Morrissey critica príncipe e põe banda para tocar de sunga no Rio

Ex-líder do The Smiths deixou boa parte dos hits mais batidos fora do setlist, mas empolgou público na Lapa em 1h30 de show

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |

A porta da Fundição Progesso, na Lapa, talvez a zona que mais concentra eventos alternativos no Rio de Janeiro, remetia aos tempos áureos da boate Bunker, em Copacabana, quando o público roqueiro que dançava ao som das carrapetas de Edinho e Wilson Power se misturava ao das casas GLS que ficavam ao lado. Figuras das mais estranhas às mais normais, de cabelos grisalhos ou nem tanto, viram o ex-líder do "The Smiths", Steven Patrick Morrissey, ou apenas Morrissey , subir ao palco na noite desta sexta-feira (09) ao lado de uma turma de marmanjos usando somente sungas amarelas e um personagem de guitarra em punho, vestido azul brilhante e peruca ruiva.

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Morrissey empolgou com hits como "There's a Light That Never Goes Out", do extinto The Smiths
Em 1h30 de apresentação, ele destilou alguns dos clássicos mais importantes de sua carreira solo e também da antiga banda, mas deixou diversos deles fora do setlist, o que fez com que boa parte da plateia demorasse a entender que o show havia acabado. "Bigmouth Strikes Again", "This Charming Man", "Suedehead" e outros hits manjados foram colocados de lado pelo inglês, que não hesitou em criticar o membro da família real britânica que desembarcou no Rio de Janeiro.

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Morrissey procurou interagir com público
"Vocês sabem que o príncipe Harry está aqui", começou a discursar o cantor, já ouvindo uma sonora vaia, que se transformaria em aplausos rapidamente. "Ele veio pegar o dinheiro de vocês. Por favor não dêem a ele", em referência a um dos objetivos da visita que é captar investidores para a Olimpíada de Londres, em julho e agosto deste ano.

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Outro ponto com forte teor político foi a execução de "Meat is Murder", da The Smiths, que em vez de discurso teve imagens de embrulhar o estômago mostrando maus tratos em criações de aves e gado, enquanto uma versão hipnótica da música era entoada sob iluminação cor de sangue. O cantor, vegetariano, é um ativista da causa e proibiu a venda de qualquer produto com carne no local na noite de sua apresentação.

O show não prima pelo improviso. Morrissey repetiu rigorosamente a lista que executara em Belo Horizonte dois dias antes. Foram raros solos e duas breves jams que eram mais encerramentos barulhentos do que propriamente brechas para virtuose. Chamou a atenção a construção bem diferente da bateria, com um gongo no melhor estilo Pink Floyd em Pompeia e um bumbo suspenso digno de Nação Zumbi.

O cenário simples foi composto por um enorme telão onde foram projetadas imagens abstratas e fotografias que ilustravam as letras das canções. Havia refletores ladrilhados com espelhos, lembrando os globos de discoteca, enquanto o bumbo frontal da bateria foi decorado com uma pequena bandeira do Brasil e luz branca nas bordas.

Apesar dos artigos luminosos e o figurino da banda, Morrissey não se comporta de forma espalhafatosa. A não ser em petelecos jogando suor no público e caras e bocas características, o inglês pouco se movimenta, se colocando quase que o tempo todo no centro do palco. Ele se mostrou bastante simpático com a plateia, procurando interagir, o que não é o seu estilo (para se ter ideia do desprendimento, agradeceu os aplausos na primeira música com um "gracias" em vez de um "obrigado").

O tecladista, que além de sintetizadores tocou trompete e até acordeon, chegou a falar português com sotaque portenho. Morrissey, por sua vez, falou em seu idioma nativo, que parecia ser plenamente compreendido pela maior parte dos presentes. "Fui dar uma volta por aí hoje. Todo mundo lindo, é claro. Todos, dos três sexos, lindos", disse o cantor em uma das vezes em que se dirigiu ao público.

Conheça os cinco maiores sucessos da carreira solo de Morrissey e do Smiths

Morrissey ousou ao iniciar o show sem apelar para o Smiths. As canções da banda foram deixadas para a segunda metade da apresentação, à exceção de "Stil Ill", a sexta música a ser executada. A abertura foi com "First of the Gang to Die", cantada sílaba por sílaba pelo público, seguida de "You Have Killed Me", também da carreira solo.

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Banda tocou de sunga e bateria teve iluminação no bumbo e bandeira do Brasil
Os pontos altos, porém, não eram difíceis de imaginar. "There's a Light That Never Goes Out", um dos maiores clássicos do Smiths, foi o momento de maior euforia. A versão tocada foi mais leve do que a original, sem o baixo tão evidenciado, valorizando mais a voz. Morrissey tirou a camisa e arrancou gritinhos (graves e agudos).

"How Soon Is Now?", também da antiga banda do inglês, foi outra a tirar o povo do chão, com partes da música sendo cantadas tão alto que tornava difícil ouvir o protagonista da noite, como no trecho "I am human and I need to be loved, just like everybody else does [sou humano e preciso ser amado, justamente como todos precisam]". "Every Day Is Like Sunday" foi o sucesso solo que mais empolgou.

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Houve apenas uma breve interrupção na apresentação antes do bis de uma música só. Os roadies, que já tinham entrado no palco antes do encerramento para afinar a parafernália para "One Day Goodbye Will Be Farewell", confundiram a plateia ao voltarem ao tablado depois da despedida de Morrissey, que se resumiu a um "tchau" enquanto a turma da sunga tratava de fazer barulho por conta própria.

Muitos ficaram vários minutos aguardando um retorno do cantor, que não aconteceu. Pelo menos, na saída, o vazio da ausência de alguns hits foi preenchido, com o público cantando, em "procissão", de Echo and the Bunnymen a Blur, passando por Ramones e Sex Pistols, som que rolava na parte interna da Fundição a caminho da rua.

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Morrissey encerra sua passagem pelo Brasil no domingo (11), no Espaço das Américas, em São Paulo. Os ingressos estão esgotados .

Confira o setlist de Morrissey na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro:

"First of the Gang to Die"
"You Have Killed Me"
"Black Cloud"
"When Last I Spoke To Carol"
"Alma Matters"
"Still Ill" (The Smiths)
"Everyday Is Like Sunday"
"Speedway"
"You're The One For Me, Fatty"
"I Will See You In Far-Off Places"
"Meat Is Murder" (The Smiths)
"Ouija Board, Ouija Board"
"I Know It's Over" (The Smiths)
"Let Me Kiss You"
"There Is A Light That Never Goes Out" (The Smiths)
"I'm Throwing My Arms Around Paris"
"Please, Please, Please Let Me Get What I Want" (The Smiths)
"How Soon Is Now?" (The Smiths)

Bis
"One Day Goodbye Will Be Farewell"

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