Roberto Carlos de fim de ano é infalível

Acompanhamos as gravações do Especial no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo

Cadão Volpato, iG São Paulo |

Como o peru, o panetone e os presentes comprados de última hora, Roberto Carlos tem entrada franca nos lares brasileiros todo final de  ano, há 35 anos. Isso dá uma sensação de conforto e segurança: o mundo pode estar desabando à nossa volta, mas Roberto estará lá, na Globo, desfilando o repertório seguro e confortável com que já nos habituamos.

Foi, portanto, com uma comovida confiabilidade que o iG assistiu às gravações do especial de fim de ano  de Roberto Carlos na noite de ontem, num Ginásio do Ibirapuera lotado. É preciso assinalar que o repórter nunca tinha visto um show de Roberto. E que Roberto ao vivo parece ser uma novidade apenas para pouca gente.

O show, marcado para as nove, começou às dez. A platéia estava repleta de senhoras de vestido longo, sapato alto e penteado bem feito, que pagaram para ver o cantor. Os homens, em minoria, eram peixes fora do aquário, cercados de gritos por todos os lados. Mas eles também cantariam todas as músicas que conheciam, tomariam posição nos lugares mais improváveis para fotografar suas acompanhantes, e as abraçariam discretamente toda vez que tocasse a nossa canção. Porque isso tudo sempre acontece nos shows de RC, me garantiram. E este foi um ano pródigo para o artista, que se apresentou em cruzeiros, fez muitos shows e cantou para o Maracanã numa noite memorável, em que nem a chuva impediu que a multidão comemorasse os seus 50 anos de carreira.

Os jornalistas foram alinhados numa fileira que tinha boa vista para o palco, onde havia um telão exibindo imagens óbvias. Por exemplo, uma estrada em As Curvas da Estrada de Santos. Rosas vermelhas se abrindo nas canções mais românticas. E paisagem, muita paisagem, compondo um mosaico de efeitos gráficos mais adequado a um descanso de tela de computador. 

Roberto entrou debaixo de uma apoteose de luzes, laser e histeria, vestindo terno e camisa azul e tênis branco. Estava bronzeado, o cabelo mais curto, chapinha impecável. Foi precedido por um medley de sucessos, do tipo Como é grande o meu amor por você, que a plateia cantou junto. Aliás, a plateia cantou quase tudo junto. Era um impressionante coro feminino reverberando no ginásio.

O que acontece num show de Roberto é sempre o mesmo, segundo me contaram. O que acontece num show de João Gilberto, também. E Elvis, ou Sinatra, não eram diferentes. O público gosta de segurança.  Por que os artistas deveriam mudar? Para quem nunca viu um show de nenhum deles, tudo deveria ser novidade. Só que, no caso de Roberto, nada parece novidade. Tudo já vem sendo tocado no nosso inconsciente há 50 anos, que é quando RC nasceu para a vida artística.

E ele canta bem. Para os não-fãs, o repertório é às vezes chato. No caso deste especial, o repertório esteve chato muitas vezes ¿ o repórter, além de neófito em shows de Roberto Carlos, também é do tipo abominável que parou na jovem guarda e não elegeu nenhuma canção favorita para trilha sonora de nenhum romance. Ou seja, quase não existe, é uma abstração.

Tudo segue um rigoroso ritual, fruto da longa experiência de todos os envolvidos, platéia, técnicos e músicos. Roberto havia adiado a apresentação marcada para a semana passada  por conta de uma contratura muscular da coluna vertebral lombar causada por esforço físico e excesso de trabalho nas últimas semanas, de acordo com o site do cantor. Então, certa frieza motivada por dores dilacerantes talvez se justificasse. Mas ele permaneceu no palco quase  o show inteiro, impávido e relaxado. Percorreu dezoito canções do repertório clássico, e apenas de vez em quando se deslocou para o lado, a fim de bebericar alguma coisa numa mesinha que os fãs veteranos garantem nunca ter visto. Nem sinal das dores na coluna. Roberto, porém, parecia estar  cantando no piloto automático. Talvez porque faça isso há tanto tempo que nem se dá conta. A platéia, claro, não estava nem aí: bastou ele abrir com Emoções e já estava todo mundo dominado.

Os convidados também não ajudaram muito, mais pelo que são do que por aquilo que executaram. A cantora Ana Carolina, usando um paletó azul cintilante, dominou a acústica do ginásio com o vozeirão implacável. Eles cantaram juntos Encostar na tua, em meio a sorrisos gaiatos do cantor, e Como vai Você. Ela conseguiu encobrir a voz do anfitrião. 

O cantor Daniel, vestido de branco da cabeça aos pés, cantou sozinho o hit Estou apaixonado, que é medonho, emendando em seguida com outra canção que trazia os versos Deus é paz, Deus é luz e seguindo Jesus, co-interpretada por RC. Essa é do tempo em que ele só fazia música pra Deus e Maria Rita, soprou uma fã na fileira de trás.

 Todo mundo sabe que eu sou um noveleiro profissional, explicou Roberto, depois de desfiar algumas melodias românticas que culminaram na entrada da atriz Dira Paes, em meio a imagens da novela Caminho das Índias. É um dos dias mais felizes da minha vida, disse ela. E cantou Cama e Mesa com Roberto, parecendo mais uma fã do que qualquer outra coisa, cantando fora do chuveiro, como observou RC. Mas não foi tão mal assim. 

A entrada do grupo Calcinha Preta, para cantar Você não vale nada, trilha da personagem de Dira,  proporcionou a melhor (e talvez única) piada da noite, quando Roberto brincou com o nome da banda, que ele chamaria de Calcinha azul, se tivesse que nomeá-la. Tudo era azul ou branco ao redor, incluindo as caixas de retorno para a voz. Ele mesmo já admitiu que tem TOC (Transtorno obsessivo compulsivo). Também ficou evidente que a chapinha do cantor da banda era melhor e maior que a dele. Mas não o carisma.

Houve, enfim, um momento em que Roberto parecia estar cantando para o repórter, como faz com todo mundo. Foi quando tocou Detalhes no violão. Mas até isso, me garantiram, ele já fez outras vezes. Só que eu não estava lá.

Que ele fechasse o show, depois de duas horas, ao som de Jesus Cristo também não era uma novidade. Menos ainda quando distribuiu as rosas para as mulheres que se amontoaram debaixo do palco no final, erguendo-se  no salto alto, despenteando os altos penteados. 

Novidade mesmo foi essa incômoda sensação de ter chegado de Marte naquela noite e ter saído dali contaminado pela impressão de que os especiais de Roberto Carlos, com seu cardápio simples e garantido, são mesmo inevitáveis nas festas de fim de ano, tanto quanto o panetone, o peru e os presentes comprados de última hora para o Natal. Se passamos sem eles, sentimos sua falta. 

    Leia tudo sobre: roberto carlos

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG