"O tempo da minha música é agora", afirma Arthur Verocai

Esquecido nos anos setenta, arranjador e maestro faz show emocionante em Olinda

Tiago Agostini, enviado especial a Olinda |

A Igreja da Sé, que já havia recebido o melhor show da noite de quarta na MIMO – Mostra Internacional de Música de Olinda, provou ser um palco especial. Desta vez tomada por uma big band (Projeto Coisa Fina), um naipe de cordas e dois cantores, o local recebeu um renascido (artisticamente) Arthur Verocai, maestro e arranjador veterano dos anos 70 que, após mais de 30 anos de seu homônimo disco de estreia, lançado em 1972, foi resgatado por rappers norte-americanos e pelo cantor Marcelo Jeneci .

Renato Spencer/Santo Lima
Arthur Verocai durante apresentação no MIMO: atenção para cada acorde
À tarde, Verocai havia chegado quietinho, meio tímido, a uma entrevista na varanda de uma pousada. "Sou filho de mineiros", explicaria, de modo sucinto, como em todas respostas. Ali ele deixava claro sua decepção com o mercado fonográfico brasileiro dos anos 70. "Fiz um disco com todo meu coração e não deu certo. Achei que o errado era eu, e por isso parei", disse, ao explicar e refutar sua fama de recluso. Passou as décadas seguintes gravando jingles, até que o culto aos vinis raros e antigos brasileiros retomasse sua carreira.

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A satisfação e alegria de ter o reconhecimento, mesmo que tardio, também estavam presentes na entrevista, mas se apresentavam radiantes durante o show. Esguio e elegante, vestindo calça branca, camisa preta com listras brancas e um paletó bege, Verocai rege os músicos mais como um torcedor do que um maestro.

Sorriso estampado no rosto o tempo inteiro, ele faz, discretamente, air guitarra, air teclado e dança com passos tímidos. Contente com o resultado, deixa escapar uma piscada e um sinal de ok para o pianista. Verocai sente cada acorde, cada ataque dos sopros. O resultado é um show intenso e emocionante.

Estar amparado pelo Projeto Coisa Fina – que se apresentam nesta sexta (9) com seu projeto de revisitação do cancioneiro de Moacir Santos – revigorou a música de Verocai. A cozinha perfeita e suingada e o naipe de metais vigoroso trouxeram um calor às composições, brilhantemente interpretadas por Carlos Dafé e Clarisse Grova.

O encontro de gerações se mostrou mais um acerto – dentre tantos – da curadoria da MIMO. Ao final, com dois bis apresentados e o público aplaudindo de pé ininterruptamente e com fervor, Verocai parecia atônito diante de tamanho reconhecimento. Era ali, no entanto, que uma frase solta por ele despretensiosamente à tarde ganhava sentido: "o tempo da minha música é agora".

* O repórter viajou a convite do festival

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