O roqueiro-sanfoneiro que veio de Guaianases

Paulistano Marcelo Jeneci lança o seu álbum de estreia, "Feito pra Acabar"

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Augusto Gomes
O cantor Marcelo Jeneci, na casa de seus pais em Guaianases
“Desculpa, Marcelo, mas essa melodia o meu vizinho poderia fazer.” Essa frase foi dita ao jovem músico Marcelo Jeneci por ninguém menos que Chiquinho de Moraes, diretor musical e arranjador de músicas de Roberto Carlos entre 1970 e 1978. Incomodado com um trecho da melodia de "Quarto de Dormir", o maestro utilizou-a como pretexto para se retirar da parceria entre gerações.

Ao contrário do que se possa imaginar, a reação do músico paulistano de 28 anos à bronca não foi negativa. “Falei: ‘Pô, mas é isso que eu quero, que legal!’. Acho isso um elogio, sabe? Mas ele achava meio cafona demais”, afirma. “Eram cinco horas da manhã, ele disse: ‘Não, acho que não posso aceitar esse trabalho’. Fechou a pasta e foi embora.”

Pitoresca, a história explica muito sobre o disco "Feito pra Acabar", que apresenta Jeneci como compositor e cantor solo, após dez anos de trabalho como instrumentista das bandas de Chico César, Vanessa da Mata e Arnaldo Antunes. Como acontecia na primeira fase romântica de Roberto (e de Chiquinho), as melodias, letras e refrões das músicas de Marcelo são mesmo daquele tipo que até o vizinho poderia fazer – mas não fez. E esse é seu trunfo, muito mais que desvantagem, num ambiente musical que anda desacostumado a celebrar refrões, melodias e letras simples e de fácil comunicação.

A canção rejeitada por Chiquinho de Moraes diz o seguinte: “Um dia desses você vai ficar lembrando de nós dois/ e não vai acender a luz do quarto quando o sol se for/ bem abraçada no lençol da cama vai chorar por nós/ pensando no escuro ter ouvido o som da minha voz/ vai acariciar seu próprio corpo e na imaginação/ fazer de conta que a sua agora é a minha mão/ mas eu não vou saber de nada do que você vai sentir/ sozinha no seu quarto de dormir”. "Quarto de Dormir" é uma curiosa remistura de "Meu Mundo e Nada Mais" (1976), de Guilherme Arantes, com "Detalhes" (1971), "Desenhos na Parede" (1975) e "Café da Manhã" (1978), todas baladas emblemáticas de quando Chiquinho era o maestro de Roberto.

Ouça "Quarto de Dormir", de Marcelo Jeneci, no player abaixo:

A ausência do maestro não deixou as canções rasgadas de Marcelo desguarnecidas da orquestra de cordas que ele desejava ter no disco. O posto foi assumido por Arthur Verocai, ex-diretor musical da Globo e arranjador das cordas aveludadas do clássico "Negro É Lindo" (1971), de Jorge Ben (Jor), e de parte do disco tomado como modelo por Jeneci para sua estreia solo: "Carlos, Erasmo" (1971), do responsável pela outra metade do sucesso de Roberto Carlos. Verocai brilhou à frente de uma orquestra completa nos dois shows de apresentação de apresentação de "Feito pra Acabar" no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, fazendo parecer luxo aquilo que na primeira metade do século passado era realidade obrigatória da música brasileira, erudita ou popular.

“Foi em Caruaru, quando eu tinha oito anos, que descobri o cinema. Antes de começar qualquer filme, tocava música orquestrada, 30 músicos ao vivo. Todo show acontecia em cinema”, relembra Manoel Jeneci, 53 anos, nordestino de Sairé, quando a cidade ainda era distrito de Bezerros, agreste frio de Pernambuco. Manoel, além de pai de Marcelo, é técnico de eletrônica e prepara sanfonas e programações Midi para músicos como Dominguinhos, Oswaldinho do Arcordeon e Zezé di Camargo & Luciano.

Seu filho, a propósito, é violonista, pianista, organista, tecladista e… sanfoneiro. Aos 17 anos, ia para o palco de sanfona pendurada nos ombros, como integrante da banda do paraibano Chico César. Eis aí outro trunfo de Marcelo: foi como endiabrado sanfoneiro pop-rock que roubou várias das atenções do mentor e parceiro Arnaldo Antunes, no DVD "Ao Vivo no Estúdio" (2007).

Marcelo mora no Alto da Lapa e passa facilmente por nativo da comunidade pós-hippie da Vila Madalena, mas nasceu no bairro de Aricanduva, na zona leste da capital paulista. Para esta reportagem, “viajou” com o iG até o bairro de Guaianases, na zona leste extrema de São Paulo, onde a família continua a viver. Manoel migrou em 1972, aos 16 anos, com o pai pedreiro que construiria sozinho (ele não gosta de ter ajudantes) boa parte das casas da rua, inclusive esta em que a família mora, trabalha e se diverte.

Apaixonado por música e cinema, Manoel adaptou a casa de modo a criar uma oficina no térreo e uma sala particular de cinema no primeiro andar. Gabriel, o filho caçula de oito anos, é peremptório quando indagado sobre o que vai ser quando crescer: “Diretor de cinema”. Durante a viagem de ida, por 50 minutos, Marcelo fala de si próprio, do irmão mais velho Fábio (hoje roadie de seus shows), de Manoel e da paulistana Glória, Glorinha (como Manoel chama a esposa): “Eu nasci dentro de uma igreja evangélica, minha mãe é evangélica. Meu pai é contra religião, minha mãe é a favor. Dois filhos, um ia à igreja, o outro não ia. Eu ia. É uma igreja dessas que não fazem parte de uma instituição, uma família compra uma casa e faz. Tem um nome bonito, Igreja do Refúgio. Minha mãe frequenta ainda. Eu, não mais”.

Augusto Gomes
Manoel e Gabriel, pai e irmão de Marcelo Jeneci
A vocação musical começou a brotar, portanto, entre a oficina de sanfonas do pai e o culto da mãe: “Tinha um órgão na igreja, comecei a tocar lá, todo domingo. Mas eu queria era botar música que eles chamam de mundana, e não podia. Aos poucos começou a poder, e eu comecei a ficar cabeludo. Estavam estourando Raça Negra, Só pra Contrariar, Negritude Jr. Montei um grupo de pagode dentro da igreja, só que com letra falando de Deus, Jesus, amor. Chamava JCV, não lembro o que significava o nome…”.

O rock, a MPB e as vanguardas paulistas o afastaram do pagode e do forró (também integrou a banda forrozeira Peixelétrico), mas preza o afeto por aqueles tempos e ritmos. “Faz tempo que não ouço, mas se tocar aquela (cantarola) ‘lua vai/ iluminar os pensamentos dela’… Eu acho linda essa música, saca?”, diz, referindo-se a "Recado à Minha Amada" (1996), do Katinguelê.

Por essas e outras se construiu o destemor de Marcelo em soar popular, romântico, “cafona”. Tem, para isso, o apoio e a adesão de compositores sofisticados como Arnaldo Antunes, Chico César, Zé Miguel Wisnik, Luiz Tatit e Ortinho, e instrumentistas da pesada como Edgard Scandurra, João Erbetta (do grupo Los Pirata) e Curumin. Uma cantora de 20 anos, Laura Lavieri, divide os vocais de todas as faixas do CD – em "Pra Sonhar", o duo chega a evocar de leve uma dupla caipira.

Jeneci não nega que sonha ouvir a voz de Roberto Carlos interpretando um tema seu, talvez exatamente o "Quarto de Dormir" recusado por Chiquinho de Moraes. “Já sonhei muito com isso, e já chorei imaginando a possibilidade de chegar na casa do meu pai depois de ter feito algo com Roberto, com o joelhinho tremendo de emoção”, descreve a “utopia”, na viagem de volta ao Alto da Lapa.

Em mais duas matérias, Marcelo Jeneci fala sobre suas influências e do uso da sanfona .

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