Músicos amadores: do escritório a noites em estúdio

A vida de quem toca simplesmente pelo prazer de tocar

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Basta caminhar pela Teodoro Sampaio, rua em São Paulo que tradicionalmente concentra dezenas de lojas de instrumentos musicais, para perceber uma novidade na região. Ao lado das casas que vendem guitarras, baixos e baterias, há também uma série de estúdios onde esses instrumentos podem ser tocados. Quem acredita que seus frequentadores são músicos profissionais está enganado: a maioria do público é de amadores, que tocam simplesmente pelo prazer de tocar.

São pessoas como Antonio Carlos Dias, de 49 anos. Durante o dia, ele é diretor de assuntos corporativos do Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária). Mas, todas as terças à noite, ele vira guitarrista da banda Armazém do Rock. "Estamos numa fase de só curtir. Até temos um convite para tocar num bar em abril, mas não sabemos se vamos aceitar", conta. "Mas show é outra coisa. Só toco num lugar público se estiver muito bom".

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Os cinco integrantes do Armazem do Rock

O Armazém do Rock tem o perfil da maioria das bandas que tocam nas onze salas do estúdio Produssom, na Teodoro Sampaio. "Cerca de 80% do nosso público é formado por amadores", conta Gilson Insone, um dos sócios do estabelecimento. A banda de Antonio Carlos, por exemplo, tem um cirurgião plástico, dois empresários (um da área de construção e outro de tecnologia) e um integrante que trabalha na área de seguros.

Enquanto os profissionais ensaiam durante a semana e de dia, os amadores preferem os finais de semana e o período noturno. "Nos finais de semana, as salas ficam ocupadas das nove da manhã até depois da meia-noite", diz Gilson. No total, são onze salas. Quando todas são ocupadas em todos os horários, mais de 120 bandas passam pelo Polissom num final de semana. "E nós só não temos lotação completa quando há alguma desistência", completa.

Quem chega ao estúdio numa noite de quarta-feira, por exemplo, consegue ouvir uma banda ensaiando "O Tempo Não Para" (Cazuza) numa sala, enquanto outro grupo interpreta "Should I Stay Or Should I Go" (The Clash) em outra. A variedade se repete nas paredes: há pôsteres do Pink Floyd e do AC/DC, ao lado de capas de discos de Roberto Carlos. O público também é diverso: cinquentões, jovens engravatados e adolescentes se misturam pelos corredores.

Nestes dias e horários dominados pelos amadores, o clima no estúdio é mais descontraído. As salas maiores têm até sofás, para que os amigos possam assistir aos ensaios. Antonio Carlos Dias resume o espírito dessas sessões numa frase: "a prioridade é se divertir". Tanto que ele nunca teve qualquer desejo de virar músico profissional. "Só como alter-ego", brinca. "Talento é algo que você percebe logo se tem ou não. É uma questão de ter noção".

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Eric Clapton está no repertório da banda

Essa despretensão fica bem evidente ao acompanhar um ensaio do Armazém do Rock. O quinteto, por exemplo, começa a tocar desfalcado porque o baterista se atrasou por causa de uma consulta (ele é cirurgião plástico). Quando ele finalmente assume as baquetas, a banda começa a tocar clássicos do rock como "Born to Be Wild" (Steppenwolf), "Cocaine" (Eric Clapton) e "Day Tripper" (Beatles), entre outros. Todos bem concentrados, mas claramente se divertindo.

A descontração não significa que a banda não queira ser reconhecida. "Depois de um tempo tocando, você quer mostrar para os outros", reconhece Antonio Carlos. Gilson concorda. "Todo músico, por mais amador que seja, quer ser reconhecido", diz. Por isso mesmo, um dos serviços preferidos pelos não profissionais é a gravação do ensaio em vídeo. "Os profissionais nem ligam para isso, porque já faz parte do trabalho deles. Mas os amadores querem ter algo para mostrar para os amigos".

Há ainda quem prefira tocar em casa. É o caso de Sergio Valente, presidente da agência de publicidade DM9/DDB. "Construí um pequeno palco para poder tocar sempre que der vontade. A gente liga tudo e sai tocando", conta. "Não tem periodicidade, não tem data marcada, mas quando dá vontade ligo para os amigos e reúno todo mundo". A atmosfera é bem descompromissada. "Digo que lá só entra quem toca, aplaude ou dança".

Quando questionado se essas sessões poderiam ser comparadas a uma pelada com os colegas, Sergio diz não saber se dá para comparar. "Mas, assim como no futebol, tem vezes que o jogo é mais sério, tem vezes que é uma grande bagunça, mas a idéia é que sempre seja prazeroso", reconhece. E, como algumas vezes há músicos profissionais nesses encontros, ele divaga: "imagino que seria como jogar futebol à noite com Zico e Robinho..."

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