¿O que a gente quer é uma franchising de acarajé"

Na última parte da entrevista, Carlinhos Brown comenta sua experiência no Rock in Rio

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Agência Estado
Carlinhos Brown no Rock in Rio
Nascido, criado e estabelecido no bairro popular do Candeal, em Salvador, Carlinhos Brown possui antepassados ricos, tanto do lado materno quanto do paterno. Por parte de mãe, houve fazendeiros das lavouras de laranja do Recôncavo Baiano. Por parte de pai, ele vem de uma família de juristas, Teixeira de Freitas.

“Ia aos Barris levar roupa e dizia, insistentemente: ‘Quero falar com seu João, ele é meu bisavô’. ‘Vá, menino, sai daqui’. Aí eu começava a conversar com a estátua dele”, conta. “Se fizesse um livro, gostaria de chamar ‘Bastardia’, porque é isso, totalmente, uma história de escravidão. Sempre me tive como serviçal, mas serviçal de uma dinastia, não de pessoas à-toa.”

Na parte final da entrevista, Brown assume o africano, o europeu e o indígena que moram dentro dele e os relaciona com os skinheads e os metaleiros que o hostilizaram há dez anos, no Rock in Rio 3.

iG: Quem era italiano na sua família? Branco?
Carlinhos Brown: Meu avô , Bertolino Gonçalves, pai da minha mãe, Madalena. Branco de origem italiana-libanesa. Aos 2 anos de idade o pai faleceu, e um dos tios doou pra ele fazendas de laranjas em Cruz das Almas, ali no Recôncavo, perto de Caetano, Santo Amaro etc. etc. Ele sempre falava: “Sumiram com o baú”. Perdeu o interesse total por riqueza. Foi acudido por um grande empreendedor da Bahia, um homem com visões sociais junto aos Ahmed, aos Amado. Foi o que criou o Mercado do Ouro, o lugar onde hoje estou tentando organizar o Museu do Ritmo.

iG: Esse Amado é o mesmo de Jorge Amado?
Carlinhos Brown: Não, é a família dos Ahmed, que viraram Amado, árabes. Meu avô passou a cuidar da Barra, onde eu faço carnaval. Não quis mais ficar lá, conheceu essa mulher de Irará, terra de Tom Zé, que é minha avó Damiana Costa Santos. O pessoal falava que era Costa Santos Valente, porque tem parentesco com Assis Valente (autor de marchinhas carnavalescas lançadas por Carmen Miranda). Era negra, mas meu avô dizia: “Não é negra, não, é Cabo Verde. Não pelo lugar, mas porque Cabo Verde está muito associado a quem tem cabelo liso. Ela tinha cara de nigeriana, ou angolana, do narizão, do olho puxado. Mas não tinha o cabelo duro, era mais ondulado, fino. Eles se conheceram e foram morar no bairro do Candeal. Tiveram duas filhas, Madalena e Alice, que é minha tia, deficiente visual.

iG: Madalena é Magalenha?
Carlinhos Brown: Ah, mas pode ter certeza que tá próximo. Magalenha é a maga que sabe botar fogo na lenha. É ela, minha mãe. Madalena, aos 14 anos, conheceu Renato Teixeira de Freitas, meu pai. E isso me botou numa história de bastardia que até hoje busco compreensão. Renato Teixeira de Freitas já vinha desse histórico bastardo dos Teixeira de Freitas na Bahia. Uma das primeiras coisas que me lembro é que nego dizia a minha mãe: “Mas você, de família tão rica, batendo nessa barrela”. Minha mãe era lavadeira, eu sempre ouvia esse papo e não entendia. Fiquei afoito quando descobri que meu bisavô paterno era um dos maiores juristas do país. Ia aos Barris levar roupa e dizia, insistentemente: “Quero falar com seu João, ele é meu bisavô”. “Vá, menino, sai daqui”. Aí eu começava a conversar com a estátua dele, que ficava do lado de fora, depois jogaram lá pra dentro. E tinha o lado português de minha avó Gertrudes, que foi casada com Renato Teixeira de Freitas.

iG: Seu pai é branco?
Carlinhos Brown: De origem portuguesa, mas não é tão branco assim. Vamos dizer cigano, libanês. Salvador é a cidade mais muçulmana do Brasil. O terreiro mistura muito com a linguagem muçulmana.

iG: O que não entrou na sua descrição foi o lado indígena, não tem também?
Carlinhos Brown: Tem os índios, tem. Tem minha avó Damiana. Essa coisa da preta com cabelo liso eu achava que era um pouco a coisa do índio. Hoje o alto magistrado quer condecorar alguém da família e me convidou. Quando falo desse assunto, meu pai foge, não quer saber, “não, essa história não, isso é passado”. Teve uma ruptura. Eu, se fizesse um livro, gostaria de chamar “Bastardia”, porque é totalmente, uma história de escravidão, do bastardo. Sempre me tive como serviçal, mas serviçal de uma dinastia, não de pessoas à-toa. Nunca me vi como uma pessoa à-toa, de história dolorosa. Não me vejo chorando no Faustão ou no Gugu, “passou fome?”, “passei”, “e agora?”, “tenho um jatinho” (ri).

iG: Na sua família então há passado de riqueza dos dois lados.
Carlinhos Brown: Exatamente. Não existe mal-nascer, nem bem-nascer. Existem situações sociais que, se forem reparadas na essência, a gente vai sempre construir uma sociedade melhor. Eu não sou diferente do Marcola ou do Beira-Mar. A diferença é que eu estou do lado de fora. Eles podem ser o que for, mas são reconhecidos como líderes, ilegais, mas são. O que eu não me conformo é que eu não sei quem de nós três está certo. Se tenho tentado por um lado que é visto como a legalidade entre aspas, onde estão as chances? Essas chances foram estacionadas ou sequestradas pra que situação? A sociedade brasileira quer, mas ao mesmo tempo tem medo de perder o cabide. Tem um pensamento assim: se nós tivermos uma sociedade de baixo poder aquisitivo escolarizada, educada, quem vai cozinhar pra mim?, quem vai ser a babá? Lá fora você não acha babá, babá lá é baby-sitter e custa 5 mil dólares. Aqui muitas vezes nego dá a comida pra pessoa viver. Sabe o que a gente quer? Uma franchising importante de acarajé pra concorrer com McDonald’s. Como os italianos conseguiram espalhar a pizza no mundo inteiro e a gente tem a camada comida baiana que o mundo inteiro gosta e a gente não consegue estender? É uma riqueza que a gente tem. Dia 2 de fevereiro, todos os filhos de Iemanjá vão agradecer no mar. O cara pega a câmera, a televisão, “é dia de Iemanjá”, “os pobres”, “os negros”… Filósofo e historiador vai, suga, vira um livro de fotografia. E a gente não vê nada, continua ali. O que nós estamos pedindo é que nos deem a possibilidade de reescrever a nossa história por nós mesmos. Isso não vai instalar nenhum separatismo, ao contrário, vai enriquecer o caldo cultural do Brasil, do mesmo jeito que nós, negros, afrodescendentes, somos exímios consumidores de pizza. Não me queixo em sair daqui, mas não saí porque quis. Saio porque não estava achando trabalho, e continuo não achando. Tenho consciência de que tenho carisma, mas é também um tipo de personagem que, às vezes penso, por que é tão incomodativo, o que incomoda tanto? É o fato de ser rápido na percussão?

iG: Não é racismo?
Carlinhos Brown: Então talvez esse seja o desafio. E a gente vai vencer isso dentro da revolução pela doçura. Quando boto aquele cocar o pessoal diz: “Cocar de índio”. É uma das piores críticas possíveis. Aquele cocar não é de índio, aquele cocar é meu. Fui chamado para usar por um candomblé de caboclo, pelos índios. Fizeram um primeiro, e disseram: “Esse é seu, mas você vai descobrir o seu cocar”. E eu descobri, e fiz um cocar que não tem no histórico do índio brasileiro. Afasta-se o negro, o índio, o japonês, e eles terminam buscando uma identidade que encontram na internet, no discurso de um país que ainda não se curou de uma guerra ou de um problema étnico interno. O cara começa ouvir tal banda, vai pregando aquilo no ouvido da pessoa. Há que compreender o poder da música, você pode não entender a língua, mas os sentimentos todos estarão lá. Por que todo mundo tem medo de ver um careca tatuado e vestido de preto? Skinhead, em inglês, cabelo cortado, não é isso? Mas eles começaram a ganhar fama de violentos porque foram pessoas também muito machucadas na vida. Talvez o que nós precisamos ver é que as mágoas são águas más, ou más águas.

iG: Isso é um verso de música?
Carlinhos Brown: Não, tô falando assim agora. Não sei, eu falei aí…

iG: Isso é letra de música.
Carlinhos Brown: E água só precisa ser limpa, e tem um processo natural de purificação.

iG: Menos a do rio Tietê…
Carlinhos Brown: Menos a do rio Tietê (ri). Mas é possível, está muito mais no cuidado. São Paulo deu um exemplo de sociedade civil organizada, parecia Antônio Conselheiro, Zapata ou Padre Cícero. Foi aquele prédio que era da Camargo Corrêa, uma estrutura e organização que você não encontra nos prédios de qualquer pessoa formada por administração. É a mulher que conquistou emprego, mas foi posta pra rua, tinha que cuidar do filho que estava na rua e não podia trabalhar. O que aquela criança vai crescer? Um dia ele vai assaltar a Camargo Corrêa inteira, com todo o respeito aos Camargo.

iG: O skinhead só é violento por vingança?
Carlinhos Brown: Exatamente, os roqueiros são figuras doces. Que motor educacional nós estamos querendo promover? É o pobre que não sabe ler ou uma classe dominante que se mal-educou? A paz não virá do sangue. Não virá, não virá.

iG: No show de 1o de maio, diferente do episódio do Rock in Rio, você e o público paulista se comunicaram perfeitamente...
Carlinhos Brown: Vou lhe dizer, eu estou esperando por essa oportunidade, estou pedindo humildemente pra voltar ao Rock in Rio, com a minha banda de rock, o Mar Revolto. Eu merecia uma segunda chance. O que eles reclamaram dez anos é que não era rock. Agora é. Tenho café no bule. O Mar Revolto é minha primeira banda, o grupo que me levou pra classe média baiana. Tocaram com Zezé Motta, e eu fui tocar percussão nesse grupo, que terminou começando outra coisa na Bahia, muito antes do axé music, do Luiz Caldas. Todos estão bem de vida, largaram a coisa. Um era filho de fazendeiro, outro é dono de loja de roupa. Eu voltar pro Rock in Rio é humilde, eu nunca briguei com o público. Se algo rock’n’roll aconteceu naquele ano foi aquilo. Aí os veículos vêm pelo escárnio, “vaia”, como se fosse um derrotismo que não há em mim. Se foi, eram lindas, e aí, são minhas vaias.

iG: Considerando a galeria dos que já foram vaiados, não é pra qualquer um.
Carlinhos Brown: Não é qualquer um que ganha vaia na MPB, não. Tem que chocar. E pra chocar a tribo do rock…

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