Paulo Moura derrubou barreiras na música

Em 60 anos de carreira, instrumentista passou pela MPB, jazz, choro e outros estilos, ao mesmo tempo em que tocava em orquestra

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Acervo pessoal
Paulo Moura: expert no clarinete, músico deixa saudade na cena instrumental brasileira
Há artistas que dedicam a vida à música erudita e músicos que se entrelaçam à música popular. E há, raros, os músicos que transitam fluentemente entre esses dois universos, ignorando as não poucas incompatibilidades entre ambos. Paulo Moura pertenceu à terceira estirpe. Nascido em São José do Rio Preto (SP) em 15 de julho de 1932, atravessou a vida alternando-se entre orquestras sinfônicas e gafieiras e devotando paixão equivalente ao erudito, ao jazz, ao choro, ao samba, à MPB, e assim por diante. Moura morreu na noite desta segunda-feira , aos 77 anos, vítima de um câncer.

Seu pai, marceneiro e clarinetista de banda em São José do Rio Preto, ensinou música aos seis filhos homens, com o objetivo indireto de desviá-los da linha de batalha, caso fossem convocados para a Segunda Guerra Mundial. A família se mudou para o Rio de Janeiro em 1945, quando Paulo já atuava no conjunto de baile do pai. Clarinetista e saxofonista, ele se iniciou profissionalmente nas gafieiras cariocas da praça Tiradentes e dos subúrbios da cidade. Essa veia mais popular se manifestaria em diversos momentos de sua carreira, como nos discos Fibra (1971), Confusão Urbana, Suburbana e Rural (1976, produzido pelo sambista Martinho da Vila) e Pixinguinha (1997), esse último todo baseado na obra do mestre pioneiro da fusão entre erudito e popular.

Em 1950, Paulo ingressou na Escola Nacional de Música, onde aprendeu clarineta, teoria musical, harmonia, regência, orquestração, arranjo. Estudou com professores como Guerra Peixe, Moacir Santos e o maestro Cipó – a partir daí, o virtuosismo vinha se somar à intuição musical nata. No ano seguinte, entrou pela primeira vez num estúdio de gravação, como integrante da orquestra que acompanhava Dalva de Oliveira em Palhaço . Nessa mesma condição, acompanhou gravações de Nelson Gonçalves, Dircinha Batista, Carlos Galhardo e Núbia Lafayette. Ainda em 1951, atuou como terceiro saxofonista num concerto do maestro Leonard Bernstein no Rio.

Acervo pessoal
Paulo (direita) no Planetário da Gávea, em 1976
Ainda no início da década de 50 se aproximou do jazz e de músicos que, como ele, seriam precursores da bossa nova: Johnny Alf, Dick Farney, João Donato. Em 1956, já tinha sua própria orquestra e gravava com ela discos de jazz. Em 1959, fez concurso e se tornou primeiro clarinetista do Teatro Municipal do Rio, onde permaneceu por 19 anos e tocou sob regência de nomes como Igor Stravinsky e Isaac Karabtchevsky. Paralelamente, atuou no Golden Room do Copacabana Palace, como primeiro saxofonista de orquestras que acompanhavam Lena Horne, Ella Fitzgerald, Nat King Cole, Sammy Davis Jr. e Marlene Dietrich.

No início dos anos 60, dividia-se entre o Teatro Municipal, o trabalho como músico da TV Excelsior e a efervescência do Beco das Garrafas. Como integrante do Bossa Rio, de Sergio Mendes, participou do célebre concerto da bossa nova no Carnegie Hall de Nova York, em 1962. Para Elis Regina, fez arranjos como os das músicas "Menino das Laranjas" e "João Valentão", do disco Samba – Eu Canto Assim (1965).

Acervo pessoal
O músico no Theatro Municipal do Rio, antes de receber a Ordem do Mérito Cultural, em 2008
No final dos anos 60, o jazz pautava discos como os cultuados Hepteto e Quarteto, em que ele liderava músicos como Wagner Tiso, futuro arranjador do Clube da Esquina, e Oberdan Magalhães, futuro fundador da Banda Black Rio. Ao jazz vinha se somar a crescente influência da chamada black music no trabalho de Paulo, que em 1971 seria arranjador do LP de estreia de Toni Tornado. Nessa época, ele dedicou-se ao pop de extração black no disco de baile Pilantocracia (1969, creditado a Os Pilantrocratas), na esteira do sucesso fulminante da pilantragem de Wilson Simonal.

O levante black seria abortado de modo traumático, sob a repressão da ditadura militar, mas Paulo seguiria exercendo discreta militância no movimento negro. Fez arranjos para o histórico disco O Milagre dos Peixes (1973), de Milton Nascimento. Em 1977, participou do Festival de Artes Negras, na Nigéria. Em 1987, formou o Quarteto Negro, com Zezé Motta, Djalma Corrêa e Jorge Degas. Em 13 de maio de 1988, compôs e regeu o "Concerto da Abolição", apresentado pela Orquestra Sinfônica de Brasília nas comemorações do centenário da abolição dos escravos. No mesmo ano, tocou em "Negro Gato", acompanhando o primeiro show de Marisa Monte.

De sua ligação com a MPB, surgiram arranjos para discos de artistas como Fagner, João Bosco e Ney Matogrosso. Em anos recentes, participou de uma série de discos em dupla, com João Donato, Yamandú Costa, Josildo Sá e Armandinho. Com esse último gravou AfroBossaNova (2009), dedicado a africanizar temas de Tom Jobim. Se hoje se valoriza e se cultiva o hábito de derrubar as barreiras (imaginárias) que teimam em separar a música brasileira “popular” da “erudita”, a Paulo Moura se devem homenagens e agradecimentos irrestritos: foi para isso que ele se esforçou incansavelmente, ao longo de toda sua vida na música.

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