'Não me importo se me chamam de brega', diz Fábio Jr.

Nesta parte da entrevista, o cantor fala sobre o preconceito que existe com sua música

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

AE
Fábio Jr., em show

Leia aqui a primeira parte da entrevista com Fábio Jr.

iG: O seu primeiro disco não fez nenhum sucesso…

Fábio Jr.: E é quase inteirinho com letras do Paulo Coelho! Cheguei na gravadora, bati o pé e falei que não gravava mais em inglês. Eles ouviram meu material, “precisa dar uma amadurecida, o trabalho é legal, mas se tivesse um parceiro para dar uma ajeitadinha nas suas letras...”. Paulo Coelho estava no auge da parceria com Raul Seixas e com Rita Lee [o disco é do mesmo ano de “Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás”, com Raul, e “Arrombou a Festa”, com Rita], era o cara para ajeitar esse pentelho que queria gravar em português. Fizemos um monte de coisa juntos e não aconteceu nada [risos]. Outro dia encontrei o Paulo em algum evento [imita a voz e cantarola a música “Já São 15 pras 7”, de 1976], “ô, Fabinho, já são 15 pras 7”. Era uma parceria nossa, imagina, a gente se encontra 35 anos depois e ele se lembra, é um cara muito simples.

iG: Três anos depois você estourou com “Pai”, “20 e Poucos Anos”, “Quero Colo”... O disco de 1979 é o que define a identidade musical que você vai levar pelo resto da vida, não?
Fábio Jr.: É.

iG: Como definir o que você faz? Qual é o lugar de Fábio Jr. na música brasileira?
Fábio Jr.: Oh, que chique [imposta a voz], já tenho um lugar na música popular brasileira?

iG: Tem, não tem?
Fábio Jr.: [Ri.] Obrigado. Sou um cantor romântico, pronto. Esse é o meu lugar. Depois do “Rei”, que está lá primeiro.

iG: É um discípulo do “Rei”?
Fábio Jr.: Pô, cresci ouvindo e vendo Jovem Guarda, sou tiete dele.

iG: Você sempre teve um pé no soul, na black music. Isso também é influência de Roberto Carlos?
Fábio Jr.: Ele sacou na época o lado negão, o lance do Tim Maia [canta], “há muito tempo eu vivi calado/ mas agora resolvi falar”. Eu canto essa música nesta turnê..

iG: Como você se ligou a esses estilos?
Fábio Jr.: Eu sempre gostei daquela moçada que veio com Cassiano, Tim Maia, Hyldon. No primeiro disco tinha música do Tony & Frankye [dupla soul-funk do início dos anos 70, formada por Tony Bizarro e Frankye Adriano]. Mas isso veio lá com Stevie Wonder, Marvin Gaye. Eu tinha um vinil do Stevie Wonder, ele com 12 anos de idade, de calça curta, já de óculos pretos, “The Jazz Soul of Little Stevie” [primeiro álbum do artista, de 1962].

iG: Você acompanhou a era dos festivais da canção, como espectador?
Fábio Jr.: Só assisti. Eu era moleque, acompanhava a Record, os festivais, o “Jovem Guarda”, a moçada da MPB com Elis Regina e Jair Rodrigues.

iG: Isso que se convencionou chamar MPB nunca foi a sua praia?
Fábio Jr.: Se convencionou, né? Música popular brasileira. O sertanejo não é popular? É música popular brasileira, porra.

iG: A sua música é mais popular que a de muitos que ficaram com a sigla...
Fábio Jr.: Você manda um lance ali, se pegou, pegou. Hum.

iG: No CD novo você regrava músicas conhecidas de Hyldon, Caetano Veloso, Lenine, Djavan, Dalto, Marina Lima, Kleiton & Kledir, Jota Quest. Quais são os critérios de escolha do repertório.
Fábio Jr.: Do Wilson Simonal também. Critério? É porque eu gosto, não tem uma coisa técnica, “vamos por aqui”. Eu sempre regravei, no primeiro disco tinha “A Noite do Meu Bem”. Depois gravei “Esses Moços” [1980] e “Nervos de Aço” [1982], do Lupicinio Rodrigues.

iG: Você é o único intérprete a regravar com alguma frequência um um artista sensacional dos anos 70, Guilherme Lamounier.
Fábio Jr.: Puta que pariu! Você é o primeiro cara que fala dele! Até hoje canto Guilherme.

Divulgação
Fábio Jr. em show no Réveillon na av. Paulista, em SP
iG: Ele ficou esquizofrênico...

Fábio Jr.: É, ele rodou a lâmpada, né? Mas é um talento inquestionável! Pena que não seguiu fazendo. De vez em quando me mandava umas coisas meio desconexas. Mas, pô, “Seu Melhor Amigo” [1981], “Enrosca”, “Seres Humanos” [1982]... Tenho o primeiro disco dele [pigarreia e começa a cantar]: “Seu pai me atendeu sem abrir a porta/ dizendo que você não estava, e eu fui embora/ sabendo que você estava lá dentro/ cheia de medo de me ver de novo/ e admitir que me ama/ Sandra", e vai lá no falsete... Esse cara cantava com a alma.

iG: Você é meio inspirado nele, tanto cantando como compondo, não?
Fábio Jr.: Eu sou mesmo. E ainda vou regravar algumas coisas dele. Você já ouviu o primeiro disco dele inteiro? Você tem?

iG: Sim. E o segundo, que tem “Será Que Eu Pus um Grilo na Sua Cabeça?”?
Fábio Jr.: Isso! Então está combinado aqui, estamos gravando: você vai queimar um CDzinho para mim com os discos do Guilherme, para ontem [obriga o repórter a repetir a promessa ao gravador]. Até que dia você vai me mandar? Até o show, na sexta-feira. Meu Deus do céu! Conheci ele pessoalmente quando morava no Rio de Janeiro. Eu namorava Glória [Pires] e ele ia muito na casa dela, na casa da gente. Noites e noites, ele tocando, cantando, compondo. Em 1983 voltei para São Paulo, aí perdi contato, falei algumas vezes com ele, poucas.

iG: A imprensa musical tem preconceito contra você?
Fábio Jr.: Nossa, estou tão preocupado, nem vou dormir esta noite.

iG: No especial de fim de ano seu e do Fiuk na TV esse tema apareceu, tinha umas piadas com a crítica musical...
Fábio Jr.: Não sei se sou um cara meio low profile, mas eu não me importo com isso, não. Eu sou o que sou mesmo, cara, vou fazer o quê? Inventar um personagem intelectual agora para dar entrevista para você? Não estou aqui para agradar gregos e troianos, não vou fazer gracinha para ninguém.

iG: É que não há um acompanhamento crítico da sua obra. Seria preconceito com os artistas mais populares, mais românticos?
Fábio Jr.: [Pensa.] É o que te falei, não vou dormir esta noite de preocupação com os críticos que acham que Fábio Jr. é brega... Sinto muito, meu filho, tenho mais o que fazer.

iG: Não seria legal se acompanhassem sua obra respeitosamente, analisando com seriedade o que você faz?
Fábio Jr.: Ah, isso aí sim, respeito é bom e eu gosto. “Ah, Fábio Jr. é romântico”, aí chegam aqui e ficam falando dos meus casamentos. Presta atenção, meu filho, não comecei ontem.

iG: Até por ser muito popular e por causa da TV, você fica num meio termo, muito procurado por conta de fofoca e menos por música.
Fábio Jr.: Mas eu acho o seguinte, quem está na chuva é para se molhar, não vou reclamar. Uma vez estava fazendo uma novela, a gente desceu para almoçar e vieram umas meninas conversar. Parei de comer, óbvio, para tirar uma foto, dar um autógrafo. Não sei quem do elenco falou: "Como você permite que interrompam o seu almoço?". Falei: "Escuta, meu filho, se não fossem elas eu não estava aqui. [Enfatiza] Nem você". Se num dia você acordou meio virado, rodou a lâmpada, não sai de casa, meu filho. Ou muda de ramo. Estou aqui e vou reclamar porque uma fã quer tirar uma foto? [Imposta a voz] "Oh, interrompeu a minha refeição", ah, pô, vai roubar para ser preso.

iG: Você não gostaria de falar mais da sua música e menos de filhos e seus casamentos?
Fábio Jr.: Não sei, as coisas aconteceram assim. É inevitável. Acabei de passar por uma agora que saí daqui espumando. Uma revista mensal, vamos falar sobre música. Porra, tadinho do cara. Então fala: “Fábio, a parada é a seguinte, é uma revista de fofoca, vão te encher o saco, vão falar dos casamentos”, está bom, já sei qual é a parada, me avisa onde é que estou entrando, não tem problema, faz parte. Agora, chega o estagiário, não sei quem, para falar de música, trajetória, e é só fofoca, porra! O cara lendo: “Fábio Jr., você faria a música ‘Vó Herói’”? Teve isso.

iG: Você abandonou a carreira de ator?
Fábio Jr.: Um pouco, a última novela foi em 1998, “Corpo Dourado”. De lá para cá, não. Teve o especial do fim de ano, até deu uma saudade.

iG: Tinha potencial para ser uma série, não?
Fábio Jr.: É, se saísse a série acho que eu toparia. O que fica complicado é esse batidão de novela. Esse dia-a-dia ali eu fazia anos atrás, não dá mais. A prioridade sempre foi a música, e é puxado. É legal pra caramba, mas é puxado pra caramba. [O repórter anuncia o fim da entrevista.] Pô, valeu o dia hoje. Sem sacanagem, até me emociona falar do Guilherme Lamounier [os olhos se enchem de lágrimas]. Vou esperar o CDzinho de uma maneira que você não faz ideia.

iG: Por que você se emocionou?
Fábio Jr.: Porque é a história com Guilherme, com o Rio de Janeiro, lembranças de um período que... Mas é para a fila andar. Não gosto dessa coisa nostálgica, “ai, era mais legal...”. Não, o mais legal é agora. Tem que ser feliz agora, não tem esse negócio de “um dia eu serei...”. É agora, não dá mais tempo para isso, para ninguém. Ou a gente faz agora ou... senta e chora.

iG: Fábio Jr., quando jovem, era porra-louca, doidão...?
Fábio Jr.: Não sei, pelo que Filipe às vezes fala para mim, não sei se era mais doidão nessa época ou hoje. Outro dia ele mandou uma: “Papito, porra, estou com 20 anos e você parece que tem 14”. Falei: “Filho, para mim isso é um elogio que você não está entendendo, mais tarde você vai entender”. Ó, o negócio do Guilherme, hein? Imagina mostrar para o Filipe e dizer: “Ouve aqui, ó, moleque, de onde vem a parada”. É, Guilherme já era meio doidão desde aquela época... Tinha um programa da Hebe marcado e foi para o aeroporto com os cachorros, “sem meus cachorros eu não vou, não”. E não foi.

Leia aqui a primeira parte da entrevista com Fábio Jr.

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