Os maiores clássicos de Gonzagão

Esquecida pela indústria fonográfica, obra permanece viva na Internet

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Um sintoma de que Luiz Gonzaga continua até hoje subestimado pelo Brasil oficial é o descaso com que a indústria fonográfica tem sempre tratado seu legado. Coletâneas com os sucessos mais óbvios estão sempre disponíveis, mas a última vez que a gravadora detentora de sua obra (RCA, depois BMG, atualmente Sony) promoveu uma revisão de peso foi em 1998, quando uma série de títulos originais das décadas de 50, 60 e 80 foi reeditada em CD.

A coleção era extensa, mas representava uma parte minúscula do imenso repertório deixado por Gonzagão. Ele gravou mais de cem compactos e 42 LPs (sem contar compilações), e a maioria absoluta desse material jamais foi reeditada em formato digital. Apesar de sua popularidade jamais arrefecer, a restauração da obra não aconteceu nos anos 90, época de lucro extraordinário nas gravadoras. E dificilmente acontecerá agora, quando uma indústria fonográfica moribunda não para nunca de encolher.

Por ironia, o ocaso das gravadoras coincide com mais uma renascença da obra de Luiz Gonzaga. LPs, compactos e raridades em geral, que antes só eram encontráveis em sebos, estão hoje disseminadas pela internet, em sites, blogs e comunidades de fãs e colecionadores que disponibilizam para download, na íntegra, o gigantesco relicário. Trata-se de pirataria, dirão os executivos de gravadoras. Sim, mas essa se tornou a única alternativa possível para quem deseja se aprofundar na obra do artista popular mais importante do Brasil no século 20. E, a avaliar pela quantidade de sites, blogs e comunidades dispostos a transgredir as leis de direito autoral, não são poucos os cyberlampiões interessados.

Divulgação
Discografia de Luiz Gonzaga está inteira na web
Saiba quais são os cinco maiores clássicos de Luiz Gonzaga:

1º – " Asa Branca " (1947), de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

É o hino máximo de Gonzagão, a partir do qual o Brasil aprendeu a conviver com a realidade crua de um retirante nordestino em fuga da seca: "Quando oiei a terra ardendo/ qual fogueira de São João/ eu preguntei a Deus do céu, ai,/ por que tamanha judiação".

2º – " Assum Preto " (1950), de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Num tema triste sobre um pássaro nordestino, o cantor fala de viés sobre a escravidão e a falta de liberdade não dos pássaros, mas dos humanos. Gal Costa a regravou de modo ainda mais plangente e delicado.

3º – " A Vida do Viajante " (1953), de Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil

O forró e a música caipira se encontram e resumem a história do artista que em 1982 seria chamado de "cigano de Deus" pelos discípulos do Quinteto Violado, na homenagem "O Rei Volta pra Casa": "Minha vida é andar por este país/ pra ver se um dia descanso feliz".

4º – " Baião " (1949), de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

O estilo musical já existia na tradição nordestina, mas se tornou gênero nacional ao ser didaticamente estilizado por Gonzaga: "Eu vou mostrar pra vocês como se dança o baião/ e quem quiser aprender é favor prestar atenção".

5º – " Xamego " (1958), de Luiz Gonzaga e Miguel Lima

Por vezes áspero, Gonzagão escondia atrás dos trajes de cangaceiro um homem doce e terno, que vez por outra deixava vir à tona, em canções agridoces como a amorosa Xamego: "O xamego dá prazer, o xamego faz sofrer/ o xamego às vezes dói, às vezes não/ o xamego às vezes rói o coração".

    Leia tudo sobre: Luiz Gonzaga

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG