Pompa e circunstância para o Rei Roberto Carlos

Espetáculo Elas Cantam Roberto abusou da solenidade para dar importância ao cantor

Augusto Gomes |

No instante em que Hebe Camargo surgiu no palco do Teatro Municipal de São Paulo, abrindo o show Elas Cantam Roberto, em que duas dezenas de cantoras interpretam músicas de Roberto Carlos, já foi possível perceber qual seria a atmosfera que dominaria a noite. Os figurinos das cantoras, os arranjos das músicas, a escolha do local da apresentação: os organizadores se esforçaram em fazer algo solene e, digamos, sofisticado.

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A impressão é que todos aqueles adereços estavam lá para legitimar a obra de um compositor que, mesmo sendo considerado um dos maiores nomes da música brasileira, ainda leva consigo o adjetivo 'popular' (no sentido pejorativo da palavra). Em outras palavras: como se fosse preciso colocar a obra do Rei num palco de respeito, interpretada por uma verdadeira constelação e vista por gente elegante, para assim lhe dar a devida importância.

Marcos Hermes / Divulgação
Adriana Calcanhotto


Os melhores momentos da noite, curiosamente, lidaram de maneiras opostas com tanta pompa. Adriana Calcanhotto preferiu a simplicidade: descalça, dispensou a orquestra e cantou uma brilhante Do Fundo do Meu Coração acompanhada só de seu violão. Mostrou que, para dar a devida importância à obra de Roberto Carlos, só é preciso alguém para cantar e alguém para ouvir. Do resto, a própria obra cuida sozinha.

Já Marília Pêra foi pelo lado do exagero: usou da mais descarada canastrice para recriar 120, 130, 150km por Hora. O refrão era gritado a plenos pulmões, enquanto a atriz jogava a cabeça para trás a ponto de parecer cair de costas. E assim a presença de Roberto Carlos foi desaparecendo diante de tantos adereços colocados em sua música. Pode até não ter sido intencional, mas funcionou como uma crítica a toda solenidade da noite.

Infelizmente, as outras intérpretes que tentaram fugir do figurino quadrado do show se deram mal: o estilo malandro de Mart'nália ficou deslocado em Só Você Não Sabe; Marina Lima teve que, novamente, lutar contra sua própria voz, dessa vez ao cantar Como Dois e Dois; e Fernanda Abreu não só cantou como dançou pessimamente na tentativa de recriar a fase funk de Roberto Carlos em Todos Estão Surdos (justiça seja feita: a banda também não tinha suíngue nenhum).

Hebe Camargo abriu a apresentação um tanto nervosa, com Você Não Sabe. Depois, foi a vez de Luiza e Zizi Possi, com Canzone Per Te. Zizi então ficou sozinha e cantou Proposta. Poderia ter sido o primeiro bom momento da noite, se o som de seu microfone não tivesse oscilado tanto. Seu belo vocalise no final da música mal foi percebido, já que foi soterrado pelo som dos instrumentos da orquestra. Essa oscilação do volume repetiu-se em outros números.

Felizmente, não no de Alcione. Ela recebeu os primeiros aplausos mais entusiasmados, ao transformar Sua Estupidez num blues com seu jeito bem particular de cantar. Em seguida, uma segura Fafá de  Belém injetou drama em Desabafo, e também caiu nas graças da plateia. A cantora lírica Celine Imbert não conseguiu manter o nível de empolgação com À Distância, apesar de sua bela voz (e da grande música, uma das melhores da dupla Roberto e Erasmo).

Coube a Daniela Mercury a tarefa de mudar o tom de romântico para dançante, ao cantar Se Você Pensa, com direito a vestido curtinho (antes dela, os longos dominaram) e coreografia com dois dançarinos. Mas só na segunda tentativa: na primeira vez que ela entrou no palco, seu microfone estava desligado, e ela teve que repetir. Depois de Se Você Pensa, Daniela ainda fez um dueto com Wanderléa em Esqueça.

A Ternurinha (numa minissaia para lá de ousada, diga-se de passagem), companheira de Roberto Carlos da época da Jovem Guarda, continuou no palco para cantar, agora sozinha, a uma bela Você Vai Ser o Meu Escândalo. Deu então lugar a Rosemary (só escalada para o espetáculo a pedido do próprio Roberto Carlos), que cantou Nossa Canção. Uma composição, na verdade, de Luiz Ayrão, mas que ficou famosa na voz do Rei.

O roteiro seguiu com Fernanda Abreu e sua mal-sucedida Todos Estão Surdos e Paula Toller numa versão um tanto desafinada de As Curvas da Estrada de Santos. Depois, vieram Marília Pêra (120, 130, 150km por Hora), Marina Lima (Como Dois e Dois, que Caetano Veloso fez para Roberto Carlos cantar) e Sandy, que saiu bastante aplaudida mesmo com sua versão sem personalidade de As Canções Que Você Fez Pra Mim.

A reta final do espetáculo teve Mart'nália (Só Você Não Sabe), Adriana Calcanhotto (Do Fundo do Meu Coração), Claudia Leitte (abusando das acrobacias vocais em Falando Sério), Nana Caymmi (conseguindo emocionar com Não Se Esqueça de Mim) e uma ovacionada Ana Carolina, com Força Estranha (outra composição que Caetano Veloso fez especialmente para Roberto Carlos).

Marcos Hermes / Divulgação
Ivete Sangalo


Coube a Ivete Sangalo a honra de ser a última a se apresentar. Ela surgiu do fundo do palco, cantando bem Os Seus Botões. Ao terminar, resolveu bater um papo com o público (coisa que ninguém havia feito, até então). Arrancou risadas, perguntou se estava bonita, mostrou a barriga de grávida. Não durou nem cinco minutos, mas deixou o clima mais descontraído. Ela então cantou Olha e depois preparou o terreno para a entrada do Rei.

A trilha sonora, é claro, foi Emoções, música com que o cantor abre seus shows há décadas. O quando eu estou aqui e vivo esse momento lindo da letra pareceu bastante sincero na voz de Roberto. Finalizada a canção, ele recebeu todas as cantoras de volta ao palco. E foi aí que o título do show, Elas Cantam Roberto, ganhou outro significado, quando todas cantaram Como É Grande Meu Amor por Você.

Uma a uma, elas interpretaram pedaços da letra para o próprio Roberto. Umas poucas só olhando em seus olhos, outras se agarrando nele mesmo. A mais tímida foi Sandy, que se manteve mais distante. O número, aparentemente, foi mal ensaiado, porque várias erraram a hora de cantar. Mas todos pareciam estar se divertindo tanto (Hebe Camargo e Fafá de Belém, inclusive, deram suas gargalhadas características) que o público entrou na brincadeira.

Ainda houve um bis, com É Preciso Saber Viver, mas Roberto cantou sozinho. As demais artistas, apesar de estarem no palco, só fizeram figuração, porque não havia microfone para todas. O show fez parte das comemorações dos 50 anos de carreira do cantor. Vai virar um CD e um DVD ao vivo, e também um especial da TV Globo, a ser exibido no próximo domingo (31). Além dele, a programação do aniversário inclui, até 2010, espetáculos especiais com roqueiros e depois sertanejos cantam a obra de Roberto.

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