Produtor relembra histórias e dia-a-dia de John Lennon

Hoje no Brasil, o engenheiro de som Roy Cicala, responsável por toda a carreira solo do beatle, fala ao iG

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Roy Cicala posa em Nova York ao lado de John Lennon e Yoko Oko, no final da década de 1970
Atrás do muro alto de uma casa de dois andares na Vila Mariana, em São Paulo, esconde-se uma testemunha ocular da história da música no século 20. Pelas mãos e pela mesa do produtor e engenheiro de som Roy Cicala já passaram músicas de Frank Sinatra, Jimi Hendrix, Bruce Springsteen, David Bowie, Lou Reed, The Who, Miles Davis, Elton John, Kiss, Santana, Tom Jobim, Moraes Moreira e muito, muito mais – a lista é grande. Radicado há cinco anos no Brasil, onde mora com a filha, brasileira, e comanda um estúdio, teve papel fundamental na carreira de John Lennon, que completaria 70 anos neste sábado (09): gravou todos os álbuns solo do ex-beatle, ajudou a salvar o casamento com Yoko Ono e sediou as derradeiras sessões de Lennon horas antes de sua morte. Cicala não só assistiu a tudo de camarote, como colocou a mão na massa.

O começo, com Jimi Hendrix

Sem revelar a idade, Cicala disse, em entrevista ao iG , que entrou no negócio cedo, ao montar um pequeno estúdio no porão da casa dos pais, em New Haven, Connecticut. "Comecei quando era um bebê, tinha uns 17, 18 anos", lembra. Bem relacionado, fazia trabalhos para Jerry Greenberg, presidente da Atlantic Records, e em seguida se mudou para Nova York. Sua mulher, a cantora Laurie Burton, tentava carreira solo e compunha para a gravadora Motown. Os contatos levaram à fundação do estúdio Record Plant, que se tornaria um dos mais importantes do mundo – o trabalho inaugural, com o sócio Gary Kellgren, foi "Eletric Ladyland" (1968), de Jimi Hendrix. "Às vezes não acredito nos discos que fiz. A Record Plant era o melhor estúdio da época, chegamos a ter dez discos do Top 10."

O encontro com Lennon

O encontro com Lennon aconteceu quase por acaso. No final dos anos 1960, Cicala foi a Londres falar com os Bee Gees e acabou sendo apresentado a John. "Encontrei ele, nos cumprimentamos e falei para dar um alô quando viesse aos Estados Unidos. Felizmente, quando ele foi já apareceu querendo gravar. Não fiquei exatamente surpreso – estava feliz, porque sabia como estávamos fazendo as coisas bem no estúdio."

Era um período díficil para Lennon. Recém-saído dos Beatles, lidava com a pressão de iniciar a carreira solo e as agruras da terapia do grito primal, uma espécie de exorcismo psicológico dos demônios da infância, coisa que ele tinha de sobra. Além disso, por conta de um processo mal-resolvido por posse de maconha em 1968, não conseguia transferir dinheiro da Inglaterra para os EUA. "Lennon estava se sentido inseguro na América", conta Cicala. "Cheguei a emprestar dinheiro quando começamos a trabalhar juntos, comprei equipamentos de som para ele. Tenho cartas em que ele diz 'obrigado pelo pão', quer dizer, 'dinheiro'. Era uma viagem."

Apesar da situação, em estúdio Lennon se comportava como um profissional – era rápido e esperto. "Costumávamos gravar ao vivo. Ele entrava na sala acompanhado por baixo e bateria e escrevia as letras ali mesmo, algumas vezes em 15 minutos, outras em dois, três dias. Daí ele ia para casa e eu ficava mixando, ligava quando ficava pronto. Era fantástico trabalhar com ele."

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Roy Cicala recentemente, ao participar de programa de rádio em São Paulo
A influência de Yoko

Yoko estava sempre por ali. Roy gravou alguns dos álbuns experimentais da artista japonesa, sua amiga até hoje, em que ela brincava com vocais gritados e equipamentos eletrônicos em faixas de até 15 minutos. Vocais, aliás, que influenciaram muito Lennon, como ficou evidente em "Plastic Ono Band" (1970), seu primeiro disco solo. Fora isso, Cicala descarta um papel maior de Yoko nas músicas e arranjos, apesar do que as pessoas falavam. "Ela não era tão difícil assim. Estava insegura por todo mundo não gostar dela, mas nunca tivemos nenhum problema. Yoko era uma garota e tanto."

O produtor também tem boas histórias sobre o clima descontraído no estúdio, "essencial" para um bom trabalho, segundo ele. Depois do início difícil, Lennon ficou bem mais relaxado e bem-humorado. Cicala lembra de um episódio na reta final de “Mind Games” (1973). Durante a masterização do álbum, Lennon ligou do décimo andar do prédio onde ficava a Record Plant e disse, em tom fúnebre: "Temos um problema, suba logo". Ao sair do elevador, Cicala viu a fita com a cópia final do disco toda enrolada, formando uma pilha de um metro de altura, como se o equipamento tivesse estragado e mastigado tudo. Em pânico, foi embora sem olhar para trás. "Mais tarde ele me ligou, rolando de rir. Não tinha acontecido nada, só estavam tirando sarro da minha cara. Mas dei o troco."

O “fim de semana perdido”

Pouco tempo depois, Lennon teve um caso e seu casamento sofreu um baque. Separado, deixou Yoko em Nova York e foi para Los Angeles levando May Pang, uma antiga assistente, na bagagem. Era o início do "Lost Weekend" (fim de semana perdido), período de um ano e meio famoso pelo abuso de álcool, drogas e melancolia. "Ele sentia muita saudade dela, e ela também. Sempre achei que eram almas-gêmeas. Enfrentaram um problema e queriam voltar a ficar juntos, mas uma hora um era o teimoso, depois o outro", garante Roy, que acompanhou Lennon naquele período na filial da Record Plant.

Oficialmente, o casal só reatou os laços quando Lennon viajou a Nova York, em novembro de 1974, para participar de um show de Elton John, que havia tocado piano no sucesso "Whatever Gets You Thru The Night", primeiro lugar nas paradas norte-americanas. Mas Cicala afirma que foi o intermediário, um mês antes, da reconciliação. "Liguei para Yoko de Los Angeles, quando eu estava hospedado num bangalô de um hotel de Beverly Hills. Ela veio e alugou outro ao lado do meu para tentar resolver as coisas. Deu certo."

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Foto rar de Harry Nilsson, Paul McCartney (de bigode) e John Lennon em Los Angeles, 1974
O reencontro de Lennon e McCartney

A temporada na Califórnia rendeu o álbum "Walls and Bridges" (1974), parte dos covers de "Rock 'n' Roll" (1975) e o primeiro reencontro de Lennon e McCartney. Auxiliado por Jimmy Iovine (depois presidente da Interscope Records), Cicala gravou tudo. As fitas originais foram destruídas num incêndio em Nova York, mas um bootleg – em péssima qualidade – documenta aquela jam. "Foi despretensioso. Estávamos nós, McCartney, Ringo, Leon Russell, Harry Nillson, Stevie Wonder no piano. Não havia pressão da gravadora, ou de Phil", lembra. É importante ressaltar: esta foi a única vez em que Lennon e McCartney estiveram juntos em um estúdio após o fim dos Beatles.

Phil é Phil Spector, produtor de boa parte da carreira solo de Lennon, responsável por arrematar o último álbum dos Beatles, "Let It Be", e atualmente preso por homicídio. Louco por armas, famoso por seu comportamento excêntrico, uma vez, do nada, deu um tiro dentro do estúdio em Los Angeles. "Acho que era um revólver com balas de festim, como aqueles para começar uma corrida, mas não procurei por buracos nas paredes, nunca quis saber", conta Cicala. Em outra ocasião, em Nova York, Spector movia a mão direita rumo a um botão da mesa de som, mas a esquerda puxava-a de volta. "Ele ficou assim um tempão. Queria me esconder embaixo da mesa de som."

Os últimos momentos de Lennon

Depois de "Rock 'n' Roll" e da gravidez de Yoko, que esperava o primeiro filho do casal, Sean, Lennon "meio que se aposentou", afirma Cicala. O fim do jejum aconteceu com "Double Fantasy", lançado poucos dias antes do assassinato do cantor, em dezembro de 1980. O disco foi produzido por Jack Douglas, antigo assistente de Cicala, que acompanhou todo o processo. "Ele estava na minha sala de mixagem, na West 44th St (em Nova York), e tinha recém-saído de lá quando foi baleado", conta o produtor. Uma prova do trabalho dos dois, no entanto, ficou: a música "Incantation". Composta por Lennon e Cicala, nunca ganhou lançamento oficial, apesar de ter sido encartada num livro sobre o beatle.

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Cicala fala no documentário "LENNONYC"
Cicala em São Paulo

Cicala mudou-se para São Paulo para ficar preto da filha, que mora na cidade. Ele montou um estúdio na capital paulista, por onde já passaram artistas como Lobão, Sandy, Nasi, Marcelo Yuka e os novatos da Optic Yellow Felt, OYF, sua nova aposta. Ele tenta recuperar o espírito das gravações que conduziu – as gerações atuais de técnicos, ele garante, não sabem posicionar microfones, apesar de usarem computadores "até no banheiro". "Às vezes deixávamos as músicas com erros porque ainda adorávamos o resto do take, até para o público perceber que não éramos perfeitos. É o contrário do que fazem hoje, de ir ao Pro Tools e arrumar cada palavra, cada sílaba, e tirar o sentimento das músicas. É um pouco triste às vezes, e é por isso que vamos abrir uma escola, a Record Plant School."

Cicala é um dos entrevistados do documentário "LENNONYC", que estreou recentemente nos Estados Unidos, como parte das comemorações do aniversário de 70 anos de John, e foi exibido no Festival do Rio. Quando esteve em Nova York para gravar sua participação, Cicala soube dos planos de Yoko de promover o filme no Brasil, mas a negociação, aparentemente, não foi para frente por conta dos temores da equipe. "Eles estão com medo, medo do Rio de Janeiro, da violência." O Brasil acabou fora da festa, que chega ao auge neste sábado, num tributo a Lennon na Islândia.

Veja abaixo alguns dos discos que foram gravados/produzidos por Roy Cicala.

- The Jimi Hendrix Experience: "Electric Ladyland" (1968)
- Frank Sinatra: "Watertown" (1969)
- John Lennon & Yoko Ono: "Plastic Ono Band" (1970)
- Yoko Ono: "Fly" (1971)
- John Lennon: "Imagine" (1971)
- Alice Cooper: "School's Out" (1972)
- John Lennon & Yoko Ono: "Sometime in New York City" (1972)
- John Lennon: "Mind Games" (1973)
- John Lennon: "Walls and Bridges" (1974)
- Aerosmith: "Get Your Wings" (1974)
- Bruce Springsteen: Born to Run (1975)
- Aerosmith: "Toys in the Attic" (1975)
- John Lennon: "Rock 'n' Roll" (1975)
- David Bowie" "Fame" (1975), single
- Bruce Springsteen: "Darkness on the Edge of Town" (1978)
- David Bowie: "Lodger" (1979)
- John Lennon & Yoko Ono: "Double Fantasy" (1980)
- Tom Jobim: "Passarim" (1987)

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