Milton Nascimento esbanja requinte com Jobim Trio ao cantar bossa nova em SP

Marco Tomazzoni |

Em uma noite gelada em São Paulo, o Tom Jazz foi aquecido pelo mais típico e caloroso som carioca. A abertura, nesta sexta-feira, da temporada de Milton Nascimento ao lado do Jobim Trio seguiu à risca a cartilha do álbum Novas Bossas , em homenagem aos 50 anos da bossa nova, e transportou para lá o espírito de Vinícius de Moraes, do próprio Tom Jobim e de outros grandes do movimento musical.

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A obra de Jobim foi, aliás, assim como a amizade evidente dos quatro, o motivo principal do projeto, como bem lembrou Milton no encerramento do show. Das 14 faixas do disco, oito foram compostas pelo maestro da bossa nova e outras duas pelo cantor, o que justifica a programação do repertório, focado nas canções dos dois compositores. E o show começou por aí. Sozinhos no palco, Daniel e Paulo Jobim ¿ neto e filho de Tom, respectivamente, no piano e violão ¿, Paulo Braga (bateria) e Rodrigo Villa (baixo acústico, convidado especial) apresentaram versões focadas na parte instrumental. Em "Águas de Março" e "Água de Beber", no entanto, Daniel também cantou, para mostrar mais uma semelhança com o avô, além da opção pelo mesmo instrumento e visual (cabelos compridos, chapéu Panamá).

Milton só se juntou aos companheiros depois da introdução de "Só Tinha de Ser Com Você", quando entrou em cena já cantando e de violão em punho. Se a interpretação do cantor no CD parece protocolar, ao vivo, como sempre, ganha muito mais vida. O timbre e vocalizações característicos de Milton foram mostrados de cara e arrancaram aplausos da platéia, que se mostrou próxima e generosa todo o tempo.

O ambiente aconchegante e compacto do Tom Jazz foi perfeito para garantir esse clima de intimidade, ainda mais com os arranjos jazzísticos para as pérolas do cancioneiro bossa-novista, suaves, com espaço para solos e improvisação, e privilegiando o piano ao invés do violão. Por isso, Paulo Jobim, levemente desajeitado, até arriscou assumir o vocal de "Brigas Nunca Mais", mas por pouco tempo, o suficiente para deixar claro que rende mais nas cordas.

Até então duro, acompanhando as letras em uma tela eletrônica e sem conversar com o público, Milton começou a brilhar, como de costume, a partir da belíssima "Inútil Paisagem". Se não bastasse a canção em si de Tom e Aloysio de Oliveira, a versão do conjunto foi além ao optar por uma introdução só com voz e violão e, em seguida, baixo e violão discretos. Linda demais. O standard "Chega de Saudade", na seqüência, serviu para Milton se soltar de vez, esquentar o ambiente e espantar a friagem de que tanto reclamavam os Jobim.

Um dos pontos altos da noite, "Esperança Perdida", pontuada pelo eco na voz do cantor, mergulhou o lugar na aura do jazz. O clima proporcionado em especial pelas baquetas de Paulinho Braga era tão "cool" que Milton até ameaçou acompanhar a música estalando os dedos. A dramática "Eu Sei que Vou Te Amar", em seguida, serviu mais uma vez como veículo para o cantor mostrar seu talento, sem economizar a potência que tem nas cordas vocais.

Com o espetáculo caminhando para o final, e para contentar os fãs que desembolsaram no mínimo R$ 200 por um assento, apareceram no setlist duas músicas consagradas na voz de Milton. "Fé Cega, Faca Amolada" e "Cravo e Canela" mudaram drasticamente o ritmo, tirando o jazz e bossa de cena para abrir espaço à MPB, com bateria rápida e violão ditando a regra. O público pareceu aprovar, mas ficou a impressão de que o bloco estava deslocado.

"Samba do Avião" encerrou a noite em alto estilo, com a platéia cantando junto e contagiante o suficiente para Milton esboçar alguns passos de samba. Uma pequena pausa se seguiu antes do bis já programado. A volta dos cinco músicos ao palco se deu com um dos grandes sucessos de Milton: "Baile da Vida" espalhou sorrisos por todas as mesas e arrancou assobios e coros de "lá lá lá". Os aplausos foram tão intensos que o conjunto improvisou uma reprise de "Chega de Saudade", fechando um show em que o requinte se fez presente.

Além das duas sessões de sexta-feira, Milton Nascimento e o Jobim Trio voltam ao palco do Tom Jazz neste sábado, com outros dois shows (às 20h e 22h30), e encerram a passagem pela capital paulista no domingo, com apresentação única às 19h. Os ingressos custam de R$ 200 a R$ 220.

Veja a lista completa de músicas do show:

"Surf Board"
"Samba de Uma Nota Só"
"Águas de Março"
"Água de Beber"
"Garota de Ipanema"
"Só Tinha de Ser Com Você"
"Caminhos Cruzados"
"Inútil Paisagem"
"Chega de Saudade"
"Medo de Amar"
"Velho Riacho"
"Esperança Perdida"
"Eu Sei que Vou Te Amar"
"Dias Azuis"
"Fé Cega, Faca Amolada"
"Cravo e Canela"
"Samba do Avião"
Bis
"Baile da Vida"
"Chega de Saudade"

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