Nelson Pereira dos Santos "corta blá blá blá" em filme sobre Tom Jobim

Documentário estreia na semana que vem e não traz depoimentos nem legendas, apenas músicas do maestro

Augusto Gomes, iG São Paulo |

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Tom Jobim, em foto de 1992
"A linguagem musical basta". A frase aparece ao final do documentário "A Música Segundo Tom Jobim", é do próprio Tom Jobim e funciona como uma justificativa para o que foi exibido pouco antes: uma hora e meia de canções do maestro, morto em 1994, sem qualquer depoimento ou legenda. Só música.

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A decisão de "cortar o blá blá blá" foi do diretor Nelson Pereira dos Santos. Um dos maiores cineastas do Brasil (tem no currículo obras como "Rio 40 Graus", "Vidas Secas" e "Memórias do Cárcere"), ele começou a trabalhar no filme em 2008 e, desde o princípio, queria que o documentário fosse totalmente musical.

"Queríamos ultrapassar a barreira da língua. Nada de pessoas falando português com legendas. Ou o filme não seria exibido nem no Uruguai", justifica. "Um filme documentário do Tom Jobim tem que ter uma carreira internacional. Não poderia ficar restrito ao Brasil."

A decisão de deixar a música, e apenas ela, falar é corajosa, mas tem um problema: quem não conhece a vida e a obra de Tom Jobim ficará perdido. Quem já é fã do músico, ao contrário, provavelmente vai se deliciar com as performances contidas no documentário.

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Tom Jobim, Cynara e Cybele e Chico Buarque apresentam "Sabiá" no festival de 1968
O roteiro inicial, feito por Nelson em parceria com a cantora Miúcha, até previa algumas poucas falas. "Inicialmente, haveria apenas uma pequena introdução, feita pelo Chico Buarque", explica o diretor. "Mas, no final, cortamos a introdução. Ele inclusive ficou feliz por não precisar falar."

Chico aparece no filme cantando. Assim como Gal Costa, Elis Regina, Nara Leão, Maysa, Adriana Calcanhotto e Fernanda Takai. E também nomes de fora do Brasil: Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughn, Oscar Peterson, Dizzy Gillespie e até Judy Garland.

"Descobrimos a Judy Garland meio por acaso", conta Dora Jobim, neta de Tom e co-diretora do documentário. "Estava procurando material no YouTube e o vídeo dela cantando a versão em inglês de 'Insensatez' pintou na centésima página de pesquisa", lembra.

A "How Insensitive" de Garland é a música mais cara do filme, segundo Dora. "O custo principal do filme é esse: direitos autorais", explica. "Uns são mais baratos, outros são mais caros. Depende de quem tem os direitos". No caso de Judy, a liberação só veio após seus herdeiros darem o sinal verde.

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Tom Jobim em 1965
Outro problema foi encontrar imagens de boa qualidade. O filme alterna arquivos em ótimo estado (por exemplo, os duetos de Tom Jobim e Frank Sinatra) com gravações bastante deterioradas. A de pior qualidade é justamente a mais cara, a de Judy Garland.

De todas as músicas do filme, a favorita de Dora e Nelson é a "Samba de uma Nota Só" cantada por Sylvia Telles na Alemanha, em 1966. "Ela é encantadora. Canta com alegria e saboreia a letra e a música", diz Nelson. Outros destaques são o dueto de Elis e Tom em "Águas de Março" e Ella Fitzgerald cantando "Desafinado".

"A Música Segundo Tom Jobim" estreia nos cinemas na sexta-feira da próxima semana (20). Nelson Pereira dos Santos já tem outro projeto na manga. Trata-se de outro documentário sobre Tom Jobim, intitulado "A Luz de Tom". "Mas, enquanto esse é o filme da música, o outro é das palavras", explica.

"A Luz de Tom" enfoca três mulheres importantes na vida do músico: sua irmã Helena e suas duas mulheres, Thereza e Ana. "São três moças falando", resume o cineasta. Segundo ele, este segundo documentário já está pronto para exibição.

Assista abaixo ao trailer de "A Música Segundo Tom Jobim":

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