O tempo passa, mas não para Cauby

Aos 79 anos, cantor segue alheio aos modismos e grava homenagem a Frank Sinatra em São Paulo

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

“Ai, ai, ai, como é bom cantar bem...” Sem nenhum pingo de modéstia, Cauby Peixoto autocelebrou do alto do palco, no sábado passado (em pleno dia do trabalho, pois), seus 61 anos de presença constante na música brasileira. O show, no Teatro Fecap de São Paulo, destinava-se à gravação de seu próximo trabalho, pela Lua Discos, sob o mote Cauby Canta Sinatra .

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Cauby Peixoto no Teatro Fecap, em São Paulo
O cantor niteroiense de 79 anos anda num pique de homenagear os “reis” da canção – no ano passado, lançou o CD Cauby Interpreta Roberto , que mostrará à plateia paulistana nos próximos dias 21 e 22, no mesmo Teatro Fecap. O álbum que gravava nesse último fim de semana não chega a ser novidade, pois ele há décadas se vale da fama de “Frank Sinatra brasileiro”, e até já lançou um Cauby Canta Sinatra em 1995. Cansado de corpo (passou grande parte do show apoiado no braço de uma poltrona) e tenso na voz, enfileirou em inglês elegante um rosário de standards norte-americanos: "I’ve Got You Under My Skin", "Fly Me to the Moon", "Strangers in the Night", "Let Me Try Again", "Moon River", "All the Way"...

Dedicou o nexo entre Sinatra e a bossa nova a uma dupla rápida e discreta de canções, "‘S Wonderful" (gravada por João Gilberto em 1977) e "Triste", de Tom Jobim. Por problemas técnicos, teve de reiniciar essa última por duas vezes. Seria o único número cantado em português no espetáculo, afora alguns versos de "Bastidores", de Chico Buarque, celebrizada por ele, mas a canção só engrenou quando, na terceira tentativa, resolveu cantá-la em inglês mesmo.

“Ai, que beleza! Bravo!”, exclamou após uma das referências que fez à bossa, movimento musical que deixou meio de banda intérpretes de vozeirão da estirpe de Cauby. Não evitou, tampouco, a modernização operada pelos Beatles (quando ele tinha 30 e poucos anos), e cantou solenemente a terna "Something", sob o pretexto de Sinatra também tê-lo feito.

Como ele mesmo sublinha, Cauby canta bem, à beça. Sua interpretação é como um monolito, e pouco importa se a canção no cardápio é Sinatra, Beatles, Roberto Carlos ou Chico Buarque – Cauby está sempre cantando Cauby. Os cabelos revoltos, o terno kitsch feito de brilhos e furta-cores, o sorriso maroto e algo enfastiado, tudo é orientado para revalidar o mito que foi ultrapassado inúmeras vezes pelas próximas modas, mas nunca esmoreceu.

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Cauby: passeio por jazz, bossa nova e MPB, com a voz intocada pelo tempo e pela moda
Cauby parece consciente de ser uma voz parada no tempo – daí a aparente tensão na primeira metade do show, conduzida por um cantor seguro que, no entanto, não parece relaxar um só segundo. “Chega, Cauby!”, ordenou a si próprio lá pelo meio da oitava canção, "Fly Me to the Moon". “What are you trying to do?”, indagou-se, para então responder: “It’s just a bit of jazz”. E eis que algumas fímbrias de distensão começaram a aparecer, deixando-o pouco a pouco mais à vontade para cantar "Strangers in the Night" (entre surreais vocalises de “scubidu”) e "‘S Wonderful" (“ai!, que bonito!”, comemorou) e partir para a apoteose morena e serena com "My Way" e "New York, New York".

Dentro de poucos dias, mr. Cauby volta à ribalta do Fecap com "Sentado à Beira do Caminho", "As Flores do Jardim da Nossa Casa", "Proposta", "Os Seus Botões", "Emoções", "O Show Já Terminou"... E o discípulo Roberto Carlos terá de se calar um instante, diante da imponência atemporal do velho cantor. De dentro do túnel de todos os tempos, it’s just a bit of bossa nova, ou jovem guarda, ou MPB.

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