O talento discreto e silencioso de Nara

Nara Leão foi uma das maiores compositoras brasileiras, mesmo sem ter cultivado o hábito de inventar letras ou melodias

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Certo dia, Nara Leão teve uma ideia que aos ouvidos cansados de hoje pareceria banal, mas naquele ano de 1977 estava longe de ser corriqueira: quis fazer um disco inteiro de duetos, cada faixa dividida com um cantor de quem ela gostasse e enriquecida pela companhia de instrumentistas de primeira. Nasceu o álbum Meus Amigos São um Barato , e os amigos a que se refere o título constituíam um elenco capaz de assombrar ouvidos amantes da música brasileira em 2010.

AE
Nara no Festival da Record, em 1966: pioneira no lançamento de jovens compositores
Contou com a adesão imediata de companheiros do tempo da bossa nova: Tom Jobim, João Donato, Roberto Menescal, Carlos Lyra. Edu Lobo lembrou com a anfitriã os tempos em que ambos eram cantores de protesto, e Chico Buarque trouxe nada menos que a hoje clássica João e Maria. Enfeitou o disco com as flautas de J.T. Meirelles, sumidade do samba-jazz e arranjador do disco de estreia de Jorge Ben. Poucas pessoas no Brasil deveriam ser menos roqueiras que Nara Leão, mas mesmo assim ela convocou o gigante gentil Erasmo Carlos, que a presenteou com "Meu Ego", assinada por ele e Roberto Carlos.

Nara também tinha amigos tropicalistas: Gilberto Gil compôs o manifesto racial "Sarará Miolo" especialmente para ela cantar, e Caetano Veloso compareceu com "Odara", que em breve irritaria ouvidos ditos politizados por querer falar “apenas” de cantar, dançar e soltar o corpo.

Moça capixaba criada em apartamento carioca burguês, Nara não se contentou com tamanho grau de variedade musical (e ideológica): do Nordeste agreste, trouxe as sanfonas de Dominguinhos e Sivuca. Do mundo do samba, lançou luz sobre um cantor desconhecido chamado Nelson Rufino, que compunha para Alcione e Roberto Ribeiro e na década seguinte seria um dos nomes por trás do samba de fundo de quintal – é de autoria de Rufino o partido alto "Verdade" (“descobri que te amo demais”...), estrondoso na voz de Zeca Pagodinho.

A mistura musical talvez parecesse disparatada para os ouvidos frescos de 1977, mas havia uma estranha união (ainda que temporária) entre tantas tendências, e o nome do mistério era Nara Leão. Meus Amigos São um Barato foi um disco discreto, que não causou furor nem fez barulho, mas era uma síntese da história, da personalidade e do programa artístico-político de uma das maiores mulheres da história da música brasileira. Com voz de gatinho, Nara era leão e carregava como virtude mais valiosa o poder de parecer autora de cada canção que decidisse interpretar.

Joelhos formosos

Não existia David Bowie e muito menos Lady Gaga quando Nara camaleão surgiu como garota-prodígio da bossa nova, no final dos anos 1950 (tinha 16 anos em 1958 quando Elizeth Cardoso cantou Chega de Saudade com João Gilberto ao violão e assim deu partida à revolução desenvolvimentista da bossa). Pensavam, então, que Nara fosse apenas os joelhos formosos que faziam mais sucesso que ela – não se fala muito isso, mas a bossa era um movimento essencialmente machista (como de resto tudo mais na música e no Brasil de então). Rebelde com causa, Nara emburrou e não lançou LP algum até 1964, quando a bocarra de uma ditadura pilotada pelos militares se arreganhava por sobre o país.

A bossa nova estava estranhamente desaparecida do disco Nara, que tinha entre seus pontos altos um afro-samba com o seguinte teor: “Deus fez primeiro o homem, a mulher nasceu depois/ por isso é que a mulher trabalha sempre pelos dois/ homem acaba de chegar, tá com fome, e a mulher tem que olhar pelo homem/ e é deitada, em pé, mulher tem é que trabalhar”. Nada mau para uma cultura misógina que, 46 anos mais tarde, ainda incita o hábito de tratar mulheres por “vagabundas”.

AE
Nara brincando de tocar tuba no tempo de "A Banda", o sucesso criado por Chico Buarque
De mal com a bossa, Nara se convertera em antiexemplo daquilo que a leveza ensolarada de Tom e João preconizava. Tinha virado uma cantora de protesto, uma folk singer nos moldes da norte-americana Joan Baez, preocupada com as dores do povo, a seca e a fome no Nordeste, a pobreza nos morros cariocas. Ao longo de sete LPs individuais preparados em quatro anos, liderou a corrente nacional-participante da música nacional – a recém-batizada MPB. Nessa fase, gravou uma galeria formidável de compositores, que causaria timidez no elenco colorido de Meus Amigos São um Barato .

Do húmus do samba carioca, resgatou autores que andavam recolhidos ao quase-anonimato: Cartola, Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Padeirinho (autor da plangente "Favela", quando as favelas estavam longe de ser a enormidade que são hoje), Monsueto Menezes, Zé Keti, Elton Medeiros. Do sertão maranhense, trouxe a música do zangadíssimo João do Vale, coautor de Carcará e Sina de Caboclo. Com todos os olhos e ouvidos abertos para o novo, ao mesmo tempo fez-se pioneira em gravar compositores jovens e pouco conhecidos: Chico Buarque, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Torquato Neto, Capinan, Sidney Miller, Sueli Costa, Dori Caymmi, Jards Macalé, Francis Hime.

Nos quatro discos lançados em 1967 e 1969, parecia esboçar uma guinada de volta à velha tradição musical brasileira, gravando João de Barro, Ary Barroso, Lamartine Babo, Custódio Mesquita, Assis Valente, Dorival Caymmi. Era alarme falso: a ex-bossa novista que virara sambista de protesto estava prestes a se filiar às hostes da revolução comportamental chamada tropicália.

Rebeldia em negativo

O disco de 1968, orquestrado e regido pelo maestro Rogério Duprat, abordava chorinho de Ernesto Nazareth e peças dos eruditos Heitor Villa-Lobos e Alberto Nepomuceno, mas ao mesmo tempo mergulhava no cancioneiro furioso de Caetano Veloso e abraçava o ideário tropicalista de "Lindoneia", "Mamãe Coragem" e "Deus Vos Salve Esta Casa Santa". Nessa última, investia contra a tradicional família brasileira, aquela que apoiava e sustentava ditadura militar, em versos sarcásticos como “no apartamento vizinho ao meu/ que fica em frente do elevador/ mora uma gente que não se entende, que não entende o que se passou/ Maria Amélia, a filha da casa, passou da idade, não se casou/ ó, Deus vos salve esta casa santa/ onde a gente janta com nosos pais”.

Como de hábito, o disco foi discreto e silencioso como sua dona, mas o recado estava dado. Com o AI-5, Nara (que andava fazendo visitas sutis ao cancioneiro esquerdista de Pete Seeger, Bertolt Brecht, Malvina Reynolds, Jacques Brel e Guantanamera) partiu para o exílio em Paris e gravou, finalmente, seu primeiro disco de bossa nova ortodoxa, batizado Dez Anos Depois.

O ímpeto da primeira década não voltaria a se repetir, mas ao longo dos anos 1970 ela se tornou uma revolucionária musical ao avesso, eloquente mais pela negação que pela afirmação. Abandonou a gravação de álbuns nos primeiros anos da nova década, e em 1972 foi atriz no filme Quando o Carnaval Chegar , contracenando com Chico Buarque e Maria Bethânia. Entre 1974 e 1975, gravou música caipira e dedicou o LP de volta, "Meu Primeiro Amor", a um repertório interiorano cuja meta principal era ninar seus dois filhos pequenos.

AE
Nara e os Mutantes, 1969: sem preconceitos
O ápice da rebeldia em negativo se deu em 1978, com ... E Que Tudo Mais Vá pro Inferno . Como o nome indica, o disco tratava de dar perfume bossa-novista à obra da dupla Roberto e Erasmo, que à época ninguém na MPB julgava de bom tom revisitar. Nara disse não aos preconceitos contra a suposta cafonice do “Rei” conservador e cobriu de suavidade baladas desgarradas como "O Divã", "A Cigana", "Cavalgada" e "Proposta".

O fogo garimpeiro ainda esquentou o disco de 1981, Romance Popular , no qual Nara se aproximou de alguns do mais arretados compositores nordestinos do momento, gravando inéditas de Raimundo Fagner (que ela ajudara a revelar em 1973), Geraldo Azevedo, Robertinho de Recife, Fausto Nilo e o trio Clodo, Climério e Clésio.

A esta altura, o câncer no cérebro já limitava sua vida. Após um disco de samba de raiz ( Meu Samba Encabulado , de 1983), acompanhou à distância os sonhos brasileiros de redemocratização, as Diretas Já e a Nova República, e ocupou os anos que lhe restavam regravando pencas de clássicos da bossa e vertendo para o português alguns standards da canção norte-americana. Morreu em 1989, aos 47 anos.

Nestes primeiros anos de um século que ela prenunciou, mas não conheceu, é lembrada com discrição semelhante à que guardava na voz e no comportamento pós-juventude. A sobriedade que a acompanhará através dos séculos às vezes faz obscurecer o fato de que Nara Leão foi e é uma das maiores compositoras brasileiras, mesmo sem ter cultivado o hábito de inventar letras ou melodias.

    Leia tudo sobre: nara leão

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG