No túnel do tempo do Scorpions em São Paulo

Marginal, Alexanderplatz: como foi ver a despedida dos roqueiros alemães

Flávio Gomes, especial para o iG |

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O vocalista Klaus Meine, 62 anos, canta no Credicard Hall: competência de sempre
Quando recebi meu ingresso do Rock in Rio, comprado numa agência do Banco Nacional, salvo engano, veio junto um papelzinho com a programação do festival. Num dos dias iriam tocar AC/DC, Scorpions, Ozzy Osbourne, Whitesnake e Baby Consuelo & Pepeu. A primeira reação foi ter pena da Baby e do Pepeu.

Isso faz 25 anos. Um quarto de século depois, fui ver Scorpions de novo. Seria um mentiroso de quinta categoria se resolvesse aqui descambar para uma comparação entre aquele Scorpions que tocou para 350 mil pessoas na Cidade do Rock e o Scorpions que vi ontem numa comportadíssima casa de shows.

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O guitarrista Matthias Jabs no palco em São Paulo
Naquela noite, um quarto de século atrás, não tive coragem de entrar na lama para ficar na cara do palco, no meio daqueles metaleiros doidos, enlouquecidos, todos de preto, cheios de tachinhas e roupas de couro. Não lembro quase nada daquela noite, é preciso ser honesto. Devo ter-me encharcado de Malt 90, a cerveja oficial do festival, que chamávamos carinhosamente de Malt Nojenta, porque chegava ao copo quente e choca. Fiquei de longe vendo e ouvindo aquele barulho todo, anestesiado e feliz. Nos flashes que a memória ainda me concede, lembro de ter visto a Monique Evans de vestido branco e careca, misturada ao povo. Ela era linda de qualquer jeito, mesmo careca.

Scorpions já era uma banda veterana, tinha 20 anos de estrada desde que surgiu em Hannover, e vivia seu auge. Seus integrantes, alemães que cantavam em inglês, liderados pelo baixinho Klaus Meine com sua voz metálica e estridente, foram chamados de "heróis do heavy metal" pela "Rolling Stone".

Talvez não tenha sido a maior multidão de sua carreira. Scorpions sempre foi uma banda afeita a enormes plateias e a momentos épicos. Tocaram em Leningrado para mais de 300 mil pessoas, na Califórnia para 325 mil e em Moscou para 260 mil. Os 350 mil do Rio são um chute, possivelmente. Mas não importa. Foi uma noite histórica, quando os metaleiros de todo o Brasil se encontraram para louvar o rock.

No começo deste ano Meine, 62 anos, e o guitarrista Rudolf Schenker, também 62, anunciaram ao lado de Matthias Jabs, guitarrista, 54, Pawel Maciwoda, 43, baixista polonês, e James Kottak, baterista, 47, americano, que a banda iria encerrar suas atividades. Uma turnê mundial, "Blackout World Tour", para fechar o botequim e, no ano que vem, cada um vai para sua casa cuidar da vida.

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A tatuagem do baterista James Kottak: direto e reto
A turnê está no Brasil. Passou por João Pessoa, São Paulo, vai a Curitiba, depois Brasília e, por fim, São Luís, no Maranhão. São tempos realmente diferentes. João Pessoa e São Luís hoje fazem parte do circuito de megashows internacionais. Quem imaginaria isso há 25 anos?

Os escorpiões já dão alguns sinais de cansaço, é algo que dá para perceber, ninguém é eterno, mas seguem sendo quem sempre foram: roqueiros puros, "old fashioned", malucos, de cabelos pintados, óculos escuros, roupas extravagantes, com suas guitarras nervosas e mensagens tatuadas. "Rock 'n' Roll Forever" é o que dizem as costas de Kottak, o baterista. Direto e reto.

O show? Ora, o que importa o show? O público era outro. Talvez alguns daqueles birutas enlameados do Rock in Rio estivessem no Credicard Hall ontem. Mas já somos quarentões, ganhamos barriga e perdemos cabelos, e já não há mais o barro da Barra, nem a Malt 90. Usamos pulseiras e tíquetes com código de barras, não há fumaça de espécie alguma no ar, o mundo anda assético e refratário a qualquer vício ou desvio de conduta. Na falta de outra coisa para fazer, as pessoas erguem seus celulares, filmam, fotografam e tuítam. A música fica um pouco de lado, os mais jovens parecem se preocupar mais em contar a alguém onde estão do que em olhar nos olhos daqueles velhinhos que um dia foram os heróis do heavy metal. E heavy metal também é expressão em desuso. Não sei se ainda faz sentido para alguém.

Mesmo assim, Klaus soltou a voz com a competência de sempre em alguns clássicos, como é normal em qualquer show. São sempre as melhores, as clássicas. Dá um certo medo quando uma banda que a gente sempre quis ver avisa que "we're gonna play a new song from our new album" (as bandas brasileiras costumam anunciar faixas "de nosso novo trabalho"), porque em geral a gente quer ouvir the old songs from your old albuns, e teve disso no show, the new song, e por sorte era "The Best is Yet to Come", que já nasceu clássica, e a ela se juntaram "Still Loving You", "Big City Nights", "Wind of Change" e "Rock You Like a Hurricane", e outras que nunca ouvi e provavelmente não ouvirei mais.

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Meine se enrola na bandeira do Brasil
Não tem importância. Só de escutar "Wind of Change" já valeu a noite. Não sei se muita gente ali dentro tinha alguma ideia da importância dessa canção, escrita em setembro de 1989, dois meses antes da queda do Muro de Berlim, e que acabou virando um hino da reunificação da Alemanha quando foi tocada em Potsdamer Platz no ano seguinte, no mais espetacular show de todos os tempos, "The Wall", cortesia de Sir Roger Waters & Amigos. Porra, os caras derrubaram o Muro de Berlim com essa música, e ontem se deram o trabalho de tocá-la para nós. Sempre que ouço "Winds" me sinto em Berlim, Alexanderplatz, em novembro de 1989, e pude escutar ao vivo, ali na fila do gargarejo, numa casa de shows na Marginal.

Como já não há mais muros para derrubar, está bom demais.

Serviço – Scorpions no Brasil

São Paulo
Credicard Hall
Domingo (19), às 20h
Ingressos: R$ 100 a R$ 600

Curitiba
Terça (21), Arena do Expotrade Convention Center
Ingressos: R$ 105 a R$ 205

Brasília
Quarta (22), Ginásio Nilson Nélson
Ingressos: R$ 140 a R4 420

São Luís
Sexta (24), Centro Histórico
Ingressos: R$ 150 a R$ 350

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