O mundo feminino de Cauby Peixoto

Cantor era um 'Sinatra à brasileira' e foi envolvido em relacionamentos amorosos que nunca existiram

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

AE
Cauby Peixoto durante show no Bar Brahma: esfinge da música brasileira
Nesta segunda parte do texto sobre os 80 anos de Cauby Peixoto: sua relação com o empresário Di Veras e os truques de divulgação de namoros e noivados. ( A primeira parte do texto está aqui. )

O jovem Cauby Peixoto contava poucos anos de sucesso quando a bossa nova chegou e tornou instantaneamente antiquado seu estilo estrondoso de interpretar. Sob essa película de anacronismo ele se manteve e se mantém, há seis décadas. Mesmo assim, Cauby significou enorme novidade nos anos 1950, muito devido às estratégias de marketing elaboradas empiricamente pelo empresário Di Veras, que convenceu todo um país de que o garoto suburbano carioca de cabelos encaracolados, tez morena e olhos escuros era, por baixo dos panos, um deslumbrante Frank Sinatra à brasileira.

Di Veras conduziu e dourou a pílula do delírio das fãs adolescentes diante de um Cauby bonito, gostoso e desejado. Mesmo cantando como um senhor, o rapazote virou ídolo da juventude, um de nossos primeiros, uma década e meia antes da explosão da Jovem Guarda (que seria conduzida por dois fãs de carteirinha de Cauby, Roberto e Erasmo Carlos). "Eu era um cantor da juventude. Meu empresário me promovia com reportagens assim: 'Quando Cauby canta, as meninas desmaiam'. Aí começou tudo. Só uma fã desmaiou, por incrível que pareça. Foi socorrida por um locutor da rádio Mayrink Veiga que era médico", ele relembra, com ironia sutil.

A transmutação foi dolorosa. Na biografia "Bastidores" (2001), o jornalista Rodrigo Faour relata, por exemplo, que em 1954 Cauby teve os dentes arrancados e substituídos por próteses que coincidissem melhor com a imagem de galã traçada para ele. O empresário, por sinal, confessou a Faour que era ele quem lia e respondia pessoalmente às cartas das fãs para o pupilo. Suas estratégias, que incluíam simular, fotografar e publicar brigas com cantores rivais, seriam adotadas adiante por Carlos Imperial e pelos meninos da Jovem Guarda - e não diferem muito da cultura de celebridades e subcelebridades que tem sido a cara destes primeiros anos 2000.

Divulgação
Cauby Peixoto em foto promocional de 1958
Outro dos truques de Di Veras que não caiu de moda até hoje era o de providenciar supostos namoros, romances e noivados de Cauby com estrelas que iam das cantoras locais Angela Maria e Ellen de Lima a celebridades internacionais, nas temporadas que Cauby passou nos Estados Unidos, tentando se estabelecer como um novo Sinatra ou Nat King Cole.

"Fui namorado de mentirinha da (atriz) Jayne Mansfield", ri o Cauby de 2011. "Lá é assim, as coisas acontecem ou não dependendo de você estar perto de uma moça bonita. Então eles jogam como se fosse uma namorada, um 'date', 'cantor brasileiro namorando Jayne Mansfield'." O "lá" a que se refere é a América do Norte, mas bem podia ser aqui mesmo.

A ambiguidade de Cauby

Deve vir dos tempos de Di Veras o hábito de Cauby se referir ao conjunto de seus espectadores como "elas". Na dita vida real, ele nunca se casou oficialmente. Tampouco se furtou, dos anos 1970 em diante, a responder às provocações de jornalistas sobre sua sexualidade. Se nunca se afirmou explicitamente homossexual (como, de resto, a maioria quase absoluta de seus pares), tampouco fugiu do assunto ou negou que o fosse. Trata seus fãs no feminino, mas em alguns de seus meus melhores momentos faz igual consigo mesmo.

Foi o que aconteceu em 1980, no disco de ressurgimento "Cauby! Cauby!". Refez a "Ronda" de Vanzolini, mantendo o eu-lírico feminino ("volto pra casa abatida/ desencantada da vida"). Serviu ironia e autocrueldade na bandeja em "Dona Culpa", em dueto com o autor do samba-rock, Jorge Ben: "Dona culpa ficou solteira/ pois ninguém quis casar com ela/ (...) a minha geração não encontrou a esperada saída/ talvez a de vocês com sorte encontre ainda".

Sobretudo, esbanjou ambiguidade em "Bastidores", a canção que se tornaria sua marca maior, ao lado da popularíssima "Conceição". "Com muitos brilhos me vesti/ depois me pintei, me pintei, me pintei, me pintei/ (...) cantei, cantei/ jamais cantei tão lindo assim/ e os homens lá pedindo bis/ bêbados e febris a se rasgar por mim", afirmam os versos de Chico Buarque que Cauby transformou em seus, estivessem ou não no feminino.

Acontece que "elas", as fãs que Di Veras cobiçava, nuncam foram o único público sustentador de um gueto chamado Cauby Peixoto. Parte de sua longevidade musical se explica, facilmente, pela diversidade que ele atiça. Assim como o variado público que se une para aplaudi-lo, seu repertório é vasto como poucos entre os muitos valores musicais brasileiros atropelados pelas revoluções da bossa, Jovem Guarda, tropicália etc.

Sempre pautado pela fácil comunicação com a plateia, Cauby não despreza o poder comunicativo de "Conceição", "Bastidores" e "Ronda" nas noites barulhentas e despojadas do Bar Brahma, mas vai sempre bem além delas. Na noite presenciada pela reportagem do iG , senta-se e canta gêneros, tempos e idiomas diversos, sem intervalos ou delongas entre uma canção e outra.

"Luiza", standard bossanovista de Antonio Carlos Jobim, precede a anacrônica e infantilizada "Ci-Ciu-Ci, Canção do Rouxinol", que resiste em seu repertório desde 1956. Um ouvinte noviço pode se constranger com o trinado de pássaro simulado por Cauby, mas, ora, não era exatamente o que o pequeno Michael Jackson fazia em 1972 ao imitar o piado do tordo em "Rockin' Robin"?

Assim como sempre gostou de cantar de tudo um pouco, de Cole Porter a Wando, de Benito di Paula a Bertolt Brecht, no palco Cauby faz o standard macio norte-americano "Fly Me to the Moon" conviver pacificamente com a reverência à voz de terremoto de Raimundo Fagner, intérprete original de "Guerreiro Menino" (1983), de Gonzaguinha.

Ali os versos tratam de, mais uma vez, desconstruir e reconstruir a esfinge Cauby: "Um homem também chora, menina morena/ também deseja colo, palavras amenas/ precisa de carinho, precisa de ternura/ (...) é triste ver esse homem, guerreiro menino/ com a barra de seu tempo por sobre seus ombros/ eu vejo que ele berra/ eu vejo que ele sangra/ a dor que traz no peito, pois ama e ama/ um homem se humilha se castram seu sonho/ seu sonho é sua vida...". Juntas e emparelhadas, "Conceição", "Bastidores", "Ronda" e "Guerreiro Menino" bastam para contar a história de Cauby Peixoto e explicar a perenidade de um artista ímpar.

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