Para os caretas, cabeludo era quem tinha piolho

Em entrevista, Gal Costa fala sobre o disco que está gravando com Caetano e relembra os anos 1970

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Augusto Gomes
Gal Costa no palco, acompanhada apenas de um violonista
Na segunda parte da entrevista, Gal Costa conta (poucos) detalhes sobre o trabalho de músicas inéditas que prepara com Caetano Veloso e relembra as reações negativas, por vezes agressivas, que a eclosão do movimento tropicalista (em 1968) causou a ela e aos parceiros.

“Começou a juntar gente, gente, muita gente, que começou a me chamar de macaco, cabeluda, piolhuda”, relata um incidente quando participava de uma filmagem no centro do Rio de Janeiro. “Não era fácil andar pelas ruas do Rio.” Mas ela seguiu andando, e relembra quatro décadas depois a resistência exercida sem intenção deliberada, a partir das chamadas “dunas da Gal”, na praia de Ipanema.

iG: Você e Caetano estão trabalhando juntos de novo, a identificação de vocês se mantém a mesma, desde os anos 60?
Gal Costa: Estamos trabalhando juntos, fazendo um disco. Ele e Moreno estão produzindo meu disco novo. Não posso falar muito, a única coisa que posso dizer é que ele está compondo todas as músicas. Vai ser um disco de canções inéditas de Caetano feitas para mim. Ninguém neste país faz música melhor para mim do que Caetano, vide "Errática" (1993), "Minha Voz, Minha Vida" (1982), lindas e feitas para mim. Ele já compôs seis canções, já tiramos a tonalidade, estamos trabalhando nas bases e arranjos, ele está compondo mais. Dizer mais seria leviano da minha parte. Está sendo construído, muito no comecinho.

iG: O livreto fala de uma “celeuma” porque você e Caetano foram ao programa Jovem Guarda cantar "Coração Vagabundo", mas na última hora a apresentação foi cortada do roteiro. Como foi isso?
Gal Costa: (Ri.) Eu não lembro, sabia? Pode ser que Caetano lembre. Marcelo Fróes (produtor da caixa) me falou isso, mas não lembro. Memória...

iG: E o segundo disco ("Gal Costa", de 1969), que lembranças lhe traz?

Gal Costa: Foi depois que cantei "Divino, Maravilhoso" no festival da Record (de 1968). Fiz logo em seguida a um show no Teatro de Arena, aqui em São Paulo. Parte desse repertório é daquele show.

iG: Por muitos anos, você manteve esse hábito, de testar as músicas primeiro nos shows e depois gravá-las em disco. Por quê?

Gal Costa: Isso aconteceu também lá na década de 1980, quando fiz primeiro o show "Fantasia", no Canecão, e depois veio o disco "Fantasia" (de 1981). Não foi bem, porque houve uma grande sabotagem. Eu nunca havia falado disso antes. Foi produzido musicalmente por Guto Graça Mello, que me sugeriu a banda do Lincoln Olivetti, com quem a imprensa implicava. Bem, Lincoln fez os arranjos, ensaiamos bonito. Tinha uma pessoa de dentro do Canecão que queria pilotar a mesa de som, mas quem pilotou foi o Moog Canázio, que na hora do show chegou em frente à mesa, e ela estava toda desmarcada. Tudo apagado, zerado. Moog refez tudo, mas, para surpresa dele, quando o show começou os canais estavam todos trocados. O canal da voz era o contrabaixo, o da guitarra era a bateria, o do piano era do vocal, e assim ficou um desastre. Então o show não fez uma carreira boa, mas Mariozinho Rocha (hoje diretor musical das novelas da Globo) era diretor musical dos meus discos e foi ao Canecão com o dono da Rádio Cidade, que ouviu "Festa do Interior" e disse: "Essa música é um hit, Mariozinho, vamos gravar". Gravei, com o arranjo do Lincoln, e foi um hit. Foi para o primeiro lugar na parada, e o Canecão começou a encher. Encerrei a temporada e fiz o disco, que foi a volta por cima, um dos meus discos mais vendidos.

iG: Na capa do disco de 1969 você está com o figurino usado no festival de "Divino, Maravilhoso", não?

Gal Costa: Sim, esse visual foi construído muito por ideia de Dedé (esposa de Caetano à época), a gente enrolou meu cabelo, tinha uma roupa com um espelho imenso.

iG: Trouxe vaias na apresentação da Record...

Gal Costa: Ah, trouxe. Eu tinha ensaiado com Gil, e Caetano não participou dos ensaios, não viu nada. Ele estava sentado na plateia, falou que quando viu quase caiu duro para trás, tamanha a surpresa, tamanho o impacto de ver a minha transformação. Até então era aquela garota que cantava com voz doce, com um espírito joãogilbertiano. Foi uma guinada. E aí a plateia ficou muito dividida, entre vaias e aplausos (foram muito vaiadas também "É Proibido Proibir", com Caetano, e "Questão de Ordem", com Gil). Foi muito importante para mim aquele momento, como artista – minha postura no palco, como me relacionei com aquela coisa. Eu olhava na cara das pessoas que vaiavam, e realmente tinha uma força tudo aquilo que eu dizia.

iG: Olhava de propósito, em desafio?

Gal Costa: Claro. Como postura, como atitude, foi importante para mim.

iG: Naquele momento os tropicalistas estavam se impondo, causando impacto, e também assustando a plateia, não?

Gal Costa: É, lembro que tinha uma mulher em pé, vaiando, e eu fui com o dedo assim (aponta) para ela, e falando o texto, e ela recuou (ri). Lembro que ela recuou e sentou, isso é uma imagem que não me sai da cabeça. Ficou marcado na memória.

iG: A tropicália revolucionava comportamentos, misturava a questão racial, com Gil, e a sexual, com você e Caetano, todos cabeludos. Era um susto que vocês estavam causando?

Gal Costa: A forma de se vestir, o jeito, as canções também eram novas. "Alegria, Alegria" (1967) é uma canção totalmente nova, né? Quando Caetano cantou para mim, recebi aquilo como algo novo. Não era só o comportamento, o cabelo, a roupa. Era também a música, a poesia, a maneira de compor. Tudo era novo ali.

iG: Cantar "atenção, tudo é perigoso/ tudo é divino, maravilhoso”, “é preciso estar atento e forte/ não temos tempo de temer a morte", em 1968, era um discurso forte e desafiador, não? Você ainda canta essa música?

Gal Costa: Canto, inclusive nesse show de voz e violão. É muito legal, tem uma levada bacana, uma marcação que a plateia marca junto. Não cantei no Anhembi não sei por quê, é um lugar perfeito, São Paulo, né?

iG: Ainda em 1969 você lançou mais um disco ("Gal"), que foi também o último do movimento tropicalista.

Gal Costa: Esse acho o mais radical, ou talvez o único radical mesmo. Ele tem um lado que na época eu dizia: "É intocável". O lado A é tocável, o B é mais experimental, de canções em que grito, "Pulsars e Quasars", por exemplo, "Objeto Sim Objeto Não", "The Empty Boat", "Com Medo, com Pedro". Esse lado é totalmente experimental, psicodélico. Gosto muito desse disco, é ousado. A própria gravadora se assustou na época, mas é isso que está registrado. É o impulso, é a criação, é verdadeiro.

iG: Por que você ficou radical nesse momento?

Gal Costa: Esse lado que chamo de psicodélico é o mais radical mesmo. É porque era um momento muito difícil. Aquele grito era como se... Eu sofri muito durante esse período, segurando essa onda toda. Sofri muito. Era uma forma também de expressar isso, botar para fora esse sofrimento e ao mesmo tempo gritar, reclamar de tudo, contra tudo que estava ali, aquele caos, a ditadura, o exílio deles. Foi o disco que realmente revelou bastante isso, de uma forma radical.

iG: Você sofria muito preconceito, por ser hippie, cabeluda, mulher?

Gal Costa: Na cabeça das pessoas, entre aspas, caretas, quem tinha cabelo grande era quem tinha piolho e não tomava banho. Antônio Carlos Fontoura fez um filme comigo, nunca esqueço, nós fomos filmar no centro do Rio de Janeiro. Eu fiquei dentro da Kombi enquanto ele ajeitava a luz. Começou a juntar gente, gente, muita gente, que começou a me chamar de macaco, cabeluda, piolhuda. Do nada, do nada, do nada. A gente teve que sair de lá. Não era fácil andar pelas ruas do Rio. Porque eu andava a caráter (ri), com essas roupas (aponta para fotos da época), com o cabelo, como eu era. Não era fácil. Lembro que uma vez eu estava dirigindo um carro – eu dirijo muito bem, gosto de dirigir –, aconteceu alguma coisa boba, o cara passou e deu uma fechada, e eu fiz um gesto qualquer, coisas que acontecem normalmente no trânsito. Eu tinha mandado revelar uns filmes – gostava muito de fotografar, tinha uma Pentax, várias lentes –, parei para pegar as fotos, e de repente esse homem com quem tive um desentendimento leve parou atrás de mim. Bateu no vidro do carro, um Fiat vermelho importado que eu tinha. Eu abaixei o vidro, olhei para ele, ele disse: "Por que você fez isso?". Eu tinha feito qualquer gesto obsceno. Falei: "Porque eu quis". Ele me deu um tapa na cara! E me disse assim: "Ponha-se no seu lugar de mulher".

iG: Era essa a questão, então?

Gal Costa: Cara, eu peguei o carro, liguei o motor, saí atrás desse homem. Ainda bem que o sinal abriu e ele conseguiu escapar, porque eu ia arrebentar meu carro. Eu sou um doce, mas sou muito brava quando as pessoas me agridem. Mas acontecia isso, e era por quê? Era pela minha imagem, né? Não é fácil andar nas ruas, não.

iG: Você era um ímã para preconceitos? Machismo, racismo pelo cabelo black power, a sexualidade...

Gal Costa: É. Era difícil. Eu estava de peito aberto, mas era difícil, eu sabia que era difícil. Saía numa boa com minhas roupas. Passei a frequentar aquele espaço onde eu ia com Jards Macalé e que acabaram denominando as Dunas da Gal. Ali havia uma obra, então era uma praia que as pessoas não frequentavam. E virou um reduto, um reduto de pessoas que se comportavam e se vestiam como eu, que se identificavam com aquela linguagem. Virou meio que um ponto turístico, as pessoas iam para ver (ri).

iG: Você era uma líder dessa movimentação? Eram as dunas "da Gal"...

Gal Costa: Eu era líder sem ao mesmo tempo atuar como líder (ri). Já ouvi muita gente dizer que as pessoas ficavam ali na praia e só saíam quando eu saía. Eu ia embora na hora do pôr do sol, as pessoas esperavam, quando eu saía todo mundo ia embora. Mas eu não liderava, não tinha essa postura de ser a líder. Simplesmente estava ali, era a líder porque era eu.

iG: Falando no homem do trânsito, "Meu Nome É Gal" é uma grande música de Roberto e Erasmo Carlos, mas tem um quê de machista, "desejo me corresponder com um rapaz que seja o tal", não?
Gal Costa: Não. Não acho machista. Rebelde era minha postura, meu cabelo, minha maneira de vestir. Na realidade não era nada demais, era apenas o cabelo e uma roupa. É muito importante essa música, e é linda. A gravação de "Gal Tropical" (de 1979) foi a que ficou mais exposta, porque aquele show foi um grande sucesso, ampliou meu público, e havia aquele duelo da voz com a guitarra, que não havia naquela primeira versão.

iG: Você pediu essa música para eles?

Gal Costa: Eu pedi, eu sempre pedia. Mas o tema eles fizeram porque quiseram.

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