O samba exilado de Sérgio Mendes

Admirado pelos músicos do Black Eyed Peas, ele partiu há 36 anos, mas continua representando a música brasileira no exterior

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

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Stevie Wonder, Sergio Mendes e Tom Jobim: trinca dourada da canção mundial
Nascido em Niterói há 69 anos, o músico Sergio Mendes está radicado desde 1964 em Los Angeles. Foi daqueles que seguiram o movimento migratório da bossa nova e jamais fizeram o caminho de volta, ao menos não para morar no país natal. Por contraste, tem sido nesses 36 anos um dos maiores e mais constantes divulgadores da música brasileira mundo afora.

Em 1966, com o grupo Brasil ’66, transformou em sucesso mundial o “samba esquema novo” "Mas Que Nada", de Jorge Ben (hoje Ben Jor), cantado em português com sotaque norte-americano por vozes femininas que se tornariam uma das marcas da música de Mendes. Em 2006, a mesma "Mas Que Nada" estourou mundialmente em nova versão, cantada e tocada por ele com o grupo de rap norte-americano Black Eyed Peas – você conhece essa versão, toca todo sábado no programa da Angélica.

Converteu Beatles, Dorival Caymmi, Burt Bacharach e Carlinhos Brown ao idioma “sergiomendês”, tornou-se parceiro de Stevie Wonder, construiu estúdio próprio em Los Angeles (com ajuda de um carpinteiro chamado Harrison Ford), voltou ao segundo lugar nas paradas pop com Never Gonna Let You Go (1983) – o primeiro lugar era ocupado por Michael Jackson, à época de Thriller (1982).

Por estes dias, lança Bom Tempo (Universal), completando uma trilogia iniciada com Timeless (2006). Garoto-prodígio da bossa nova em 1962, é reverenciado hoje por rappers norte-americanos e brasileiros (como Marcelo D2), por ídolos pop (como Justin Timberlake) e por gente de Hollywood. Por ironia, nunca foi figura das mais celebradas no Brasil natal.

Em shows recentes dos Mutantes, por exemplo, o músico Sergio Dias se divertia revelando que foi inspirada no xará a satírica "Cantor de Mambo" (1972), sobre um rapaz que “encontrou seu sucesso algures, além-mar”, vive na América e ganha bem “cantando mambo”. Ao final deste bate-papo telefônico entre Los Angeles e São Paulo, Sergio Mendes constatou, algo surpreso: “Foi a entrevista mais completa que já dei”. Ela está dividida em duas partes.

Você não pensa em voltar a morar no Brasil?
Vou todo ano, tenho família e amigos aí. No meu coração, moro nos dois lugares. Como viajo na maior parte do tempo, talvez seja mais prático sair daqui para ir para Ásia, Europa etc. Mas tenho as duas vivências, passo aí no Brasil um, dois, três meses, depois venho para cá.

Há uma unidade em seus três discos mais recentes, mas neste novo o rap sai um pouco de cena. Ele parece mais brasileiro.
É exatamente isso. Tentei fazer esse disco mais voltado ao Brasil, com convidados brasileiros, Carlinhos Brown, Milton Nascimento, Seu Jorge. Quando faço um disco, não faço direcionado para um país. Espero que se comunique com Japão, Rússia, China, Venezuela, Argentina e, naturalmente, Brasil. Em Bom Tempo, procuro mostrar de uma maneira contemporânea clássicos brasileiros em português.

Poucos podem ter o luxo de ter um elenco como os que você reúne.
Eu não chamaria luxo, esse é meu 38o disco. Desde o Brasil, eu tinha o Bossa Rrio, conheci pessoas maravilhosas, trabalhei com Tom Jobim, estudei música com Moacir Santos. O will.i.am me procurou, só existe se houver atração dos dois lados. Se Milton não tivesse passado por aqui quando eu estava gravando, não teria acontecido. Tem sempre o relacionamento pessoal, não é simplesmente gravar a música do compositor. Foi o caso de Mas Que Nada, que eu já tocava no Beco das Garrafas com Jorge Ben em 1963. Dei sorte de essas pessoas quererem fazer parte do trabalho que faço. A vida é a arte do encontro.

Por que seus primeiros discos eram todos instrumentais?

No disco com o Bossa Rio (Você Ainda Não Ouviu Nada, 1964), era um grupo instrumental, a nossa interpretação da bossa nova. Marcou época, porque era um som totalmente novo, diferente das outras coisas da época, que eram minimalistas. O Bossa Rio era bem apimentado, bem para fora.

Os discos instrumentais dessa fase da bossa nova ficaram conhecidos como o “samba-jazz”. Os seus caberiam nesse rótulo?
Não sei, como artista nunca rotulo o que faço. É claro que tinha componentes de jazz e de música clássica no Bossa Rio. Mas os arranjos foram de Tom Jobim e Moacir Santos, não pode haver coisa mais brasileira.

Quando e por que seus discos passaram a ter vocais?

Viajei para cá em 1962, para o concerto da bossa nova no Carnegie Hall. Foi a primeira vez que vim aos Estados Unidos, adorei. E mudei para cá em outubro de 1964. Chegamos a Los Angeles e ficamos fazendo as chamadas auditions, tocando para gravadoras. O grupo era Jorge Ben, Wanda Sá, Rosinha de Valença, Chico Batera, Tião Neto e eu. Depois o grupo voltou, e eu resolvi fazer outra banda. Não sei exatamente por que, mas falei: “Vou fazer um grupo com vocais femininos agora”. Um dia apareceram Herb Alpert e Jerry Moss, que estavam começando a A&M Records. Herb tinha acabado de fazer a banda Tijuana Brass, que era um sucesso enorme, e disse: “Você não quer vir gravar com a gente?”. Gravamos o primeiro disco, já com os vocais, e foi um sucesso mundial. Hoje cantam comigo Gracinha Leporace (sua esposa) e mais duas meninas, ficou mais ou menos uma marca.

Nara Leão não chegou a fazer parte do grupo?
Nara é antes, na época do Bossa Rio. Foi o meu primeiro trabalho legal, em 1962 fui contratado pela Rhodia, que reunia pintores, pessoal da moda, da música. Juntei um trio e convidei Nara para fazer parte. Viajamos o mundo inteiro, Ásia, Europa. Tinha os desfiles de modelos e depois o nosso show. Éramos um quarteto, Nara cantava e também tocava violão.

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