Rock na Tamarineira leva música a manicômio do Recife

Bandas independentes da cidade tocam durante três dias em hospital psiquiátrico

Hugo Montarroyos, especial para o iG |

Maíra Gamarra
Edição de 2009 do Rock na Tamarineira
O Hospital Ulysses Pernambucano, conhecido como Hospital da Tamarineira, em funcionamento no bairro de mesmo nome, é o manicômio mais antigo e conhecido do Recife. Funciona na capital pernambucana desde 1874, e é mantido pelo Governo do Estado desde 1924. Mantém atividades de terapia ocupacional, emergência e regime de internação. E, desde 2002, é palco do Rock na Tamarineira, evento organizado pelas bandas independentes da cidade e que realiza a sua nona edição nos dias 15, 16 e 17 de dezembro, com atrações como Matalanamão e a veterana Ave Sangria.

A ideia de fazer o evento surgiu quando a banda The Playboys, cansada de procurar palcos para se apresentar, viu na Tamarineria a possibilidade de encontrar casa e público que tivessem interesse em apreciar seu som. Como alguns integrantes já conviviam com parentes que foram submetidos, ao longo da vida, a tratamentos psiquiátricos - um dos músicos da banda já chegou a ser internado numa clínica -, eles sempre encararam a saúde mental, tema ainda hoje considerado tabu, com bastante naturalidade. Resolveram, então, preencher os dois lados da moeda.

Aqui cabe um espaço para explicar quem são os The Playboys. A banda nasceu no Bairro de Boa Viagem, no meio da década de 90, e foi formada por skatistas e estudantes de filosofia que queriam dar uma cutucada no movimento punk local. A banda tem um discurso extremamente original, que prega que a classe dominante é, na verdade, a classe oprimida. Defendem os interesses dos "companheiros perfurmados", reinvidicam aumento de mesada e o baratamento do perfume francês e do preço dos estacionamentos dos shoppings, e têm no grito de guerra "marxista" "playboys e patricinhas de todo o mundo, uni-vos" a base de toda a sua filosofia.

Apresentam-se fantasiados de milionários, usam brinquedos como instrumentos musicais e satirizam tudo o que estiver ao seu redor. Um de seus primeiros trabalhos se chama "Vivendo Cada Dia Mais Limpo e Perfumado", uma paródia ao clássico "Vivendo Cada dia Mais Sujo e Agressivo", do Ratos de Porão. Ou seja, era muita informação e idiossincrasia para Recife assimilar em plena fase de ascensão de Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. Poucos entendiam sua proposta. Os palcos eram inesxistentes. Os festivais, sem entender o que eles queriam dizer, não os escalavam.

"A ideia de fazer o Rock na Tamarineira surgiu da necessidade da banda fazer show, já que em 2002 a gente não tinha grandes expectativas de tocar. Então achamos que na Tamarineira o público iria curtir nosso som", conta Filipe Novais, guitarrista do The Playboys. A iniciativa foi do vocalista João Neto, então estudante de Filosofia. Ali, perceberam que a ação não seria apenas um passo importante na carreira, mas uma forma de levar diversão a um lugar absolutamente abandonado pela sociedade. "Acho que uma parcela muito grande da sociedade talvez nem saiba que ali é um hospital psiquiátrico. E muito menos que existem pessoas lá dentro", conta Filipe.

Maíra Gamarra
Público do Rock na Tamarineira
O Rock na Tamarineira é realizado em três dias de semana, a partir das 9h das manhã. Em seus primeiros anos, três bandas se apresentavam a cada dia. Já tocaram por lá nomes como Eddie e Volver. O palco é montado no jardim externo do hospital. E, para alegria geral, a receptividade do público, constituído basicamente pelos internos do local - a entrada é simbólica, com doações de roupas e cobertores - foi melhor do que o esperado. Nos dias de festival, pacientes e visitantes se tornam um só no meio da plateia, cantando e dançando juntos.

"A reação do público é a melhor possível", conta Filipe. "Eu sempre comento que se rolasse um radinho de pilha tocando qualquer som eles já se animariam. Imagina, então, com um palco com som, banda, público de fora. Eles adoram!" conta, animado. "Eu sou muito fã do evento, que acompanho desde as primeiras edições. Acho a atitude muito inclusiva, um santo remédio para aquelas pessoas que vivem lá dentro", desabafa Ailton Peste, baterista do Matalanamão, uma das atrações desta edição do Rock na Tamarineira. "Estamos numa tremenda expectativa para tocar", entrega. E complementa: "eu acho que os verdadeiros loucos estão aqui fora, e não lá dentro, chapados de remédio e abandonados pelo tempo", teoriza.

Fabio Trummer, vocalista da Eddie, que tocou no Rock na Tamarineira em 2008, dá um depoimento emocionado. "Há muito tempo, nos anos 80, vi uma filmagem de um show da The Cramps tocando num manicômio nos Estados Unidos, e isso ficou na minha cabeça a vida inteira", conta."imaginava como seria, pela dança descordenada, a atitude inesperada e os olhares aparentemente sem emoção daquele público, a reação deles. Achava que seria como nitroglicerina, que a qualquer momento poderia acontecer algo violento", diz. "Estava completamente enganado. Foi um dos shows mais doces que fizemos! Ganhamos beijos, pipoca, abraços e fomos comtemplados com coreografias magistrais, que tiraram lágrimas da gente". E continua. "E olhando o publico misturado com os pacientes e os visitantes, a constatação é a de que somos todos iguais, só que alguns levam a ingenuidade infantil em corpos adultos, o que torna a apresentação uma delicia".

Filipe Novais tem opinião parecida. "É bem diferente de tocar em outro show. Primeiro, porque é de dia, com a luz do sol e olho no olho. Depois, a espontaneidade com que os internos recebem os músicos é sem palavras".

O Rock na Tamarineira é a prova irrefutável que, diante da música, internos e visitantes são iguais, tendo como única diferença o fato de estarem, no restante do ano, separados por um muro. Que, se depender do The Playboys, não demorará muito a cair.

Serviço

9º Rock na Tamarineira - Dentro do Hospital Ulysses Pernambucano
Av Rosa e Silva, 2130, Tamarineira

Quarta-feira – 15/12 - 9h
The Playboys – participação especial dos brinquedos do Pato Fu
Catarina de Jah e Os Radicais Livres

Quinta-feira – 16/12 - 9h
Keps (SP)
Matalanamão

Sexta-Feira – 17/12 - 9h
Orquestra de Frevo 100% Mulher
Ave Sangria

Assista a um trecho do documentário "Tamanarra", sobre o Rock na Tamarineira:

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