Renovada, Ana Cañas estreia turnê no Rio de Janeiro

Cantora mostra ao vivo seu segundo álbum, Hein?; leia a entrevista

Marco Tomazzoni |

Depois de despontar em 2007 como uma das apostas da MPB com seu primeiro disco, Amor e Caos , Ana Cañas volta à carga com Hein? , nome que, de certa forma, mesmo involuntariamente, talvez reflita a reação do ouvinte ao se deparar com o álbum: rock? Não que o gênero seja agora o ritmo predominante, nada disso, mas ele parece ilustrar a postura da cantora, mais livre, espontânea e amparada por guitarras em um trabalho plural. O público vai poder conferir a nova fase ao vivo nesta quinta-feira (27), quando Ana estreia a turnê do disco no Canecão, no Rio de Janeiro.

A cidade maravilhosa, aliás, foi sua casa para as gravações, comandadas pelo produtor Liminha, que ajudou a compor músicas e gravar instrumentos, coisa que não fazia há muito tempo. Arnaldo Antunes também teve papel fundamental e dividiu cinco faixas com Ana, enquanto Gilberto Gil apareceu para gravar o violão na roqueira Chuck Berry Fields Forever, pérola dos Doces Bárbaros.

Na contracapa de Hein?, os pés de Ana não têm calcanhares, mas orelhas. Em entrevista ao iG Música , a cantora explicou um possível paralelo com Mercúrio, o deus romano com asas nos pés, com um verso: Os ouvidos podem ser asas, concebido depois de meia garrafa do vinho chileno Tarapacá. A bebida volta e meia retornou ao bate-papo sobre o segundo disco e os parceiros, que ela resume com simplicidade: A minha preocupação é fazer música legal. Leia abaixo.

iG Música: Como foi passar três meses gravando no Rio de Janeiro?
Ana Cañas: Meu lado boêmio ficou em festa. É um clima relax, dei uma relaxada. O Rio tem um clima que convida ao ócio. Aquela beleza monumental da cidade, a natureza. Acho que rolou uma coisa muito positiva de ficar mais tranqüila, calma, e focar melhor. E encontrar novos amigos, novas pessoas. Continuo amando São Paulo, sou uma pessoa super urbana, morei aqui a vida inteira, mas alguma coisa ali naquele momento da minha vida, aos 28 anos, fez um sentido.

Embora você diga que tenha relaxado, o disco, por outro lado, é muito mais rock do que seu disco de estreia.
Isso é louco, mas em tudo a ver você relaxar para dar um berro. É sério! Eu diria que pude conversar com o que há de mais honesto dentro de mim pra de repente não fazer alguma coisa que soasse artificial. Precisava de paz de espírito, de introspecção, para entender qual era o lugar que eu ia habitar nessa nova obra. Foi uma coisa que também veio naturalmente através da estrada. Foram dois anos com o Amor e Caos e da escolha de cantar covers nos shows, sempre relacionados ao universo do rock, como Raul Seixas, Cazuza, Itamar Assumpção. Então foi uma coisa que veio vindo, de refletir muito sobre isso, e de sacar que eu tinha essa verve. Cantava o CD inteiro, do início ao fim, mas sacava que Mandinga não, Cadê você e Rainy Day Women, do Bob Dylan, tinham uma aura a mais. Pensei muito nisso e foi aí que a ficha caiu: já sei, é essa Ana louca que sobe no palco, bebe vinho, canta pra fora, que eu não pus no disco.

O tempo em turnê foi essencial para essa nova fase, então?
Eu fui me soltando, porque até o lançamento do Amor e Caos eu era uma crooner de jazz, do Baretto, e não dá pra você ser rock dentro do bar da elite. E sabe o que é mais engraçado? O jazz é um estilo que, ao mesmo tempo que tem como essência a liberdade, que seria o improviso, me parece muitas vezes que é um estilo que não se renova. Tem um ou outro que está compondo ¿ o Wayne Shorter, talvez, a Madeleine Peyroux, que flerta com outros estilos. Às vezes tenho a sensação que a pessoa mais contemporânea do universo do jazz continua sendo a Nina Simone, uma roqueira no meio dos jazzistas.

Você começou a compor as músicas novas na estrada ou em estúdio?
Comecei a compor mesmo depois que conheci o Liminha, em outubro do ano passado. Na época, fiz um show no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, e convidei o Sérgio Dias pra tocar no show. Por conta dessa participação, comecei a ouvir todos os discos dos Mutantes, me apaixonei por esse universo e queria conhecer esse cara que fez parte dessa história. Nem sabia que ele tinha feito um monte de coisa, sabia que tinha produzido Titãs e olhe lá. Rolou uma mágica entre a gente, uma empatia muito grande. Liminha se revelou uma figura extremamente presente; mais do que um produtor, um amigo, uma pessoa com quem comecei a dividir praticamente a minha vida. Meu único receio é que as pessoas pensem que o Liminha colocou a mão demais no disco. Não tem nada a ver isso. É um amigo, um puta parceiro, um cara com quem eu tive uma empatia ímpar, raríssima, e com quem eu dividia todas as minhas questões, minhas músicas.

E como o Arnaldo Antunes foi chamado para participar do disco?
A ideia de chamar o Arnaldo pra fazer as letras foi do Liminha, que disse: o Arnaldo tem a ver com esse universo que você está querendo explorar. Se você pegar as letras dos Titãs, tem mesmo um tipo de humor que adoro. O Liminha, então, fez essa ponte, jogou esse lubrificante, e foi lindo. O Arnaldo topou de cara, bebemos vinho pra cacete juntos, fizemos música, e é uma honra pra mim ser parceira do Arnaldo, ter ele cantando no disco. E é um cara que se quiser pode ser muito MPB, muito pop, é um cara muito plural, como Gilberto Gil, que enfrentam o A e o Z. Sou uma pessoa tão metamorfose ambulante e tão aberta, tão promíscua artisticamente, que uma das coisas que eu mais prezo é a liberdade. Não acredito em preconceito com arte, sabe? Essas caixinhas ¿ jazz, rock, pop, MPB e nova MPB, que tenho escutado bastante ¿, não importam, eu acho que o legal é fazer música boa. Meu disco tem reggae, tem música inspirada em Tom Waits, tem tudo ali. A minha preocupação é fazer música legal. Se eu consigo ou não, as pessoas que vão dizer, mas a minha preocupação não é o estilo como vou soar.

As músicas tiveram muitas versões no estúdio? E os arranjos, saíram na hora?
Não, tudo de primeira, não tinha esse negócio de ficaram fazendo 12, 13, 15 takes. Era 1, 2, 3, ouvia, via se tinha necessidade de gravar de novo e pronto. Uma coisa muito orgânica, porque se você não tem tempo de decantar, vai no seu instinto. Se eu te der uma melodia agora e pedir para você fazer uma letra de improviso, a primeira é a que você vai mais gostar depois porque quando você obedece o instinto, ele muitas vezes te revela a tua verdade mais verdadeira. Eu funciono assim e gosto de quem funciona assim, de compor junto, pegar o violão, sentar na frente da pessoa, tomar um vinho (risos) e fazer uma música.

Como o Gilberto Gil entrou nessa história?
O Gil foi a cereja do bolo. É um dos artistas que mais gosto, mais ouço. Cantava essa música no show do Amor e Caos , fez parte da minha estrada por um ano e meio e o Liminha já tinha me chamado a atenção para ela, ninguém tinha gravado essa música. Me empolguei e gravamos. E pedi para o Liminha, que é o muito próximo do Gil, mandar a música para ele, pra ver o que ele acha. A gente não só mandou como o cara, de quebra, gravou o violão (risos). Foi uma benção, um agradecimento eterno.

E quais são as músicas que você disse terem sido inspiradas por Tom Waits?
Amor é mesmo estranho e Na medida do impossível. Principalmente a segunda, que tem um universo meio blues, até a brincadeira do chicote. Gosto muito do Tom Waits e da maneira como ele cria uma sonoridade muito particular, própria. Não nego, não, que bebo em várias fontes, Led Zeppelin, Nina Simone, Rita Lee. Eu bebo, cara. Escuto muito, tenho o maior hábito de comprar disco, sou uma apaixonada por pessoas excelentes (risos).


Serviço ¿ Ana Cañas estreia turnê Hein?
Canecão, Rio de Janeiro
Quinta-feira, 27 de agosto, às 21h30
Ingressos: R$ 50 a R$ 100
Informações: (21) 2105-2000 ou na internet

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