No Rio, Roger Waters transforma Engenhão em 'home theater' gigante

Com efeitos cinematográficos e som 'surround' impecável, ex-Pink Floyd promove catarse coletiva com execução de "The Wall" na íntegra

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |

Não será surpresa alguma se pipocarem nas redes sociais relatos de que o show de Roger Waters no Engenhão, na noite desta quinta-feira, foi um dos melhores já vistos no Rio de Janeiro. Tampouco exagero. Com uma produção sem similares e um disco clássico tocado de cabo a rabo, o ex-baixista do Pink Floyd prestou contas do investimento milionário feito na turnê "The Wall". Difícil encontrar defeitos na apresentação, bem como descrever a exata dimensão do que foi apresentado. Tudo se encaixa nas duas horas de espetáculo: discurso, figurino, alegorias e o nível de áudio e imagem que transformou o estádio em uma espécie de "home theater" ou sala de cinema gigante. Eram seis enormes caixas espalhadas pela arquibancada, fora as torres de som e os falantes do palco. O estéreo das músicas se revezava com o "surround" dos efeitos. Psicodelia pura. Ele ainda fará dois shows em São Paulo, nos dias 1 (domingo) e 3 (terça-feira) de abril.

Infográfico: Compare a versão atual da turnê "The Wall" com a de 1980

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Apresentação surpreende com efeitos cinematográficos

"The Wall" foi originalmente gravado em 1979. Um álbum conceitual, baseado nas experiências de vida de Waters, que após décadas ganha conotações mais abrangentes e relevantes, como ressaltara o próprio baixista em entrevista na quarta-feira, em hotel na Zona Sul do Rio. "Não tomou apenas uma direção política. Mas é verdade. Quando eu escrevi a peça, eu estava nos meus trinta e poucos anos. Naquele tempo eu achava que era apenas sobre eu e meu pai, sobre o que eu pensava. Mas não é. Mais tarde percebi que tem outras implicações. É por isso que, com a ajuda do meu staff, criamos visuais que expandem o sentido de tudo isso, fazem da história muito mais genuína, sobre muitas outras pessoas, não sobre eu, meu pai e minha mãe. É nisso que acredito, é o que tento expressar nessa versão do show. Vocês podem discordar, mas é o que eu penso", explicou Waters.

O engajamento político de fato não tem como passar despercebido no show. Desde "enjoy capitalism (aprecie o capitalismo)" escrito com as letras no formato Coca-Cola aos bombardeiros despejando logomarcas como McDonald's, Shell, Mercedez Benz, e símbolos políticos e religiosos, como a foice da extinta União Soviética, a lua e estrela dos muçulmanos, a estrela de Davi, e a cruz católica, Roger Waters faz de sua apresentação uma oportunidade de quase obrigar seu público a refletir. Ele chega a vestir uma farda negra no estilo nazista, com a suástica em pano vermelho enrolado no braço trocada pelos dois martelos cruzados, o símbolo da turnê. Na parte final, ainda pega uma metralhadora e dispara a esmo.

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Boneco gigante faz parte do cenário
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Na quarta-feira, Waters fez duras críticas à postura de Israel em relação aos palestinos, apoiando o Fórum Social Mundial sobre o tema, que acontecerá em novembro, em Porto Alegre. Porém, no Engenhão, não entrou na questão. O show, programado e ensaiado à perfeição, não dá espaço para improvisos ou discursos fora do roteiro.

O início da performance, 30 minutos após o previsto, com "In the Flesh?", foi apoteótico, com direito a show pirotécnico sincronizado com a música e avião se chocando contra a parede cenográfica. Contrariando a meteorologia, a chuva e o vento, que chegaram a preocupar o músico na véspera, felizmente não compareceram. A primeira foto a aparecer no telão circular no meio do palco foi a do pai de Waters, morto na Segunda Guerra Mundial. Se depois da parte um de "Another Brick in the Wall" a atmosfera já era de catarse, a parte dois da música (a mais famosa), com as crianças da Rocinha fazendo coro no palco ao lado de uma marionete gigante do professor repressor com traços psicodélicos, levou o público ao delírio. A meninada vestiu camisa com a inscrição: "Fear builds walls (o medo constrói barreiras)". O baixista então falou em português carregado de sotaque.

Antes do show: 'Se ventar como hoje, não poderemos tocar', diz Roger Waters

"Olá Brasil! Sejam bem-vindos! Estou muito feliz por estar aqui. Em primeiro lugar, agradeço às crianças da escola de música da Rocinha. Uma salva de palmas para elas! Quero dedicar essa canção a Jean Charles de Menezes (brasileiro morto em uma estação de metrô em Londres ao ser confundido com um terrorista), sua família na luta pela verdadeira justiça, e também a todas as outras famílias de vítimas do terrorismo de Estado em todo o mundo. Lembraremos de todos vocês. Obrigado!", disse Waters, antes de iniciar "Mother".

Neste momento, a plateia começou a gritar "olê, olê, olê, Roger, Roger", mas o músico pediu para parar. Ele mesmo retomaria o coro de "olê, olê" para o público completar posteriormente, mas, naquele momento, afirmou: "Não, isso não é sobre mim, é sobre Jean Charles". A cada música, a parede que se estendia por todo o palco e até as arquibancadas, recebia mais tijolos brancos onde eram projetadas as imagens de alta definição. Quando foi iniciada "Young Lust", a nona música da primeira parte do disco, quase já não se via a banda, a não ser pelas imagens no muro.

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Ex-Pink Floyd promoveu catarse coletiva em apresentação no Rio

Encerrado o primeiro ato, 25 minutos de intervalo, e "Hey You" começou como se fosse um playback. Enxergava-se apenas o muro, completo, que logo passou a estampar imagens da banda tocando por trás da barreira. Na bela "Is There Anybody Out There", contudo, a banda toda já estava à frente da parede, num piscar de olhos. Em "Nobody Home", surgiu uma sala de estar no meio do muro, com Waters em frente a uma televisão, sentado em uma poltrona, sob a luz de um abajur. Não houve quem não levantasse os braços ao ouvir "Comfortably Numb", com o guitarrista solando nas alturas, em cima do muro, sem mudar uma nota do solo original de David Gilmour.

Em Porto Alegre: Roger Waters dedica show "The Wall" a Jean Charles

Já na parte final do show, surgiu flutuando sobre o público o javali dos infernos rabiscado com termos como "porcos fardados", "racismo", "quem vai pagar a conta?", além de símbolos de anarquia. O bicho inflável desceu para que a plateia pudesse destruí-lo depois de circular de um lado a outro do estádio. Houve ainda referência à Apple, em "Run Like Hell", com palavras como "iLearn (eu aprendo)", "iBelieve (eu acredito)", "iHate (eu odeio)", "iKill (eu mato)" projetadas no paredão. O encerramento foi com o muro entre Waters e o público posto ao chão e os 12 músicos que se revezaram durante a execução de "The Wall" em roupas de passeio (a maioria de camiseta e calça jeans) fazendo reverência aos fãs. O ex-Pink Floyd foi breve: "Obrigado! Vocês foram uma plateia maravilhosa". O show também, caro Waters.

Confira abaixo as músicas de "The Wall":

"In the Flesh?"
"The Thin Ice"
"Another Brick in the Wall Part 1"
"The Happiest Days of Our Lives"
"Another Brick in the Wall Part 2"
"Mother"
"Goodbye Blue Sky"
"Empty Spaces"
"Young Lust"
"One of My Turns"
"Don't Leave Me Now"
"Another Brick in the Wall Part 3"
"Goodbye Cruel World"

Intervalo

"Hey You"
"Is There Anybody Out There?"
"Nobody Home"
"Vera"
"Bring the Boys Back Home"
"Comfortably Numb"
"The Show Must Go On"
"In the Flesh"
"Run Like Hell"
"Waiting for the Worms"
"Stop"
"The Trial"
"Outside the Wall"

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