Mais que uma mudança de hábito, o jeito de ouvir música hoje em dia na celebrada "era da internet" é um sério conflito de gerações. Lembro quando, anos atrás, o oba-oba em torno da então novíssima banda Arctic Monkeys era enlouquecedor para quem acompanhava novas ondas. Um tradicional jornalista de tradicional revista de música inglesa recebeu o disco da "novidade" semanas antes de seu lançamento, com a missão de resenhar o "fenômeno" nascedouro. E não via a hora de chegar em casa e impressionar a filha. Isso era final de 2005.
- Filha, veja o que eu tenho aqui. O primeiro CD daquela banda, Arctic Monkeys. Quer escutar? Ouvi ele inteiro hoje, me pareceu bom.
- Pai, já tenho esse disco no computador faz uns três meses. Nunca escutei ele inteiro. Só as músicas que interessam agora. Se o resto do álbum for realmente bom, uma hora eu acabo escutando as outras canções.
Corte para abril de 2010.
O editor de texto do computador está aberto, os sites de notícias estão à vista e as redes sociais todas em operação enquanto simultaneamente rola na janela ao lado “Escape Velocity”, nova música de trabalho com 12 minutos de duração do duo eletrônico inglês Chemical Brothers, carro-chefe do álbum Further, que chega às lojas em formato físico somente em 7 de junho. Tornou-se cada vez mais lugar-comum essa mecânica de lançar música de forma muito antecipada nos dias de hoje, graças à dinâmica do (novo) mercado.
Com a velocidade da internet e a decantada morte do formato físico – vinil e CD –, os álbuns deixam de ser “novidade”, pois invariavelmente 10 a cada 10 deles caem ao seu alcance na internet bem antes de aparecerem fresquinhos nas lojas de música. Lojas de música, não exatamente lojas de discos, veja bem. Estas últimas, até bem pouco tempo atrás atrativas, ponto de encontro de diversas tribos que contavam os dias à espera dos lançamentos de seus artistas favoritos, (quase) não existem mais.
Chemical Brothers: música na web muito antes do lançamento retrata nova dinâmica do mercado
Se por um lado o consumidor de música ia a uma dessas lojas para conferir as novidades, comprar o álbum para em seguida chegar em casa e curti-lo da primeira à última faixa, hoje o roteiro é diferente: com a facilidade de acesso ao MP3, por vias legais ou não, o ouvinte está menos apegado à essência, pois passou a se identificar com canções esporádicas de muitas bandas e dificilmente com um álbum completo de poucas bandas. A lei hoje é: dose cavalar de informação disponível e pouco tempo para assimilar tudo. A fila musical, nos novos tempos, estes tempos, não anda. Ela voa.
A mudança é também conceitual. Somos levados a não prestar mais atenção a "detalhes" como ordem das músicas, quantidade (a cultura do single venceu a do álbum), unidade, continuidade, capas. Radicalizando na análise, dá para escrever teses sobre como a música hoje acaba servindo muito mais como trilha sonora de outra coisa, algo secundário.
Se nos tempos do vinil, o "ritual" da audição musical era maior, por a música não estar sempre à mão, hoje você ouve "a nova do Chemical Brothers" no computador mesmo, enquanto fala no MSN, manda recados no Twitter, posta no Facebook, conversa ao celular e está com a tevê ligada no futebol, por exemplo. Isso complica um pouco a digestão da música e nos precipita a dizer que já não se fazem grandes discos como antigamente. Por exemplo, você não consegue mais botar a música no centro de uma galera, naquela história de reunir amigos para ouvir um disco novo recém-lançado (ou não) de cabo a rabo, sem que alguém nessa galera saque o celular para "avisar" o mundo via Twitter que ela está "na casa de fulano ouvindo o álbum da banda x", enquanto a música, tadinha, esteja rolando lááá ao fundo.
Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil, ao alcance de um clique de mouse, achar tudo e qualquer coisa, incluindo raridades, dos artistas preferidos, de artistas não-preferidos, de artistas que você vai descobrir que serão seus preferidos. De cover inusitada a demos que não vão pro MySpace oficial a vídeos de apresentação ao vivo a meros videoclipes antes de a MTV sonhar em veicular.
O negócio é que a gente se cercou de toda a informação possível e está difícil filtrar tudo respeitando as mínimas condições de discernimento básico. Aí dá para fazer uma digressão e, por exemplo, criticar o resenhismo crônico que se abateu na internet: todo mundo de dedo em riste fazendo comentário mais ou menos ofensivo e precipitado sobre preferências pessoais. Meio estabelecendo um era do ódio e...
Bom, isso já fica para um futuro texto do futuro, lá por 2020, quando nós entendermos melhor o que está acontecendo.