fazer agora. É assim que as engrenagens giram". Difícil crer que um cara tão inteligente e comprometido com ideias sociais tome certas decisões quanto, por exemplo, ao Afeganistão. Só para dar um exemplo. 'Qual será a melhor coisa que poderia fazer pelo povo americano e pelo povo afegão? Vou despejar mais 150 mil de soldados lá'. Não. Há uma agenda secreta da qual não sabemos. Acredito que há uma guerra entre nós, o público em general, e o que está acontecendo nos corredores do poder", afirmou.

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O músico mostrou também ser radicalmente contra a aproximação entre política e religião. "A ideia de governos religiosos não me agrada, não importa se muçulmano, católico, hindu, judeu, qualquer um. Governo e igreja deveriam estar separados. Religião não deve ter nada a ver com política, essa é a minha opinião". E foi assim, após despejar toda a sua munição sobre as causas que considera relevantes, que Roger Waters resolveu, enfim, falar sobre o seu show , que acontece nesta quinta-feira, no Engenhão, no Rio, às 21h.

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