"Quem é moderno e tem mente aberta vai sacar o tecnobrega", diz Gaby Amarantos

Cantora paraense prepara primeiro disco solo e define sua música como "uma coisa meio índio high-tec"; leia entrevista ao iG

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Divulgação
Gaby Amarantos
Em 2012, a cantora paraense Gaby Amarantos promete botar o Brasil para tremer. No início do ano, seu primeiro álbum solo, intitulado "Treme", chega às lojas.

No repertório, uma pequena amostra da música do Pará: além do tecnobrega que a tornou conhecida a partir de 2002, a artista promete uma boa dose de guitarrada, carimbó, lambada e outros ritmos pouco conhecidos no sul do país.

"A ideia é trazer essa sonoridade da nova música paraense, que vai além do tecnobrega", adianta a cantora em entrevista ao iG . "Mas com uma linguagem moderna, com batidas eletrônicas, sintetizadores, samples."

Veja letras de Gaby Amarantos no Vagalume

A diferença é que, ao contrário de seus trabalhos com a banda Tecno Show, "Treme" será autoral. Não haverá versões em português de sucessos internacionais que valeram a Gaby os apelidos de "Beyoncé do Pará" e "Lady Gaga da Amazônia". "Eu sou outra coisa", garante. Ela se define como uma representante da cultura do Norte do Brasil. "O tecnobrega tem essa identidade amazônica. Ele é moderno, tem a batida eletrônica, mas você sente a floresta. É uma coisa meio índio high-tec", explica.

Índio high-tec e também sem medo nenhum de ser tachada de brega. "Sou tecnobrega, sim, eu assumo isso", afirma. Brega, explica a cantora, é um estilo de vida. "É ir para uma festa de aparelhagem (sistemas de som montados na rua, comuns em Belém) e se divertir livremente, sem se preocupar se no outro dia as pessoas vão falar mal porque você pegou um porre, subiu na mesa e dançou", ri. "Eu acredito que as pessoas são inteligentes o suficiente para entender o que o brega significa. Quem é moderno, quem tem mente aberta, vai sacar."

Nesta sexta-feira (dia 18), Gaby mostra sua música em São Paulo. Ela fará uma apresentação no Clube Glória, na zona central da capital paulista. Leia abaixo a entrevista com a cantora.

iG: Seu disco já tem nome?
Gaby Amarantos:
O disco chama "Treme", de tremer. Acredito que sairá logo no início do ano, no máximo em fevereiro estará nas lojas. A ideia é trazer essa sonoridade da nova música paraense, que vai além do tecnobrega. Tem tecnolambada, carimbó, guitarrada. Mas com uma linguagem moderna, com batidas eletrônicas, sintetizadores, samples.

iG: Você falou de vários estilos musicais do Pará...
Gaby Amarantos:
Eu sinto que estou meio que traduzindo essa música para as pessoas. Porque existe essa dúvida sobre o que é carimbó, o que é guitarrada. Então eu tive a preocupação de fazer essa espécie de manual, para as pessoas entenderem essa sonoridade.

iG: Como se você fosse quase uma embaixadora musical do Pará...
Gaby Amarantos:
Eu sou uma agente dessa cultura, eu entendo o meu papel. O tecnobrega tem essa identidade amazônica. Ele é moderno, tem a batida eletrônica, mas você sente a floresta. É uma coisa meio índio high-tec.

AE
A cantora Gaby Amarantos
iG: Por isso você diz 'eu saí da floresta, mas a floresta não saiu de mim'?
Gaby Amarantos:
Eu tenho que lembrar de onde eu vim, lembrar quem eu sou. A floresta está sempre dentro de mim.

iG: Existe um interesse maior no próprio Brasil pela música do Pará?
Gaby Amarantos:
Eu imagino quando os portugueses chegaram ao Brasil e viram os índios. É mais ou menos o que acontece quando as pessoas escutam o tecnobrega em São Paulo. E como se você estivesse conhecendo um novo Brasil. Minha missão é levar essa sonoridade amazônica para todo lugar que eu puder ir.

iG: É uma responsabilidade grande, não é?
Gaby Amarantos:
Eu sinto que meu disco é um novo passo. Ninguém antes gravava tecnobrega com guitarras de verdade, tudo era sampleado de algum lugar. A gente ousou colocar tanto guitarra quanto percussão e trio de metais. Os arranjos vocais também estão incríveis. O disco está bem encorpado.

iG: Existe preconceito contra o tecnobrega?
Gaby Amarantos:
Existe um contexto cultural aí. Algumas pessoas passam a vida aprendendo que a palavra 'brega' é algo ruim e de repente aparecem uns malucos lá do Norte que acham que essa palavra tem outro sentido. Para a gente, é um estilo de vida. É ir para uma festa de aparelhagem e se divertir livremente, sem se preocupar se no outro dia as pessoas vão falar mal porque você pegou um porre, subiu na mesa e dançou.

iG: Liberdade de expressão mesmo...
Gaby Amarantos:
É uma lição que a periferia ensina. Uma menina que nasceu num bairro pobre não está preocupada se não entra num jeans 36 ou se a raiz do cabelo dela está escura. Ela quer saber se, naquele momento, ela é a rainha daquela festa. Olha que lindo, olha como as pessoas são livres. Brega, para a gente, tem esse sentido. É a nossa música, é a nossa maneira de ser.

Leia também: Musa do tecnobrega, Gaby Amarantos festeja música do Norte

iG: Você tem medo de ser tachada de brega?
Gaby Amarantos:
Eu acredito que as pessoas são inteligentes o suficiente para entender o que o brega significa. Quem é moderno, quem tem mente aberta, vai sacar. As pessoas até tentaram colocar outro nome no tecnobrega: tecnomelody. Mas eu sou tecnobrega sim, eu assumo isso. A pessoa que não quer ouvir o meu som porque é tecnobrega é um público que não me interessa.

iG: Você teve que brigar com muita gente para cantar o que queria?
Gaby Amarantos:
Quando eu estava começando e ainda cantava em barzinhos, queriam me transformar numa cantora de MPB com vestidão e flor no cabelo. E eu disse: 'Não, eu quero ser cantora de música paraense'. Muita gente disse que eu era louca, que estava acabando com a minha carreira, que eu estava jogando a possibilidade de ser alguém no lixo. Pessoas do meio artístico, porque minha família sempre me apoiou em tudo o que eu quis fazer. 

Divulgação
Gaby Amarantos
iG: E o que essas pessoas falam hoje?
Gaby Amarantos:
Essas mesmas pessoas hoje apertam a minha mão e dizem 'parabéns por você ter tido coragem de fazer o que você realmente queria'.

iG: Voltando ao disco: quando o "Treme" foi gravado?
Gaby Amarantos:
A gente gravou um pouco em 2010 e um pouco este ano. Desde as primeiras conversas para escolher repertório já foram quase dois anos.

iG: É bastante tempo, não?
Gaby Amarantos:
É, porque eu quero apresentar uma coisa nova e com qualidade para as pessoas. A gente saiu de um processo de fazer dez músicas por dia para fazer uma música em dois, três meses.

iG: O que deu mais trabalho?
Gaby Amarantos:
A escolha do repertório foi o que demorou mais. Tive que encontrar músicas que tivessem a ver com o que eu queria passar. Porque tecnobrega é um estilo que tem muita versão de música estrangeira. E passar de um estilo que cresceu gravando versões para o autoral foi um trabalho de garimpo.

iG: O disco não tem nenhuma versão?
Gaby Amarantos:
Não, é tudo autoral. Tem músicas minhas, da Thalma de Freitas, da Iara Rennó, do Felipe Cordeiro, que é outro grande compositor. A Fernanda Takai também canta uma faixa comigo.

iG: Como aconteceu essa participação?
Gaby Amarantos:
A gente se conheceu no show da posse da presidenta Dilma. Nós cantamos juntas, mais Elba Ramalho, Mart'nália e Zélia Duncan. Eu fiz o convite e ela topou na hora. A faixa que nós gravamos chama-se "Pimenta com Sal" e conta a história de uma preta e uma branca. O Nelson Motta disse que é uma das faixas mais bonitas no disco.

iG: Para quem ficou conhecida como 'Beyoncé do Pará', não fazer nenhuma versão parece arriscado...
Gaby Amarantos:
'Beyoncé do Pará', 'Lady Gaga da Amazônia'... É uma deliciosa armadilha. Porque muita gente pensa que eu só faço versões de cantoras pop internacionais, né? Mas essas mesmas pessoas vão a meus shows e veem que sou outra coisa.

Assista abaixo ao clipe de "Xirley", de Gaby Amarantos:

null

    Leia tudo sobre: Gaby Amarantosmúsica

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG