O homem por trás da Virada Cultural

José Mauro Gnaspini dá entrevista direto do QG do evento

Carlos Augusto Gomes |

O porão do Teatro Municipal de São Paulo nunca esteve tão agitado. No local, em meio a arcos, tijolos aparentes e teto baixo, atualmente espremem-se cerca de duzentas pessoas, todas trabalhando na próxima edição da Virada Cultural. Tanta gente tem uma boa explicação: o evento, mais uma vez, vai reunir centenas de atrações no centro da capital paulista, durante 24 horas ininterruptas. É um trabalho digno do adjetivo hercúleo - e, no comando de tudo, está José Mauro Gnaspini, diretor do evento.

Segundo o secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil, José Mauro é a "alma" da Virada. Isso ficou bem claro na entrevista de 1h30 dada na tarde desta segunda-feira ao Último Segundo. A cada cinco minutos, pelo menos, a conversa foi interrompida porque ele precisava resolver algum problema. Uma negociação de contrato, um buraco na rua, um número de telefone, uma montagem de palco - ele fica a par de tudo. Estressante? Não. "Estou virando faz tempo. Eu gosto de administração de crises", explica.

José Mauro dirige a Virada Cultural desde sua primeira edição, em 2005. Formado em direito, veio para a administração municipal trazido por Calil, que conheceu durante um mestrado sobre o famoso curta que Glauber Rocha filmou durante o funeral de Di Cavalcanti, em 1976. O filme ficou proibido durante anos pela Justiça, a pedido da família de Cavalcanti. José Mauro sustentou a tese que a proibição não era válida, por causa de um erro no processo. "Mas as famílias de Glauber e Cavalcanti chegaram a um acordo para não exibir", afirma.

A Virada Cultural, inspirada nas "nuits blanches" de Paris, reúne diversas atrações culturais se apresentando durante 24 horas no centro de São Paulo. Há cinema, teatro e dança, entre outros, mas o que chama o público mesmo é a música. No ano passado, por exemplo, passaram pelos palcos do evento nomes como Gal Costa, Mutantes, Jorge Benjor e Ultraje a Rigor, entre outros. Em 2007, os destaques foram Alceu Valença, Nação Zumbi, Jards Macalé e Zélia Duncan, para citar os principais.

Para este ano, a programação continua intensa. Pelo palco principal do evento, montado na Avenida São João, vão passar artistas do porte de Maria Rita, Novos Baianos e Marcelo Camelo. Na Estação da Luz, diversas atrações vão tocar todos os álbuns de Raul Seixas, em homenagem aos vinte anos da morte do cantor baiano. Já a Praça da República terá grupos de rock, como Camisa de Vênus e Nação Zumbi, e o Largo do Arouche reunirá aqueles considerados bregas, como Wando e Reginaldo Rossi.

Álbuns recriados

O Teatro Municipal, mais uma vez, será o palco em que álbuns clássicos serão apresentados na íntegra. É, desde 2007, uma característica da Virada - e ideia de seu coordenador. O conceito, na verdade, surgiu em 2006, quando o Zimbo Trio recriou o disco Zimbo Trio convida Heraldo do Monte e Hector Costita, a pedido de José Mauro. "Esse álbum tem uma versão fantástica de 'Caça à Raposa', de João Bosco e Aldir Blanc. Mas justamente essa eles não tocaram naquele show", relembra.

A experiência de 2006 voltou com força nos anos seguintes. Em 2007, o Municipal teve Jards Macalé tocando seu primeiro disco, de 1972, e João Donato interpretando A Bad Donato, de 1970. No ano passado, um dos destaques foi Luiz Melodia cantando na íntegra o seu álbum de estreia, Pérola Negra, de 1973. Para este ano, José Mauro aposta em Tom Zé. O baiano vai interpretar Grande Liquidação no Municipal. É seu primeiro trabalho, de 1968, e traz clássicos como "São São Paulo" e "Parque Industrial".

A escolha foi do próprio José Mauro - e prontamente atendida por Tom Zé. "Ele está animadíssimo. Inclusive compôs uma música inédita para cantar junto com as antigas, chamada 'Tropicália Jacta Est'", adianta. Na maior parte das vezes, conta, é ele quem sugere aos artistas que álbuns interpretar. Mas, agora que essa característica já virou tradição, há quem já chegue com um disco na manga. "Esse ano, a Fafá de Belém já veio com uma sugestão", diz. Ela vai cantar seu álbum Água, de 1977.

Durante a entrevista, ele revelou os discos que mais gostaria de ver recriados na Virada: Fa-Tal, de Gal Costa, e Transa, de Caetano Veloso. Com Caetano, ele até chegou a conversar. "Vi que ele havia elogiado a Virada e entrei em contato. Mas não deu em nada", lamenta. "É uma pena, porque o Transa tem tudo a ver com o que ele está fazendo no momento". Outro objeto mais pé no chão é o álbum de 1972 de Lô Borges, mais conhecido como "disco do tênis". "Chamei em 2007, 2008 e esse ano. Ano que vem, vou chamar de novo", promete.

A ideia de recriar discos ficou tão forte que levou, este ano, ao palco Toca Raul, montado nas proximidades da Estação da Luz. Nele, todos os álbuns de Raul Seixas serão interpretados na íntegra e em ordem cronológica. É uma homenagem aos vinte anos da morte do cantor, a serem completados em agosto. "A primeira ideia foi reunir vários covers do Raul no palco. Mas, se fizéssemos isso, iam acabar tocando 'Metamorfose Ambulante' umas quarenta vezes", explicou. A solução foi cada um tocar um disco, desde o primeiro, de 1968, até o último, de 1989.

Dentre tantos shows em tantos palcos, qual José Mauro vai ver? Provavelmente nenhum. "Eu passo a Virada fazendo isso que você viu aqui", diz ao repórter - ou seja, administrando montagens de palco, agendas, horários e até tapagem de buracos no Vale do Anhangabaú. Administrar crises, como ele mesmo havia dito. "Gosto do caos, de ver o bicho pegando. Eu me divirto assim", resume.

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