Roberto Carlos é um camaleão da sociedade brasileira

Aos 70, cantor é a cara de qualquer brasileiro, em qualquer parte do país, pertencente a qualquer sexo, etnia ou classe social

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

AE
Roberto Carlos em show no Rio de Janeiro em 1972
Há poucos dias, o golpe militar brasileiro de 1964 fez mais um aniversário, o 47º. Como de praxe nessas ocasiões, o nome de Roberto Carlos mais uma vez voltou à tona, aqui e ali, como se simbolizasse um posto avançado dos militares no campo cultural: “O cantor da ditadura”.

OK, o mais novo setentão da praça (que ironia, esse capixaba de Cachoeiro do Itapemirim nasceu em pleno dia do índio, 19 de abril de 1941) fez por merecer em vários momentos a associação. Mas o epíteto “o cantor da ditadura” bastaria para definir e circunscrever o mais importante artista popular de nossa história, o que mais vendeu discos, o que angariou mais seguidores, o que conquistou mais duradoura permanência? Ele teria mantido a imensa influência que exerce e resistido aos últimos 22 anos de regime democrático se fosse, mera e simplesmente, “o cantor da ditadura”?

Roberto Carlos ergueu uma montanha maciça na indústria brasileira do entretenimento, por uma razão desconcertante de tão prosaica: ele é a cara de qualquer brasileiro médio, em qualquer parte do país, pertencente a qualquer sexo, etnia ou classe social. Tal como o mais comum e banal dos brasileiros, Roberto não é muito bonito nem muito feio, muito alto ou muito baixo, nem tão genial nem tão medíocre, nem muito calado nem muito falante. Se vivesse pelado, pintado de verde, pareceria um índio daqueles que aqui viviam em 1500, como a maioria de seus leais admiradores. Roberto Carlos não é a cara da ditadura, ele é a cara do Brasil – ficou parecido com a ditadura quando o Brasil virou uma ditadura, o nosso camaleão, especialista em se confundir com a paisagem, qualquer que seja a paisagem.

O que não há como negar é que Roberto Carlos representa o status quo que governa o Brasil desde que o samba é samba. Eclodiu para o sucesso em 1961, no momento histórico traumático da renúncia do presidente Jânio Quadros. Tentava à época ser um cantor de bossa nova, mas teve de renunciar – como a maioria de seus patrícios, era provinciano, suburbano e mediano demais para ser ou ter uma garota de Ipanema.

nullFoi no trauma de uma renúncia que Roberto descobriu uma fórmula de sucesso: se seguir a favor da correnteza é um porto seguro, por que não fazê-lo, sempre, sempre e sempre? O ídolo que se construía foi adquirindo, sucessivamente, cara de João Goulart, de general ditador, de José Sarney, de Fernando Collor, de Fernando Henrique Cardoso.

É curioso acompanhar seu processo atual de recuperação, após uma série de crises pessoais na virada deste século. Nos últimos anos, o efeito da mimetização lhe exige que se pareça primeiro com um retirante transformado em operário (o que sempre foi, ainda que sua fábrica se chamasse palco, Sony Music e/ou Rede Globo), em seguida com uma mulher que foi maltratada pela ditadura com a qual ele se parecia nos anos 1970. Roberto até que tem se safado bem da saia-justa. Segue fazendo sucesso, mantém o trono simbólico, valoriza as homenagens partidas de dentro de seu escritório no formato dos shows e discos coletivos “Emoções Sertanejas” e “Elas Cantam Roberto Carlos”. “Elas” não são Dilma Rousseff, mas até poderiam ser.

Jorge Rosenberg
Roberto Carlos durante show em São Paulo, em novembro de 2010
É notável, no entanto, que da posse de Luiz Inácio Lula da Silva para cá RC tenha lançado apenas dois álbuns com canções inéditas, um deles entremeado com regravações de temas antigos de Roberto & Erasmo Carlos (“Meu Pequeno Cachoeiro”), de Elvis Presley (“Loving You”) e do imaginário caipira paraguaio-brasileiro (“Índia”, sucesso em 1952 nas vozes da dupla afroindígena Cascatinha & Inhana). Sim, talvez Roberto Carlos encontre mais dificuldade em rebolar o quadril para a esquerda do que para a direita. Mas, mesmo aí, seria possível dizer que Roberto Carlos não seja tal e qual a imensa maioria dos brasileiros?

Titubeante, medroso, conservador, reacionário, direitista, cúmplice da ditadura – em onde Roberto se situaria de fato nessa gradação? É difícl responder, tanto quanto é fácil se valer da retórica do bode expiatório para purgar a ambiguidade ideológica de todo um país, bem mais ampla e disseminada do que a singela e solitária imagem de um (ex-)cantor de iê-iê-iê. Como o escritor Gustavo Alves Alonso Ferreira defende veementemente no novo livro “Simonal – Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga” (ed. Record), trata-se de uma reconstrução histórica operada para vitimizar uma sociedade que, na “vida real”, se opôs à ditadura muito menos do que gosta hoje de reconhecer.

Dentro dessa lógica, simula-se que os músicos (e cidadãos) “do bem” são aqueles que há quatro décadas se colocaram contra o arbítrio e a opressão – Chico Buarque é o paradigma máximo desse tipo de herói bonito, pálido e de olhos azuis. Quem não reza exatamente nessa cartilha é tido como “do mal”. Mas, como não convém demonizar coletivamente mais da metade da MPB (ou do próprio Brasil), bodes expiatórios feito Wilson Simonal e Roberto Carlos servem bovinamente para purgar as culpas daqueles que preferem tapar o sol com a peneira da (falta de) memória.

Ora, mas se Roberto Carlos é “do mal”, “o cantor da ditadura”, por que diabos ele goza até hoje de tanta admiração, tantos contratos globais, tanta aceitação popular, tanto apoio?

A noção formulada a partir da intelectualidade dita progressista, de que artista “do bem” é aquele que luta contra ditaduras, encolhe (ou pelo menos tenta encolher) o campo de atuação da música popular. Alija, muitas vezes preconceituosamente, artistas que façam músicas ou letras “tolas”, “inconsequentes”, “alienadas” – mas só se não forem filiados à bossa nova. Finge não ver que a ditadura retratada nas músicas supostamente banais de RC era sombria, romanticamente mórbida, triste, taciturna, cabisbaixa. E, por último, mas não menos crucial, nega à música pop uma de suas funções primordiais, a de divertir.

Se o brasileiro de estatura mediana Roberto Carlos fosse padeiro em vez de cantor, seria possível que alguém esbravejasse, no 47º aniversário do golpe, algo como: “Em plena ditadura, esse padeiro se atrevia a fabricar... pães!”. Seria possível? Ou um padeiro é anônimo demais para servir de bode?

Roberto Carlos é grande (mesmo que seja de direita), também porque, do outro lado do espelho, a maioria absoluta dos brasileiros que o inventaram, fermentaram e fizeram vicejar ignora solenemente a luta maniqueísta do “bem” contra o “mal” que a MPB inventou para si. Esses preferem dar de ombros ao falatório estéril e seguir assoviando pela taba “Detalhes”, “Cavalgada”, “Eu Sou Terrível”, “Emoções”, “Quero Que Vá Tudo pro Inferno”.

Veja aqui a discografia comentada de Roberto Carlos .

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