Por Katia Abreu

Comemorando 25 anos de carreira, dois dos principais grupos do boom roqueiro dos anos 80 se reuniram para uma turnê conjunta ano passado. E este CD/DVD gravado na noite de encerramento, 26 de janeiro, na Marina da Glória, Rio de Janeiro, é, sem dúvida, um registro histórico para o rock nacional. Frente uma platéia formada por jovens adultos, que cresceram ouvindo suas músicas no rádio ao longo das duas últimas décadas, Herbert Vianna, João Barone, Bi Ribeiro, Branco Mello, Paulo Miklos, Sérgio Brito, Tony Belloto e Charles Gavin conduzem a apresentação em clima de jam entre velhos amigos e agradam alternando canções do repertório das duas bandas, como Marvin, Uma Brasileira, Trac-Trac, Go Back, Óculos, Meu Erro e Flores. Há um saudável saudosismo no ar, oscilando entre a leveza ensolarada característica dos Paralamas e certa densidade rocker própria dos Titãs.

A dualidade entre a fúria e a insegurança juvenis e algumas certezas não muito animadoras da vida adulta abre o show, contrapondo Diversão e O Calibre, ambas em clima setentista, com ares meio bluesy na guitarra de Belloto. Na primeira, registrada pelos Titãs em de Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas, de 1987, cantam que Às vezes qualquer um / Faz qualquer coisa / Por sexo, drogas e diversão / E tudo isso às vezes só aumenta a angústia e a insatisfação. Na outra, do disco O Longo Caminho, lançado pelos Paralamas em 2002, perguntam: Há quanto tempo você sente medo / Quantos amigos você já perdeu / Entrincheirado, vivendo em segredo / E ainda diz que não é problema seu. A escolha de enfileirá-las é perfeita para evidenciar o momento maduro de ambas as bandas, que conscientes de não serem mais jovens inconseqüentes, fazem neste DVD um tributo à honestidade, pinçando diversos momentos de suas carreiras e transformando-os em registros dignos de artistas que souberam envelhecer.

Em dado momento, Sergio Brito diz à platéia que eles vão fazer o possível e o impossível para que a noite seja inesquecível e começa um lualzinho, com todos sentados, luzes mais baixas, guitarra havaiana e percussões embalam A Novidade de Gilberto Gil, acompanhados em coro e palmas por um público que provavelmente passou muitas férias de verão cantando essa música ¿ aprendida naquelas revistinhas de cifras ¿ em rodinhas de violão na praia. O sol volta a dar as caras na figura de Samuel Rosa, que traz ares mineiros, mais adocicados, à Lourinha Bombril, e após cantar O Beco agradece pela oportunidade de tocar com meus heróis.

É curioso e positivo que os roqueiros veteranos tenham convidado um discípulo, alguém pertencente a geração seguinte, como se tivessem mostrando a seu público que sua obra deu frutos. É assim também com Andreas Kisser, que aparece em Polícia (que o guitarrista inclusive gravou com o Sepultura, em 1993, no disco Chaos AD). O vocal gritado meio rapper sobre uma muralha de guitarras, tentando emular a violência da juventude, produzem, nesta canção, uma espécie de new metal tropical ¿ que, como o new metal original, é absolutamente dispensável.

Outra passagem desnecessária é quando Branco Mello apresenta os músicos e introduz A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana. Não fosse esta a pior músicas dos Titãs de todos os tempos, teria sido uma homenagem bonita. E irônica, já que aqui estamos diante de duas carreiras sólidas. Eles se redimem, entretanto, pela inclusão de Cabeça Dinossauro (uma de suas melhores e menos conhecidas músicas, considerada um marco nas experimentações sonoras no rock nacional), calcada num duelo infernal das duas baterias ¿ mostrado em edição especial nos extras.

Há, mais quando se assiste ao DVD do que quando se ouve o CD, uma sensação estranha. Paulo Miklos tão dócil no palco faz pensar que existe um cuidado em não cair naquele que seria o pior de todos os equívocos: o de tentar parecer jovem. Porque se por um lado é um pouco desconfortável ver senhores bem sucedidos e bem vestidos tocando rocknroll, é muito mais digno que seja assim, de forma mais comedida, do que ver marmanjos macaqueando no palco feito crianças ¿ embora valha mencionar que a dancinha frenética de Arnaldo Antunes em Comida é um dos pontos altos do DVD, junto com Lugar Nenhum, que termina com uma citação a Led Zeppelin no duelo de guitarras entre Kisser, Hebert e Belloto.

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