Ney Matogrosso resgata canções clássicas em novo show

Em entrevista ao iG, o cantor relembra momentos com Roberto Carlos e fala sobre seus rituais antes de entrar no palco

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Jorge Rosenberg, especial para o iG
Ney Matogrosso
Quando Ney Matogrosso assistiu ao seu mais novo DVD, “Beijo Bandido”, achou que estava ocupando espaço menor do que poderia. “Estava muito contido”, afirma. Pudera, o espetáculo foi gravado no palco do imponente Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A constatação, segundo o cantor, o fez modificar o espetáculo já veterano, e a tomada mais ampla do espaço é uma de suas promessas para a nova temporada de “Beijo Bandido”, nesta sexta (dia 18), sábado (dia 19) e domingo (dia 20), em São Paulo.

Talvez fosse simples, se estivesse caracterizado com as fantasias exuberantes que o definiram desde os tempos do grupo Secos & Molhados (1973-1974). Mas “Beijo Bandido” é, como ele próprio define na introdução do DVD, um espetáculo com foco na palavra. Ney canta de terno e gravata - o forro do paletó é vermelho, sangrento, mas ainda assim o traje impõe alguma contenção a quem, no palco, nunca foi contido.

Não seria o contraste com o monumental Theatro Municipal que passa a impressão de pequenez a um performer que nunca foi pequeno? Ney observa que essa foi a primeira vez em que fez um show completo num teatro com essas características. “É um teatro lindo, especial, o templo da música clássica. Antigamente era proibido para música popular, não deixavam mesmo”, afirma, recém-chegado a São Paulo numa tarde de chuva. Mesmo assim, ele diz em entrevista ao iG , não se reconhece intimidado: “É só a mística mesmo. O show eu faço igual a qualquer outro”. Nem a disposição do público ao redor, em vários níveis de plateia, o intimida? “Não, eu gosto de ver gente, de perto. Ali até tinha essa formalidade, há um distanciamento formal da plateia.”

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Seja qual for o espaço de apresentação, Ney conta que obedece a certos ritos antes de mergulhar nos holofotes. “No camarim, quando estou psicologicamente pronto, preciso ficar sozinho. E gosto também de ir para o palco, atrás da cortina, antes de os músicos entrarem, e olhar a plateia. É um momento apenas entre eu e eles, só nós, embora não saibam que estou ali. Verifico o astral, ouço, e ouvindo já sei o tipo de barulho, se o público está silencioso.”

Mesmo após quase 40 anos de traquejo profissional, afirma que o momento ainda envolve a sensação de nervosismo. “Ali atrás tenho uma toalhinha nas mãos. Antes de entrar, é especificamente nas mãos que fico suado. Não tenho taquicardia, não tremo, mas preciso da toalhinha branca para secar as mãos. E vamos embora, que vai começar o jogo!” O suor nas mãos acaba quando o jogo começa? “Suam mais ainda, mas aí é tarde”, ri.

O ritual, exposto em parte nas cenas de maquiagem e preparo da introdução do DVD, faz lembrar a música “Bastidores”, de Chico Buarque, que imortalizou Cauby Peixoto e até hoje não foi enfrentada por Ney. “Já pensei em cantar, mas nunca canto. Acho muito over de mim, o personagem que diz ‘me pintei’, ‘as pessoas se rasgaram’, não sei se tenho coragem. Não sei se combina comigo essa hiperconsciência de si.”

Augusto Gomes
Ney Matogrosso durante o espetáculo "Beijo Bandido"
Lembra que “Fascinação”, incluída no disco e show de “Beijo Bandido”, existia para ele originalmente na voz de Francisco Alves, mas admite que a interpretação de Elis Regina, em 1976, o fez hesitar até ter coragem de resgatá-la. “Demorei muito para cantar, porque tudo o que Elis canta fica eternizado. Antes, só tinha cantado dela 'As Aparências Enganam', em morria de medo de cantar aquilo.” Por quê? “Medo da comparação. Elis Regina é Elis Regina, não tem outra.”

Momento marcante desse repertório é sua releitura de “À Distancia...” (1972), sucesso tristonho do início da fase mais romântica de Roberto Carlos. “Adoro! As pessoas choram, eu vejo do palco. Fico muito impressionado. Roberto faz parte da vida amorosa do brasileiro, eu canto aquilo e vejo as pessoas chorando.”

Ney não refuta a lenda de que Roberto, à época em que cantava “À Distancia”, andava incomodado pelo sucesso dos Secos & Molhados. “Houve um encontro na TV Globo, ele não se comunicou com a gente. Manteve distância, e eu respeitei.” Mas foi quebrada, depois, a distancia do cantor de “À Distancia...”? “Depois assisti a shows dele, nos encontramos, nos abraçamos, ele me deu um abraço delicioso, com energia boa.” Diz que decidiu cantar “À Distancia” no dia em que a ouviu no filme “Violência e Paixão” (1974), do italiano Luchino Visconti. Esperou 36 anos, até encontrar em “Beijo Bandido” o “repertório coerente” para encaixá-la.

Um outro nó desatado no show devotado à palavra é o da sombria “As Ilhas” (1975), composta para ele pelo bandeonista argentino Astor Piazzolla. Ney a gravou em seu primeiro disco-solo, recém-saído da aventura épica (e andrógina) dos Secos & Molhados. Mas até aqui nunca a havia cantado ao vivo. “Eu precisava cantar. Acho que está mais segura agora. Mas também, imagina a circunstância em que foi gravada. Fui ao camarim do show do Piazzolla no Rio, disse: ‘Sou um cantor novo no Brasil, queria gravar uma música sua’.”

Para sua surpresa, Piazzolla o reconheceu como o cantor “daquele grupo”, o Secos & Molhados, topou a empreitada e o convidou para gravarem juntos, na Itália. “Fui à gravadora e falei: ‘Vou de qualquer jeito, mesmo se vocês não pagarem’”. A gravadora, Continental, pagou a viagem, mas só lançou “As Ilhas” num compacto, vendido acoplado a “Água do Céu - Pássaro” (1975), o disco-solo de estreia. Gravaram duas versões, uma sobre poema de Jorge Luis Borges e batizada “1964 (II)” e “As Ilhas”, com letra do brasileiro Geraldo Carneiro, já então parceiro de Piazzolla. “Encontrei ele em Roma, me mostrou o arranjo, fiquei assustado. Entrei no estúdio e já tive que cantar aquelas duas músicas dificílimas. Acho a gravação original muito tímida. Queria fazer outra coisa, mais segura.”

Jorge Rosenberg, especial para o iG
Ney Matogrosso durante entrevista em São Paulo
“Vi um cachorro sem dono/ à porta de um cemitério/ vi a nudez nos espelhos/ cristais na noite velada”, geme a letra de “As Ilhas”. A quase-nudez do figurino sóbrio e da formação musical econômica somam-se aos versos tensos, exigentes, de grande parte do repertório de “Beijo Bandido” (outro exemplo é “Invento”, do gaúcho Vitor Ramil, de onde saiu a expressao que batiza o projeto). E somam-se, por consequência, às exigências a que a voz do cantor tem de se submeter.

“Esse repertório é muito difícil, sarna que eu mesmo procurei para me confessar. Confesso que quando comecei os shows achei que tinha me excedido, ‘não sei se vou aguentar’”, revela. “Houve um tempo de adaptação, cantar não é só abrir a boca e fazer tudo igual. No começo apanhei muito, acabava rouco, não conseguia atingir algumas notas no final do show.” Câmeras de TV, discos e artigos na imprensa não parecem dar conta da história completa de um espetáculo, que parece amadurecer da mesma maneira como o intérprete amadurece ao longo de uma carreira de 40 anos.

Esteja rouco ou não no final do espetáculo, Ney conclui “Beijo Bandido” resgatando “Fala” (1973), do disco inaugural do Secos & Molhados. “Acho interessante encerrar devolvendo a palavra à plateia, depois de falar”, filosofa. “Eu não sei dizer nada por dizer/ então eu escuto/ se você disser tudo que quiser/ então eu escuto/ fala!/ se eu não entender não vou responder/ então eu escuto/ eu só vou falar na hora de falar/ então eu escuto/ fala!”, clama a canção, composta por João Ricardo e Luhli.

Ney Matogrosso
HSBC Brasil (rua Bragança Paulista, 1.281, Chácara Santo Antônio, São Paulo)
De sexta (18) a domingo (20)
Sexta e sábado, 22h
Domingo, 20h
Ingressos: de R$ 50 a R$ 160

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