Pianos que valem US$400 mil sofrem sem manutenção adequada no Rio

Especialistas criticam estado de instrumentos, que sofrem com pedais quebrados e estrutura atacada por cupins

Paula Costa, especial para o iG |

Divulgação
Gershwin Piano Quartet
Eles deveriam ser sinônimo de requinte, som de altíssima qualidade e tratados com cuidado – muito cuidado. Mas os pianos de primeira linha do Rio de Janeiro sofrem atualmente com a falta de manutenção adequada. Na segunda-feira (6), o palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro acomodou quatro  pianos Steinway & Sons para receber o Gershwin Piano Quartet , grupo suíço que toca, simultaneamente, quatro pianos de cauda e improvisa sobre algumas das canções e peças orquestrais mais conhecidas do compositor americano George Gershwin. O resultado da apresentação, porém, ficou abaixo do esperado.

“Foi um concerto muito importante para todos os músicos. O Brasil tem um público caloroso, mesmo em um espetáculo clássico. Mas o brilho dos pianos ficou um pouco ofuscado. Não posso afirmar que foi por causa dos instrumentos ou por causa da acústica, porque só tivemos uma apresentação”, afirma Richard Bächi, gerente do quarteto.

Considerados os melhores pianos de cauda em salas de concerto no Estado, os instrumentos que foram usados na apresentação não recebem o tratamento adequado. Steinway & Sons é a marca preferida para grandes concertos, por se tratar de pianos com excelência sonora incontestável. As virtudes dos pianos da marca têm um alto valor. O mais barato custa em torno de US$ 30 mil. Já o mais indicado para orquestras sinfônicas não sai da fábrica por menos de US$ 100 mil. Um investimento de porte.

Cupim e pedais quebrados

“A maioria dos pianos do Rio são carentes de manutenção. Afinei os quatro melhores do Estado, para o quarteto Gershwin, e os pianistas tocaram com dois pedais quebrados”, conta Mauro Jackson, afinador há vinte anos. Segundo ele, a peça deveria ser trocada o quanto antes, para não comprometer a qualidade do som. Os dois pianos do Theatro Municipal apresentam problemas nos pedais: um está frouxo e o outro completamente quebrado. “Aqui não tem nenhum piano em ótimo estado. Na sala Cecília Meireles tem um muito bom, mas todos eles precisam de mais atenção”, acentua.

George Magaraia
Detalhe do piano Steinway & Sons atacado por cupim
É fato que a madeira está suscetível a ter problemas com insetos, como traças, brocas e cupins. Mas uma manutenção cuidadosa evitaria esse problema. Os rastros dos cupins são visíveis até para leigos. Eles deixam um farelo de madeira espalhado na ferragem do instrumento, o que pode ser visto com facilidade nas fotos exclusivas feitas pelo fotógrafo do iG no último sábado (4), data em que a reportagem acompanhou o transporte de um dos pianos .

Os instrumentos Steinway & Sons que foram utilizados no concerto são de quatro décadas diferentes - 1967, 1977, 1987, e 1997. O mais antigo é o que apresenta marcas deixadas pelos cupins. A idade do piano – 44 anos – é considerada pequena em se tratando de um instrumento tão caro, feito artesanalmente, e que exige cuidados mais específicos. Esse instrumento pertence à sala Cecília Meireles, que passa por uma reforma.

Cordas e martelos intactos

Para o diretor do espaço, João Guilherme Ripper, os cupins não provocam tantos estragos. “O piano não sofre muito por conta dos cupins. Só se a quantidade atingida for absurda. As cordas e os martelos ficam intactos”, define Ripper. “Recentemente, um de nossos pianos passou por uma estufa, e foi totalmente renovado. Tudo isso realizado por um técnico da Steinway”, disse ele, garantindo que o instrumento está em perfeito estado.

Há quem discorde. “O cupim é terminal para qualquer instrumento”, afirma ao iG o proprietário do estúdio e gravadora Visom Digital, Carlos Andrade. “Principalmente o piano, que tem toda sua estrutura em madeira. Esse inseto come as entranhas do instrumento. E isso não afeta só a sonoridade, mas enfraquece a resistência dos martelos e a estrutura das teclas”. O empresário possui um piano da marca Yamaha, modelo CF-IIIS, no seu estúdio, e conta que cuida do instrumento com toda a atenção que ele merece. “O piano é feito com uma madeira nobre. Se houver uma manutenção adequada, e uma prevenção séria, o instrumento fica totalmente livre desse tipo de praga”, comenta.

Carlos Andrade ainda lembra que o seu piano é feito de uma madeira especial, e que essa matéria prima não existe mais, foi extinta e, por conta disso, esta série de pianos são considerados os instrumentos de referência da Yamaha, não podem mais ser produzidos. “Se eu não der a manutenção adequada, nunca mais poderei ter um. É um instrumento raro, produzido artesanalmente por mestres japoneses e data de 1976. Essa consciência é fundamental para preservar o piano”, conclui.

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