Mercado de ingressos levanta polêmica nos EUA

Enquanto a economia se contrai, a frustração dos consumidores começa a reverberar pela indústria

New York Times |

Quer ver o U2 tocar no estádio da sua cidade no outono? Quanto você está disposto a pagar? O negócio de shows está estourando, com as principais turnês faturando mais a cada ano. Mas enquanto a economia se contrai, a frustração dos consumidores está começando a reverberar pela indústria. Os fãs reclamam que o outrora simples processo de comprar ingressos foi transformado em uma tarefa digital complexa e cara.

O show do U2 no dia 24 de setembro no Giants Stadium em East Rutherford, New Jersey, teve um esgotamento instantâneo no Ticketmaster na segunda de manhã, de acordo com o organizador, Live Nation. Tão rápido quanto apareceram as milhares de listas que inundaram sites como TicketsNow.com, subsidiária do Ticketmaster em que fãs e corretores trocam ingressos, frequentemente a preços bem mais elevados que o valor real. Um vendedor estava pedindo 10,000 dólares por um assento de 253 dólares perto do palco.

Os fãs do Jonas Brothers enfrentaram uma situação similar quando os cinco shows da banda na área de Nova Iorque tiveram as entradas esgotadas no fim de semana.

Elizabeth Bohl, gerente da Dobbs Ferry em N.Y., disse que não conseguiu encontrar entradas a preços acessíveis nem bancar a sua filha Emily, 11, com as taxas dos cambistas. Não vou gastar um mês de supermercado para conseguir duas entradas para ver o Jonas Brothers, afirmou Bohl.

Dois anos depois da revogação da lei que tinha décadas de existência no estado de Nova York contra os cambistas, o mercado de ingressos se tornou um jogo brutalmente competitivo no qual as grandes corporações batalham com preços de revenda com o fã ao lado, com os cambistas tendo lobistas em Washington e milhares de entradas desaparecendo em uma fração de segundos.

O público sente que ele não está recendo uma oportunidade justa, e em alguns casos isso pode ser verdade, disse Gary Bongiovanni, editor da Pollstar, revista da indústria de shows.

Uma vez comprados por telefone ou em guichês, os ingressos para os shows agora são comprados principalmente na rede, colocando consumidores comuns contra uma quadrilha de cambistas profissionais que usa tecnologia cada vez mais sofisticada para negociar uma quantidade crescente de entradas em um instante. As pré-vendas acabam com os estoques ao oferecer ingressos antecipados para membros de fã clubes. Para assistir aos melhores shows, os fãs devem estar atentos à programação de pré-venda e códigos de autorização (que às vezes são até leiloados no eBay) e orientar os amigos e familiares em estratégias com vários computadores nos shows que têm o risco de esgotamento veloz.

Depois que corretores de ingressos fizeram lobby para descriminalizar a revenda na era Craiglist, muitos estados além de Nova York levantaram restrições aos cambistas, como o eBay, que possui o StubHub. As leis contra os cambistas em Nova Iorque foram abrandadas em 2005 e estão suspensas desde 2007, deixando que os ingressos para os maiores shows sejam revendidos a qualquer preço. Connecticut e Minnesota também revisaram as leis em 2007 para permitir a revenda, e em junho, a legislatura do estado de Nova Iorque vai ter que formalizar a apelação ou as antigas restrições voltarão. O lobby em Albany já começou.

Isso é um grande roubo para os consumidores, disse Russ Haven, conselheiro legislativo do grupo de Pesquisa de Interesse Público de Nova Iorque. Não há benefício para os consumidores com os cambistas sem limites.

Gary Adler, conselheiro geral da Associação Nacional de Corretores de Ingresso, um grupo de troca que representa os revendedores de entradas barulhentos, rebateu e disse que seus membros operavam com um código de ética publicado e cobrava apenas o que o mercado aguentaria. É oferta e procura, afirmou Adler, acrescentando que por muitos shows menos disputados os corretores tiveram que liberar os ingressos por um preço menor do que o original.

Na metade dos anos 1990, a indústria de shows era essencialmente um trabalho pequeno de promoters regionais, mas a consolidação permitiu que algumas empresas grandes dominassem. E com as vendas de músicas gravadas fenecendo, os artistas se voltaram às turnês para ganhar dinheiro. Isso, além da frustração dos músicos com a perda das vendas em mercado secundário, levou à disparada dos preços de ingressos, dizem promoters e executivos da indústria. A média de preço oficial para um dos 100 maiores shows era de 67 dólares no ano passado, mais do que o dobro de uma década atrás, de acordo com a Pollstar. E o exagerado mercado secundário turvou crenças de longa data na indústria dos shows sobre o que constitui comércio justo.

É algo livre para todos, disse Arthur Fogel, chefe de shows globais da Live Nation e promoter há tempos das turnês do U2. Quando se é um artista que cobra 200 dólares e se vê que os ingressos estão sendo vendidos por 400 dólares, e 200 dólares estão evaporando em uma economia que você não tem nenhuma parte, acho que isso não é fundamentalmente justo. Mas é a realidade em que vivemos, não é diferente das pessoas que baixam músicas ilegalmente.

Alguns músicos negociam os seus próprios ingressos, apesar de poucos admitirem publicamente por medo de aparentar privar os fãs. Existem artistas que retêm os ingressos de vendas e os entregam para o mercado secundário, disse ele. Eles são vendidos diretamente aos corretores porque os artistas podem ganhar mais dinheiro assim.

Um representante da Live Nation disse que o U2 nunca desviou entradas a revendedores dessa forma. Em um sinal à recessão, o U2 colocou o ingresso mais barato para a turnê atual a 33 dólares. Muitos desses assentos estão sendo revendidos agora por centenas, mas os fãs terão outra chance para conseguir lugares em Chicago, Nova Iorque e Boston, quando apresentações adicionais estarão à venda na segunda.

Problemas de ingresso se focaram em exame detalhado na fusão proposta entre a Ticketmaster e a Live Nation, agora sob análise do Departamento de Justiça. Em fevereiro, os fãs de Bruce Springsteen foram redirecionados da Ticketmaster ao TicketsNow apesar de lugares regularmente taxados ainda estarem disponíveis. Springsteen escreveu uma carta aberta contundente e a Ticketmaster se desculpou, citando uma falha de computador. Mas três semanas depois a advogada Anne Milgram, de New Jersey, anunciou um acordo com a companhia direcionando-se a mais de 2,000 queixas de consumidores.

Quando um erro parecido no outono passado afetou os fãs do Phish que tentavam comprar ingressos para os shows de reunião da banda em Hampton, muitos encararam a Internet com sarcasmo. Relembrando, Jack Lobowitz, advogado ambiental em Glens Falls, Nova Iorque, que nos anos 1990 ajudou a escrever um livro sobre os set lists do Phish, filosofou. O ingresso de um show deveria ser para o aprimoramento da experiência da vida de arte, disse em uma entrevista por telefone. Não apenas mais uma mercadoria, outra carga ou hipoteca, algo que as pessoas dobram para obter lucros maiores.

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