Os Panteras abrem e fecham palco Toca Raul

Banda, que tocou com Raul Seixas em seu primeiro álbum, é atração da Virada Cultural

Bruno Rico, repórter do Último Segundo |

Os Panteras, a primeira banda do roqueiro Raul Seixas, vão tocar nesta Virada Cultural, 40 anos depois, o repertório completo de seu primeiro álbum, Raulzito e os Panteras (1968). Após o show, todos os outros álbuns do cantor serão apresentados em ordem cronológica por bandas diferentes. Para finalizar, após as quase 24h ininterruptas de Raulzito, a banda Os Panteras volta ao palco, junto com o amigo, fã e ex-parceiro de Raul Seixas, Marcelo Nova, para fechar o evento com o último álbum do Maluco Beleza, Panela do Diabo .

A expectativa para o show é a melhor possível. A gente costuma dizer que Raul é mais reconhecido em São Paulo do que na Bahia, comenta Carleba, baterista da banda. O reconhecimento póstumo e o ineditismo do evento prometem atrair um grande público ao palco Toca Raul, na praça da Luz, entre os dias 2 e 3 de maio, no centro de São Paulo.
Raul falava uma linguagem universal, eterna. Lia muito. Não tinha muita preocupação estética, mas tinha facilidade de falar sobre coisas que tocam a todos, define o guitarrista da banda, Eládio. Junto com o baixista Mariano e o baterista Carleba, o trio original que lançou Raul na história do rock´n roll estará completo.

40 anos depois, um show inédito

Os músicos explicam que o álbum, apesar de conhecido dos fãs, não era o projeto que desejavam lançar na época. Os Panteras eram uma banda de jovens recém-saídos da Bahia em busca de sucesso no Rio de Janeiro. Para gravar o álbum, tiveram que ceder a algumas exigências da gravadora, como tocar músicas mais românticas. Saiu um disco que não era o que queríamos, mas, ainda sim, tem muitos elementos criativos. Durante a gravação, inclusive, os vocais do futuro maluco beleza teriam sido corrigidos muitas vezes. Eles queriam que o Raul falasse 'corrrendo' ou 'dorrrmindo' (com a pronúncia tremida da letra r), quando nós, baianos, na verdade, falamos 'correno' e 'dormino'. Foi bem engraçado, lembra Eládio.

O guitarrista revela que, na verdade, após gravado, o álbum nunca foi tocado integralmente. Quando acabou aquilo tudo, não teve repercussão, não vendemos quase nada e nem fizemos shows. Eventualmente, a gente tocava algumas músicas no meio de outros repertórios. É até engraçado porque o pessoal da nossa geração nunca viu a gente tocar esse álbum. A apresentação deste domingo será, portanto, inédita.

Após o fracasso de vendas, cada integrante seguiu um caminho completamente diferente e, entre eles, apenas o baterista Carleba e Raul seguiram carreiras como músicos profissionais. Eládio é publicitário e produtor, e Mariano, engenheiro.

Bons tempos

Além da música, o encontro do grupo reabre o velho baú de Raul Seixas. Nossa importância é mais cultural do que musical. Nossa importância é contar histórias, diz o baterista Carleba. Trata-se de uma brincadeira, pois, desde 1992, a banda têm tocado informalmente clássicos do rock´n roll e de Raul Seixas e, inclusive, já chegou a fazer um show com Marcelo Nova no Metropolitan, no Rio de Janeiro. Ainda assim, eles têm algumas histórias para contar.

Quando os três começaram a tocar nos primeiros anos da década de 60, revelam que o futuro astro epiléptico do rock nacional ainda era tímido. Apesar da mania de sucesso, conta Carleba, Raul era introspectivo. Era como qualquer adolescente. Vivia em casa, conversava com os país, gostava de festinhas, cuba-libre. Sempre foi contestador, mas a gente nunca imaginava que chegasse onde chegou.

Assim como muitas bandas de rock´n roll, os primeiros ensaios começaram entre amigos de escola. Foi lá que começou nossa rebeldia. A gente questionava porque só podia entrar homem, porque não podia trazer amigos e os padrões da diretoria. Nessa época, já queríamos pular o muro da escola, conta Eládio, lembrando do sucesso No fundo do quintal da escola, cujo refrão diz Eu to pulando o muro com o Zezinho no fundo do quintal da escola.

Apesar de não muito avessa ao ainda embrionário rock´n roll que acabara de aportar nas terras brasileiras através de Elvis Presley, a cidade de Salvador tinha um espaço que permitia aos pretendentes a rock stars se apresentarem. O Cine Roma era um local que passava filmes e servia de palco para a gente tocar. Chamávamos de Templo da Juventude. Lá também tocava o pessoal da jovem guarda. Havia um público jovem, não muito grande, mas que acompanhava nossos shows.

Nessa época, segundo os músicos, Raulzito, como era conhecido, já tinha pavor à intelectualidade do que seria depois chamado de MPB. A música Rock´n roll do (álbum) Panela do Diabo define bem. Tinha essa coisa de intelectual e gente fina que discriminava o rock. O teatro Vila Velha era o lugar dessa gente. Raul tinha pavor dessa onda de refrões que reverenciavam palavras das raízes brasileiras como oxalá oxóssi e dendê. Mas o astro, além de não gostar de MPB, também criticava versões  de músicas estrangeiras, como as gravadas por Renato e os Blue Caps.  Ele odiava essa coisa de versão. Achava que a gente tinha que fazer do nosso jeito.

Dinossauros do rock´n roll

Segundo Eládio e Carleba, quando Marcelo Nova foi convidado para homenagear Raul Seixas na Virada Cultural, respondeu sem pestanejar: Só toco se for com Os Panteras. O rockeiro, antes de se tornar músico e, inclusive, fazer parcerias com Raulzito, era fã da banda. Como é quase 10 anos mais novo, pedia para os pais para ir nos nossos shows, revela Carleba. 

A banda, que começou com o nome The Panters, foi a precursora do rock, senão no Brasil, ao menos na Bahia. Em Salvador, fomos os primeiros. No Rio, acho que não. Já tinha o Renato e os Blue Caps, lembra Carleba. Embora o primeiro e único álbum da banda só tenha sido gravado em 1968, a banda já fazia shows em 1962. Somos dinossauros do rock, brinca Eládio.

Os Panteras foi, na prática, a única banda de Raul Seixas. Segundo Carleba, após o primeiro álbum, Raul não formou uma nova banda. Preferiu reunir músicos para as gravações e shows. Durante os anos 70 e 80, o cantor teria procurado Eládio para voltar a tocar com os panteras, mas o projeto não andou. Vinte anos após a morte de Raul Seixas e com o inédito show completo de seu primeiro álbum, esta reunião do grupo ganha importância histórica.

Serviço

Virada Cultural - Palco Toca Raul
Avenida Cásper Líbero (próximo à Estação Luz do Metrô) 02 e 03 de maio, das 18h às 18h

Programação

18h15 - Raulzito E Os Panteras (1968) - Os Panteras
19h30 - Vida E Obra De Johnny Mccartney (1971) - Leno Azevedo e Envergadura Moral
20h45 - Os 24 Maiores Sucessos Da Era Do Rock (1973) - Gaspa e Os Alquimistas
22h00 - Sociedade Da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão Das 10 (1971) - Edy Star
23h15 - Krig-Ha, Bandolo! (1973) - Nasi
00h30 - Gita (1974) - Cesar Di
01h45 - Novo Aeon (1975) - Caverna Guitar Band
03h00 - Há Dez Mil Anos Atrás (1976) - Macarrão e Banda Alternativa
04h15 - Raul Rock Seixas (1977) - Alex Valenzi e The Hideaway Cats
05h30 - O Dia Em Que A Terra Parou (1977) - Angelo Tavares & Banda Krig-ha!
06h45 - Mata Virgem (1978) - Raiz Quadrada
08h00 - Por Quem Os Sinos Dobram (1979) - Mou e Tábula Rasa
09h15 - Abre-Te Sésamo (1980) - Velhas Virgens
10h30 - Raul Seixas (1983) - Darlan Moreira
11h45 - Metrô Linha 743 (1984) - Raul Seixas Band
13h00 - Let Me Sing My Rock And Roll (1985) - Agnaldo Araújo
14h15 - Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!!! (1987) - Rick Ferreira
15h30 - A Pedra Do Gênesis (1988) - Viúva Negra
16h45 - A Panela Do Diabo (1989) - Marcelo Nova e Os Panteras
18h00 - Jam Seixas

Set-list de Raulzito e os Panteras

Brincadeira
Por Quê? Pra Quê?
Um Minuto Mais (I Will)
Vera Verinha
Você Ainda Pode Sonhar (Lucy in the Sky with Diamonds)
Menina de Amaralina
Triste Mundo
Dá-me Tua Mão
Alice Maria
Me Deixa em Paz
Trem 103
O Dorminhoco

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