Rock en Seine é à prova d'água

Festival parisiense conta com 105 mil espectadores e se encerra com show épico de Arcade Fire sob forte chuva

Daniella Franco, especial de Paris |

Foi com uma performance épica, sob uma chuva torrencial, que Arcade Fire fechou, ontem à noite (30), um dos festivais de música mais importantes da Europa, o Rock en Seine, na França. Realizado anualmente desde 2003, na região parisiense de Domaine de Saint-Cloud, o evento contabilizou 105 mil espectadores em três dias.

“Você canta no chuveiro? Essa noite havia 35 mil pessoas no box”, define Samuel Degasne, responsável pelo blog do festival. Se o mau tempo interrompeu a apresentação do Arcade Fire por cerca de dez minutos graças à chuva intensa, o público se manteve impassível ao dilúvio. Como recompensa, a volta da trupe canadense transformou o hit “Wake Up” em uma performance que uniu grupo e espectadores, num momento único que entra para a história dos grandes espetáculos musicais da Europa.

O encerramento do Rock em Seine esteve de acordo com o desenrolar de um evento de grandes bandas, apresentações memoráveis e ótimas descobertas – tentativa de definir uma edição que trouxe Queens of the Stone Age, Massive Attack, Blink 182, Cypress Hill, The Kooks, Foals e, em uma só noite, Eels, Beirut, Ting Tings e Arcade Fire. No total, foram quase 50 shows divididos entre os três palcos dos 460 hectares do parque.

Quando um ingresso vale ouro

Na tarde de sexta-feira, uma multidão de jovens já lotava as saídas das linhas do metrô parisiense nos arredores. Nas cercanias do evento, cambistas procuravam sem sucesso por ingressos à venda na massa que se movimentava em direção aos portões. Busca em vão, já que há duas semanas a lotação do Rock en Seine chegou ao limite. Na fila para a entrada, uma confusão. “Segurem essa pessoa! Ela roubou o meu ingresso”, um jovem grita desesperadamente, correndo atrás de uma garota que, numa ágil fuga, desaparece na multidão.

Daniella Franco
Público na entrada do parque, próximo a Paris
Nesse clima de ansiedade e de intensa energia começa o primeiro dia do Rock en Seine 2010. Funcionários amarram nos braços dos espectadores as pulseiras que dão acesso ao espaço do festival, “porque uma dessas está valendo mais que ouro agora”, se justifica uma das organizadoras. Efetivamente, nesse momento de ânimos acirrados e lotação esgotada, um ingresso está valendo muito mais que os 99 euros cobrados pelos três dias do festival: é a entrada para um dos eventos mais disputados da Europa.

Kele Okereke, vocalista do Bloc Party, inaugura a programação à tarde. Num show iluminado pelos únicos momentos de sol e calor de um dia chuvoso, o cantor mostra a razão da insistência de dar continuidade a sua antiga banda – na estreia de seu primeiro álbum solo, The Boxer , Kele prova que sozinho pode ser um showman. No final, uma multidão corre para outro lado: é a vez do grupo Foals monopolizar as atenções. O quinteto inglês é uma das promessas do rock atual com uma musicalidade tão original quanto a qualidade de sua performance. “Cassius” encanta o público até o final do show, que tem “Olimpic Airways” e “Red Socks Pugie” como o ápice de uma das melhores atrações da primeira noite.

Uma voz metálica ecoa pelo Domaine de Saint Cloud: é a vocalista Deborah “Skin” Dyer que chama os espectadores para o palco principal a fim de presenciar o rock incomparável de Skunk Anansie – a melhor surpresa da sexta-feira. Em seguida, os ingleses do The Kooks fazem um show um tanto óbvio, que nada difere das outras performances do grupo nos últimos anos. De toda a forma, as baladas pop do primeiro álbum, Inside in/Inside out , como “Naive” e “She Moves in Her Own way” e do segundo, Konk , como “Do you wanna” e “Always where I need to be”, são suficientes para animar a plateia majoritariamente adolescente.

Cypress Hill assume o festival logo depois e divide o publico entre o seu respeitável hip-hop e o rock do Black Rebel Motorcycle Club. No entanto, à parte da qualidade do show dessas duas atrações, o Blink 182 é a grande atração da primeira noite. “O Rock en Seine desse ano é do Blink 182”, afirma, eufórico, o fã Maxime Grizzard, que diz ter vindo para o festival especialmente para acompanhar a recente volta do grupo de punk rock norte-americano. De fato, o trio é a unanimidade dos adolescentes aos adultos presentes. O palco principal lota rapidamente e o público vai ao delírio com o hit “What's my age again?”.

O sábado na idade da pedra

Se o Blink 182 monopolizou o primeiro dia, o sábado se dividiu entre Queens of the Stone Age e Massive Attack. Anunciado como uma das principais atrações do evento, foi impossível ficar alheio ao stoner rock do quinteto norte-americano. “Little Sister” e “No One Knows” agitaram o início da noite dos roqueiros.

A francesa Joy Reznik assiste à performance do grupo pela quinta vez e explica que a apresentação Queens of the Stone Age é típica de um festival: “Eles tocaram todos os clássicos da banda e souberam fazer um show que agrada tanto os grandes admiradores como quem não é fã”. Para ela, que acompanha a banda pelos shows e festivais na Europa, a sugestão aos brasileiros que assistirão à banda no dia 11 de outubro, no festival SWU, em São Paulo, é a faixa “Burn the Witch”.

AFP
Rapaz é carregado pelo público do festival francês
Massive Attack, outro destaque da noite, fez seu show tradicionalmente engajado às causas político-sociais. Com uma zelosa adaptação ao público francês, as mensagens de protesto geralmente difundidas em inglês nos luminosos da cena foram traduzidas para a língua dos anfitriões. Do célebre álbum Mezzanine , o grupo de trip hop selecionou as unânimes “Teardrop”, “Angel”, “Inertia creeps” e “Risingson”. Já do novo disco, Heligoland , apareceram “Splitting the atom”, “Girl, I love you” e “Atlas air”. A vocalista Martina Topley-Bird ainda apresentou uma faixa inédita e a atração contou também com a voz elástica de Deborah Miller, presente em algumas turnês do grupo.

A grande decepção do dia ficou por conta do Stereophonics, que só conseguiu levantar a plateia nos sucessos “Maybe Tomorrow” e “Mr. Writer”. O espectador Rémy Juliat abandonou o palco principal no meio do show porque achou a apresentação muito apagada. Ele não foi o único: uma boa parte do público preferiu guardar seu lugar para ver Two Door Cinema Club no outro palco. De fato, quem apostou nos jovens irlandeses não se decepcionou. O grupo de indie rock tocou quase todas as músicas do seu primeiro álbum, Tourist History , que conquistou a crítica francesa.

Mas o Rock en Seine também viveu seus momentos de nervosismo. Quando o empresário de Jónsi, cantor e guitarrista do grupo islandês Sigur Rós, subiu ao palco minutos antes do show começar, a plateia se agitou temendo mais um cancelamento. Afinal, o histórico do festival já registra a baixa de Amy Winehouse em 2008; e o fim do Oasis, depois de uma violenta briga dos irmãos Noel e Liam Gallagher no ano passado. Felizmente, o aviso do empresário não foi tão catastrófico: por conta de um imprevisto, o equipamento de Jónsi foi parar em Portugal, o que deu origem a um improvisado, mas impecável show acústico.

O rock à prova d'água

O último dia de festival começou fervendo ao som do blues rock do Eels e pela briga por espaço entre os espectadores do palco principal: todos queriam garantir o melhor lugar para a sequência de shows que reunia Beirut, Ting Tings e Arcade Fire.

Zach Condon acalmou a ansiedade do público com as melodiosas canções de Beirut. Impossível não balançar ao som de “Gulag Orkestar”, “Nantes” e “Postcards from Italy”, as mais aplaudidas da apresentação. “Vocês estão ansiosos para o show do Arcade Fire?” – e Condon reinstala o clima de impaciência no Domaine de Saint-Cloud. A partir desse momento, a multidão se nega a sair do lugar.

Daniella Franco
Público se abriga debaixo de guarda-chuvas no show do Arcade Fire
Na sequência, o duo inglês The Ting Tings mostra o quanto evoluiu em termos de mise-en-scène. Se há um ano Jules De Martino e Kate White pouco interagiam com a plateia, no palco do Rock en Seine nem o tombo que a cantora levou a intimidou. De presente, os espectadores ainda ganharam a performance de “Hands”, single do novo álbum da dupla, previsto ainda parte esete ano.

Às 22h, o Arcade Fire finalmente entrou em cena, sob uma rajada de vento que não assustou os fãs, transformados em uma imensa massa compacta que se aglomerava até onde os limites do parque permitiam. Foi em estado de êxtase que os espectadores cantaram “No Cars Go”, “Neighborhood #2” e “Keep the Car Runing”.

Do álbum lançado esse ano, os canadenses também apresentaram “The Suburbs”, “Ready to Start” e “We used to wait”, momento em que o dilúvio lavou Paris. Os membros da banda ainda tiveram a nobre atitude de não interromper a faixa e terminá-la, encharcados, lamentando uma inevitável pausa para não causar um acidente. Após uma impaciente espera, “Wake Up” finalizou precocemente o espetáculo, com menos de uma hora de duração. O momento de angústia e euforia para os fãs que protagonizaram um coral de 35 mil vozes foi também o encerramento sublime de um festival à prova d'água.

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