O historiador polemiza

Ignorado pela mídia e pela academia, segundo ele mesmo, José Ramos Tinhorão lança dois livros com críticas, ensaios e entrevistas

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG |

Se José Ramos Tinhorão acredita que só serve à mídia pelo hábito de “esculhambar” todo mundo, tentemos inverter os hábitos arraigados, e entrevistar o Tinhorão historiador. Esse, segundo sua avaliação, moraria num limbo, ignorado pela mídia ligeira por um lado e pela academia por outro. Falemos com ele.

Divulgação
Tinhorão no começo de carreira, ostentando uma barba que não estava na moda
Deixa eu tentar falar então sobre seus livros. Tem o outro lançamento, que é uma seleção de críticas, ensaios e entrevistas suas quando escrevia na imprensa ( Crítica Cheia de Graça , editado pelo Empório do Livro)...

( Ele interrompe ) Mas não tem só esse, também tem o da editora 34, A Música Popular Que Surge na Era da Revolução . Há uma parte em que venho para Portugal, onde há dois gêneros que aparecem ali, mas não são portugueses: a modinha e o lundu, que foram levados para lá por um mulato brasileiro chamado Domingos Caldas Barbosa. Por que esses dois gêneros vão persistir no tempo e chegarão a ser gravados depois na colônia do Brasil, no século XX? Aí o Tinhorão explica: Portugal tinha se fechado para a Europa, com medo da Revolução Francesa, que estava pondo abaixo as cabeças coroadas, transformava o cara em cidadão, e isso acabava com os privilégios da nobreza. Portugal tinha horror às chamadas ideias sediciosas, ou seja, revolucionárias, então se fechou para a Europa. Mas, como um país não pode viver culturalmente fechado, tinha que se abrir para algum lugar, e se abriu para sua colônia americana. E por quê? Porque era de lá que estava chegando o ouro das Minas Gerais, que salvava o país das suas dificuldades econômicas. Essa relação nunca ninguém fez.

Se não tivesse sido assim a história da música brasileira seria outra?
Talvez tivesse começado mais cedo a dominação do mercado musical pelos gêneros de fora. Esses sempre foram muito fortes no Brasil? Foram. Você pega os primeiros discos da Casa Edison – estão lá para você ouvir no Acervo Tinhorão (no Instituto Moreira Salles) –, tem valsa, schottische, polca, mazurca, mas conviviam com os gêneros nacionais. A indústria cultural ainda não existia como uma indústria impositiva. Por que o processo capitalista globaliza um gênero só, o rock? Porque é mais econômico. Se uma multinacional ficasse tocando na Argentina os vários gêneros argentinos, no Brasil os vários gêneros brasileiros, não haveria rendimento. Mas se criar uma média de som que impõe para todo o mundo e depois não precisa mais impor porque todo mundo aceita, ótimo.

No Brasil, a imposição vai se dar nos anos 1950, com a bossa nova?
Antes da bossa nova, porque antes você já tinha o bolerão. Depois você tem o iê-iê-iê do Roberto Carlos, e não para nunca mais.

Queria que você falasse sobre sua metodologia quando escrevia na imprensa, a partir de luta de classes, materialismo dialético.
O disco que saía era um pretexto para uma análise que não era apenas crítica, gostei, não gostei. Eu procurava interpretar o fenômeno do ponto de vista histórico e sociológico. “Ah, o Tinhorão não gosta de nada que é novo.” Não é que eu não gosto do que é novo. Num país subdesenvolvido, não há o novo. Existe automóvel brasileiro? Não. Existe automóvel italiano, ou alemão, ou americano. Aqui se montam automóveis. Existe avião brasileiro? Não, a Embraer faz a casca. O Brasil paga royalties pelo que faz.

Tanto que quase toda a música brasileira é de propriedade das gravadoras multinacionais.

É claro, rapaz! O mundo ocidental vive sob o modo de produção capitalista, e ali, o que se chama de cultura com “C” maiúsculo é a soma das culturas com “c” minúsculo. Vou te dar um exemplo. Simplificam e dizem: “Vamos discutir o problema da mulher”. Não há um problema da mulher. De que mulher você está falando? O problema da mulher pobre é saber como vai almoçar. O problema da mulher rica é saber como vai ter um orgasmo. Quando fala do problema da mulher, você está falando de qual delas? Não existe “o” problema, existem “os” problemas da mulher, que dependem de qual mulher você está falando. Essa mulher pertence a que classe? Não há problema do jovem, de que jovem você está falando? O jovem universitário que ia para a rua dizer “é proibido proibir”, ou o jovem sem emprego, sem educação, sem escola? É por isso que o Tinhorão não foi assimilado. E é mais fácil esculhambar do que procurar entender na verdade o que ele está dizendo.

Foram esses pontos de vista que o afastaram do dia-a-dia da indústria jornalística? Em 1981, quando saiu do Jornal do Brasil, você só escrevia sobre cantadores nordestinos, duplas caipiras.
Claro, quando eles tinham o Tárik de Souza falando de Rita Lee, por que ia ter o Tinhorão falando de Zé Coco do Riachão? Qual foi o motivo que me deram quando acabaram com a coluna? “Motivos econômicos.”

E eram mesmo, não?
(Ele ri.) Quer dizer: não vende. O jornal não foi feito para vender boas ideias de minorias. Foi feito para vender qualquer coisa das maiorias.






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