'Radialista interfere na gravação das músicas', afirma Lobão

Nesta segunda parte da entrevista, o cantor fala sobre pirataria e comenta o suicídio de sua mãe

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

AE
O cantor Lobão

Entrevista com Lobão: primeira parte
Entrevista com Lobão: terceira parte
Entrevista com Lobão: quarta parte

iG: As histórias que você conta mostram como o meio da música é competitivo, não?
Lobão: É, e, o que é o pior do competitivo: todo mundo com cara de bonzinho. “Oh, adorei o seu trabalho”, “oh, sou seu fã”. Na hora H, não há uma classe. Com essas coisas de celebridade, a classe artística perdeu completamente a seriedade. Os caras deixam fazer qualquer coisa. É praxe o radialista ir no estúdio de gravação e mixar a música. Tira a guitarra, sempre tira a guitarra, abaixa a bateria, aumenta a voz… quando não tira tudo e exige uma versão acústica.

iG: Você está dizendo que radialista interfere no conteúdo das gravações prontas?
Lobão: Todos eles fazem isso! Antes de ir para a prensa, chamam o diretor da rádio, da Transamérica, não sei o quê. Eles adulteram tudo. Aí não vou, né? Mando o cara da Jovem Pan fazer isso na casa da mãe dele. “Porra, cara, tá desestabilizando, você é o único errado”.

iG: E Mariozinho Rocha (diretor musical da TV Globo), com as músicas que vão para as novelas da Globo?
Lobão: Mariozinho Rocha era o cara da Blitz, o cara que pedia para eu rasgar meu disco solo. É muito difícil aparecer música minha na novela. Agora tem “Decadence Avec Elegance” em “Ti Ti Ti”, na voz da Zélia Duncan. Não entrou na novela original porque “a música é muito ácida”. Pô, Caetano e Bethânia têm em todas as novelas, das seis, das sete, das oito. É o papel da MPB, rejeitar as coisas que vêm de fora com muita veemência, e a corrupção comendo solta atrás. Eu só queria ter uma banda de rock’n’roll. Eu não tenho apreço pelo país. Não tenho orgulho do que é feito, assumi isso. Sem cerimônia, não gosto, não. Não gosto de carnaval. Foi uma grande sacada para aprender um monte de coisa, mas era completamente fora d’água, era uma agonia estar ali, um choque cultural.

iG: Do modo como relata, parece ter se divertido mais na cadeia do que no samba.
Lobão: Na cadeia eu ganhei uma autoestima muito grande. Estava cheio de traficante, assassino, fiquei com medo. Aí os caras começaram a me tratar bem, comecei a ter umas ideias que vingaram. Percebi que estava vivendo uma coisa muito rica - horrível, desconfortável, humilhante, mas se eu segurar minha onda aqui, tô testemunhando e vivenciando coisas que pouquíssima gente... Mesmo na favela, depois, o que eu vi de execução, nego sendo jogado vivo no triturador de lixo, garoto jogando bola com a cabeça do cara. É tudo esquisitíssimo, o meu professor de tiro era o policial.

iG: A certa altura você escreve: “Eu me excitava com a condição de mártir”. Você não se beneficia também da vitimização?
Lobão: Não, o martírio era com conotação sexual. Eu não sou neném. Eu sou predador, não sou a vítima. Nunca me coloquei como vítima, nem na minha família. Realmente não gosto, acho que quem faz isso é covarde.

iG: Como é a história do suicídio da sua mãe? Você se sente culpado?
Lobão: Ela deixou escrito!

iG: Mas ela queria se matar, de todo jeito.
Lobão: Queria, altamente cardíaca, sabia que se deixasse de tomar o remédio tinha chances enormes de infartar. Teve um entrevero bravíssimo comigo, tava deprimidíssima, com vontade de morrer fazia muito tempo. Eu mandei ela morrer. Ela já tinha tentado se matar 16 vezes, eu não aguentava mais telefonema, ambulância, lavagem estomacal. Tive que me desfazer não do trauma de mandar ela morrer, mas do ato de se matar. Ela não agiu legal, eu fiquei muito triste, com pena dela. Mas fiquei aliviado, viu? Se ela não morresse ali, eu não sei o que seria da minha vida, porque ela era um espírito obsessor. Só foi num show meu, eu pensava: “Meu Deus, eu vou ser artista, o que faço com minha mãe?”. Imagina a mãe do Renato Russo, que chama ele de Júnior. Porra, é o Renato Russo, respeita o cara! Minha mãe faria a mesma coisa, Joãoluizinho, Xurupito...

iG: E a sobre sua irmã?
Lobão: Falei muito pouco, porque na verdade ela está louca. Mora em Amsterdã, é maluca, maluca. Tinha porrada com a minha mãe todo dia, e quando começou a usar droga, virou junkie...

iG: É ela a “Glória, Junkie Bacana” (letra de Cazuza de 1986)?
Lobão: Não era ela, eu não queria, mas o Cazuza tava lá, ficou falando, tá bom. Teve uma época em que ela ficou na rua. “Glorinha Camburão”, mendiga. Quando ela flipou mesmo, é o que eu não perdoo no Bernardo (Vilhena, parceiro em alguns de seus maiores sucessos). Ele começou a incutir na minha irmã que ela era o Lobão de saias: “Ele tomou o seu lugar”. Ela pegou um ódio de mim, começou a ficar agressiva: “Eu sei que você teve um caso com o Cazuza, vou espalhar para todas as redações”. Nunca tive (ri), até fiz coisas bem piores, mas isso nunca aconteceu. Bernardo arranjou ela para abrir um show do Gil, “Glória Maria, o Lobão de saias”. Foi um fracasso.

AE
O cantor Lobão
iG: A que categoria psiquiátrica você pertence?
Lobão: Não sei, cara. A gente frequentou os melhores neurologistas, nenhum eletro chegou a conclusão alguma. Essa história das minhas doenças... Primeiro tive nefrose, que gerou terror noturno. Depois fui sonâmbulo. Com 12, 13 anos, comecei a ter crises epilépticas, ou epileptóides, convulsões. Ficava à mercê das medicações. Mas os eletros não configuravam. Em 1995, veio um italiano velhinho, reichiano, fez uma terapia com lanterna, correção de córnea. Foi tirando gradativamente o remédio, em seis meses eu não tomava mais nenhum. Nunca mais tive nada.

iG: Suas tentativas de suicídio foram o quê?
Lobão: Cheguei à conclusão de que nem repeti padrão. Eu era um atolado, não sabia resolver os problemas da minha vida. Na primeira vez que tentei, estava com um cisto embrionário na cabeça. O médico brincou: “Você matou seu irmão na barriga da sua mãe”. Eu estava obrigado a casar, no primeiro aborto que a gente fez, o pai da menina morreu do coração. Estava culpado, tinha um casamento para ir. Ao invés de dizer não, falei: vou me matar. Na minha cabeça, eu tinha abortado meu irmão gêmeo, entrei em pânico. Meus pais se separando, minha mãe tentando se matar. Mas mais do que isso, era falta de perspectiva mesmo.
Outra foi com o Arnaldo Baptista (ex-integrante dos Mutantes), que me salvou a vida. Ele estava no Rio, de bobeira, a gente estava fazendo uma banda, Nelson Motta queria eu na bateria, Lulu na guitarra, Arnaldo Brandão no baixo e Arnaldo Baptista no teclado. Chamava Uns & Outro, eu fui o único que não pude aceitar. Liane (namorada de Lobão após o final do Vímana, em 1978) não deixou, ela incorporou minha mãe, tirana, eu completamente à mercê dela. Era acostumada ao jet-set internacional, foi mulher do Patrick (Moraz, do grupo Yes), de um monte de popstar. A gente era muito pobre, não tínhamos um tostão. Eu tinha que matar gambá no jardim pra gente comer.

iG: Que gosto tem gambá?
Lobão: Tem gosto de coelho. É um ratão, dava paulada na cabeça do gambá. Mas Liane era possessiva, não queria que eu trabalhasse. Me deu uma insegurança, uma paúra, uma melancolia, uma depressão, uma vergonha. Eu não vou ter condição de dizer não para eles, vou me sentir um bunda mole, repetir meu padrão de infância. Prefiro morrer, agora vou morrer de verdade. Tomei um monte de Rivotril com álcool. Arnaldo me telefona nesse meio tempo, queria tocar. Se ele não tivesse ido, eu teria morrido - mas eu também me salvei, né? Falei: “Pode vir para cá, rápido”. Começamos a tocar, caí direto. Depois soube que me pegaram no colo, me levaram, e o Arnaldo Baptista dizia: “Eu entendo perfeitamente, eu já vivi isso, eu já vivi isso!”. Foi ele quem ficou comigo na ambulância. E desde ali ele entrou numa crise muito grande, ficou lá um tempo, foi para São Paulo. Acho que um mês depois, foi internado, e se jogou pela janela.

iG: Você teve uma terceira tentativa de suicídio, antes de “A Vida É Doce”?
Lobão: Foi, em março de 1999. Foi um beco sem saída, uma época em que a carreira de um músico se baseava em estar numa gravadora. “Noite” foi um fracasso, ninguém queria mais material inédito. Tinha uns 70% de “A Vida É Doce”, e fui atrás do meu antigo empresário: “Lobão, esquece isso. O negócio é morto, pega uma homenagem ao Renato Russo, ao Cazuza, bota uma tiazinha rebolando com ‘Me Chama’. Se você fizer isso, eu te ponho num acústico da (gravadora) Som Livre”. Eu meio que topei, e a primeira coisa que ele fez foi me botar num especial de Tim Maia (“Tributo a Tim Maia”, de 1999). Fui para fazer um atentado. Decidi parar a gravação do DVD e dar um esporro em todos eles. Estávamos eu, Luiz Melodia e Jorge Ben Jor. Avisei só para eles: ”vou fazer um atentado aqui”. “Você é louco”, ficaram na coxia espiando.

iG: Incitaram, à maneira deles?
Lobão: Não posso afirmar isso, mas eles estavam achando engraçado, pitoresco. Comecei: “Quero dizer o seguinte. Sabe qual é a autópsia que vão fazer do Tim Maia? Morreu de câncer, mas sabe o tipo de câncer? Som Livre! Esse cara passou dez anos jogado, agora ele é um gênio, né, seu João Araújo?”. Acho que foi aí que fui ejaculado da biografia do Cazuza (Araújo, então presidente da Som Livre, é pai de Cazuza). Pensei que as pessoas fossem aplaudir. Ficou um silêncio, não tenho mais respaldo nenhum. Ninguém da imprensa foi capaz de contar o que aconteceu ali dentro. Pensei: já gastei esse tiro, nunca mais apareço na Som Livre, nem em gravadora nenhuma. Acabou. O gatilho da minha depressão foi uma música que eu fiz, “Pra Onde Você Vai”. Hoje acho linda, mas pensei: isso parece coisa do Roberto Carlos, no sentido de ser uma merda. Não passo de um bosta querendo ser um bom compositor quando, na verdade, sou um sub-Roberto Carlos. Estava bebendo, tomei um porre...

AE
Lobão em 1989
iG: E drogas?
Lobão: Não. Tomei meus remédios, mas chega de remédio, peguei meu canivete suíço, aquele serrote, comecei a serrar os pulsos. Serrei, serrei, serrei sem medo, devia estar dormente. Aí não lembro de mais nada. Dizem que fiquei horas pronto para me jogar, enfermeiros me segurando. Não sabia o que ia fazer da minha vida. Aí acordei, e é engraçado que toda vez que eu volto, eu volto muito feliz. Depois do suicídio com o Arnaldo, escrevi “Girassóis da Noite”, isso em 1980, 1981 (lançada só em 1987). Dessa vez, veio a ideia de lançar o disco nas bancas. Joguei i-Ching também, e a palavra que veio foi: morder. Comecei a morder, a atacar, morrendo de medo. Comecei a perceber que a indústria estava fadada a uma bomba-relógio. Não tinha um vilão ainda, as gravadoras começaram a ficar vilanizadas a partir da campanha para criminalizar o próprio consumidor pela pirataria. Não, agora eu vou fazer deles vilões.

iG: Foi premeditado?
Lobão: Foi, foi arquitetado. Comecei a fazer táticas de guerrilha e a blefar pra caramba, porque “A Vida É Doce” não tinha vendido porra nenhuma. Falei que tinha vendido 50 mil cópias, não tinha vendido nem mil.

iG: E a imprensa publicando seus blefes...
Lobão: Mas foi bom, porque depois virou verdade. Naquela hora, eu não podia dizer nada. Mandei prensar 50 mil, o cara da editora Scala achou que eu estava louco. Nessa, a gente consegue o Domingão do Faustão. Foi o que salvou a pátria. Faustão é meu brother. Ele passou o programa inteiro falando: "Vendeu 50 mil cópias"...

iG: Você relata no livro o medo de que sua aparição fizesse despencar o Ibope. Um artista tem de ter esse medo quando está na TV?
Lobão: Exigi deles só tocar música desconhecida. Os caras tentaram me demover. "Não, só vou tocar inéditas". Na coxia, olhei para o "ibopômetro" que tem lá. Se cair o Ibope vai ser foda. A gente acabou ganhando, prensamos mais 50 mil e acabamos vendendo 97 mil cópias.

iG: É o poder da Globo?
Lobão: Pois é. Se eu não tivesse feito o Faustão, estava terminado, ia ser um desastre, um vexame, porque tirei onda. Depois disso, voltei a fazer análise, sou um cara CDF nisso. Fico tentando me melhorar, fiz meditação. Agora tô com alta, não tenho mais psiquiatra. Perigo, né (ri)?

iG: Outra passagem do livro fala sobre uma fábrica clandestina de discos que teria sido aberta por altos executivos da própria indústria. Como é isso?
Lobão: Isso é tido e havido. Não posso dizer os nomes, a coisa era muito cabeluda. Eram dois sócios, um deles era meu amigo, gângster-brother. Fui falar de numeração com ele: "Lobão, você sabe que eu gosto muito de você, você mora no meu coração. Ia ser muito triste um enterro seu". A coisa era nesse nível. É importante as pessoas saberem a pressão. Tem alguma coisa errada, não é possível. Quando a gente viabilizou a numeação, caíram por terra todos aqueles argumentos deles. E a gente não conseguiu usufruir. Está lá escrito, mas é meio pró-forma, não tem quem vá vigiar aquilo. Mas também tem isso, os caras são gângsteres. E todo mundo sabia que existia aquela fábrica, que a proporção era absurda, vendiam um aqui e fabricavam mais cinco lá.

iG: Isso era que época? Do CD, já?
Lobão: Não, anos 80. Era fábrica de vinil. Era uma réplica, não entrava na conta, mas era o mesmo vinil, a mesma coisa. Era uma filial, a única coisa diferente é que não era contabilizado.

iG: Eles estavam enganando as matrizes das gravadoras lá fora?
Lobão: Sempre. Eu sempre tive ganas de falar com um chefe lá de fora, porque eram piratas da própria gravadora. Eles inventaram tudo isso.

iG: Na era do CD isso continuou acontecendo? Gente de dentro das gravadoras pirateava os CDs?
Lobão: Na era do CD, eles faziam consignação. Mandavam milhões em consignação para as Lojas Americanas. Depois, as consignações começaram a ser devolvidas, porque não vendiam mais. Eles simulavam que iam quebrar essas sobras, mas quebravam CDs virgens, e achavam que deviam se associar a redes de piratas e vender para elas o restante. Esse foi o golpe fatal, porque os piratas definiram que aquilo não era a melhor sociedade. Tinham os chineses, que faziam mais barato e pegavam a matriz dos discos direto do estúdio. Aí o mercado estava dividido, os piratas vinham da China, e eles eram inimigos. O que aconteceu? Vamos fazer uma campanha contra a pirataria! Todos os músicos ficaram putos, mas mais puto ainda fiquei quando foram todos para a campanha: Milton Falecimento, Caretano Velhoso, Chico Buraco. Eles sabem! Como os caras vão fazer aquela campanha naquela hora? Começou dali, e percebi que quando eu botava a boca no trombone, a campanha deles despencava. Estava dando certo. Eles estavam tentando convencer o povo de uma maneira antipática. Botei o povo contra as gravadoras, e falei que esses artistas todos eram asseclas das gravadoras. E era exatamente isso.

iG: Era uma atitude suicida?
Lobão: Não, eu fui na manha. Fui sabendo que eles iam cair, eu sabia.

iG: Você n¿o está contando vantagem? Como podia ter certeza?
Lobão: Tive certeza quando montei o esquema de “A Vida É Doce”. Saindo com um disco de R$ 9,90, eu podia dizer: "Como eu, duro, posso vender CD por R$ 9,90 e nas gravadoras custa R$ 38?". Eles fizeram a tática errada, porque criminalizaram o povo, e foi ali que eu comecei a me dar bem.

Leia aqui a terceira parte da entrevista com Lobão .
Leia aqui a primeira parte da entrevista com Lobão
.

    Leia tudo sobre: LobãomúsicaHerbert ViannaVímanaLulu Santos

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG