Petardos do crítico irascível

Tinhorão fala da bossa-nova, um velho desafeto, e também aborda um tema mais contemporâneo: o funk carioca

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG |

José Ramos Tinhorão, o historiador sisudo, volta a se misturar com o crítico irascível, e a topar de frente com a velha bossa nova. Aponta cópias musicais xerocadas por um célebre compositor do movimento. Algo a contragosto, é provocado a discorrer sobre o funk carioca. E a comentar semelhanças entre seus métodos marxistas e o comportamento dos rappers brasileiros de hoje em dia. Ê, volta do mundo, camará.

Não havia uma contradição em você? Falava dos cantadores, mas quando as multinacionais lançavam discos deles.
Porque eu era pago para escrever sobre o que saía em disco. Se eu fosse falar do cantador não gravado em disco, eu não estaria escrevendo a seção de discos do Jornal do Brasil, eu seria um folclorista. Mas claro, só conheci o Zé Coco do Riachão porque a gravadora produziu um disco dele.

Lendo hoje suas críticas, consigo concordar com muitos argumentos sobre a bossa nova ou a música de mercado. Mas não concordo que eu precise rejeitar tudo que se faz por conta dessas restrições.
Mas eu não rejeito, rapaz! A minha implicância com a bossa nova era por quê? Porque é música americana montada no Brasil. A única coisa original do que se chama de bossa nova é a batida de violão do João Gilberto, não é nem o que ele canta. Use o seu ouvido, não precisa saber música. Tinha alguma coisa antes tocada desse jeito? Não. Ora, se não tinha o cara inventou. Mas o que se montou em cima foi harmonia e até melodia de música americana! Se quiser um exemplo, vá ao seu computador e procure no YouTube a Judy Garland cantando "Mr. Monotony" , anota aí. “Surprise”, vai dizer: “Opa, mas isso aqui é do fulano de tal!”. É de um grande compositor de bossa nova brasileiro, gravado em 1942 nos Estados Unidos pela Judy Garland. Quer uma outra? Já que você está na internet, pegue a "Overture da Ópera dos Três Vinténs" , de Kurt Weill, de 1928. Ligue que você vai reconhecer um tema de um grande compositor de bossa nova brasileiro. Te deixo de surpresa, não vou dizer quem é, porque ouvindo você mesmo vai saber.

Divulgação
O historiador e crítico na redação do Jornal do Brasil, em 1960
Então, a gente sabe dessas coisas, está consciente delas, mas não pode conviver com a bossa nova mesmo assim?

Mas é claro que pode! Você não vai matar a bossa nova, você tem que conviver. Eu nunca disse “isto tem que acabar”. Duvido que você veja alguma vez eu falando coisas nesses termos.

Você trata isso como plágio, mas hoje o sampler é linguagem corrente.
Não, não diga que eu chamei de plágio. É uma anterioridade que demonstra o quê? Que aqueles que são consideradas os grandes da bossa nova eram ouvintes muito atentos de música importada dos Estados Unidos, que às vezes não era nem americana, porque Kurt Weill era alemão.

A preocupação grande com fronteiras não faz menos sentido hoje?
Não, rapaz, ih, já vi que a tua cabeça... Você é um homem do sistema... Não existe globalização nesse sentido em que você aceita. O mundo não está globalizado. Os Estados Unidos não são um país globalizado. Se for lá, vai ouvir o rock deles, vai ver os filmes deles, com a violência deles. Os enlatados americanos não são enlatados brasileiros, mas os enlatados brasileiros são enlatados americanos. O mundo não está globalizado, está comprando produtos culturais como compra geladeira, automóvel.

Qual é a solução? Fechar as fronteiras do Brasil?
Mas eu não discuto soluções! Essa é outra coisa, rapaz. Não vou dizer que é o teu caso, mas na argumentação contra o Tinhorão chega a ser desonesto, porque você começa a pedir a ele coisas que ele não diz. A minha análise não é feita para dizer como as coisas devem ser. É para dizer como elas me parecem que são.

O Brasil hoje exporta cultura, o funk carioca por exemplo.
Mas exatamente, o que chega do Brasil é o funk carioca. O que é o funk carioca? É uma diluição da música de massa norte-americana imposta a partir do dancin’ days, sei lá.

Você não vê nenhum grau de originalidade e criatividade inserido pelos meninos da favela do Rio de Janeiro nesse processo?
O menino da favela, rapaz, é um menino submetido ao que ele ouve. Ele é exatamente como ele sai no terceiro ano primário para ir trabalhar. Ele é semi-analfabeto. Sim, ele tem criatividade, mas fica só dentro dele.

A alternativa é não gostar de nada? Quando ouvir um funk carioca sentindo prazer, vou lembrar que o Tinhorão me acha um colonizado.
Não. Você é um colonizado, quando você gosta você é um colonizado. Há uma explicação para você gostar: é o fato de ser colonizado.

Não acha que o Brasil está melhorando?
Estão melhorando as condições, se aumenta a capacidade econômica você começa a fazer coisas que antes a falta de dinheiro não permitia. Se triplicarem seu salário você passará a comprar mais coisas, mas vai se tornar mais brasileiro porque tem mais dinheiro? Não, vai comprar mais coisas que o mercado oferecer.

É um beco sem saída?
Então escreva isso: Tinhorão é um cara que deixa as pessoas num beco sem saída.

Você é?
Estou dizendo o que você disse, “quando ouvir um funk, vou me achar um pouco boboca”. Não, você não é boboca, você foi feito assim.

Quando vou a um show de rap, ouço aqueles meninos falarem de luta de classes, de coisas muito parecidas às que Tinhorão falava quatro décadas atrás.
Eles usam uma linguagem musical de menino de Nova York da década de 70. Eles podem falar, mas os livros também falam.

Os sambistas dos anos 30 não falavam essas coisas.
Porque eles tinham suas razões para sequer ventilar isso.

Para terminar: então você frequenta internet, YouTube?
Via minha mulher. Ela é que brinca nas ondas.


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