"Mentiras" sobre OSB não resistirão ao tempo, diz maestro

Em entrevista à BBC, Roberto Minczuk fala sobre a crise na Orquestra Sinfônica Brasileira

Júlia Dias Carneiro, da BBC Brasil |

O diretor artístico da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), Roberto Minczuk, diz estar chocado com “a quantidade de inverdades veiculadas” sobre a crise na orquestra, que culminou na demissão de 36 instrumentistas no fim de abril.

"Acredito que as mentiras não resistirão ao tempo e ao trabalho", disse Minczuk à BBC Brasil por e-mail. Ele está em Londres, onde deu início nesta segunda-feira a uma série de audições para preencher 33 vagas na orquestra.

As demissões ocorreram após o anúncio de que os músicos da OSB, alguns com mais de 40 anos de casa, passariam por avaliações individuais. Os demitidos, que se negaram a participar das avaliações, acusam o maestro de falta de diálogo e truculência.

A notícia circulou pela internet e mobilizou sindicatos em todo o mundo, que fizeram campanha para que músicos não participassem das audições para não tomar as vagas de colegas demitidos "injustamente".

Leia a entrevista com Roberto Minczuk:

BBC Brasil: Quais são as expectativas em relação ao processo seletivo?
Roberto Minczuk:
Temos boas perspectivas para estas audições. Ao todo, são 251 inscritos em Londres, Nova York e Rio de Janeiro, um número que surpreendeu a própria Fundação OSB (Fosb, que mantém e administra a orquestra). Além de muitos brasileiros, candidatos de várias partes do mundo se inscreveram, aproveitando a facilidade de acesso a estas cidades.

BBC Brasil: O senhor teme que bons candidatos deixem de participar por causa da mobilização internacional contrária?
Roberto Minczuk:
Como disse, o número de músicos inscritos é excelente e não sofreu abalo pela tentativa de boicote. Não temos a expectativa de preencher todas as posições, pois estamos buscando um perfil muito específico de músico. Há mais de 15 anos, realizo pelo menos duas audições por ano, no Brasil e no exterior, com diversas orquestras. Por esta experiência, sei que teremos um bom caminho a trilhar para selecionar os profissionais certos e elevar a qualidade da OSB. É importante ressaltar que é absolutamente normal que posições fiquem em aberto quando não se encontra o músico certo. Quando reestruturamos a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), a partir de 1997, foram necessários alguns anos para completar o quadro de músicos. Lá, recomeçamos com 67 músicos. Ainda hoje, a Osesp realiza audições anuais no Brasil e no exterior.

BBC Brasil: Os músicos da Orquestra Filarmônica Real de Liverpool, que o senhor regeu nos últimos dias, fizeram um apelo para que o senhor retomasse o diálogo com os músicos no Rio e chegasse a um consenso. Como o senhor recebeu esse pedido? Os apelos internacionais mudam as coisas?
Roberto Minczuk:
Os apelos internacionais são resultado de ações mal intencionadas de uma parte dos músicos demitidos. Algumas destas pessoas têm entrado em contato com instituições, orquestras e artistas de renome com uma versão absolutamente distorcida do processo. Os concertos com a Filarmônica Real de Liverpool foram fantásticos. Eles tocaram Villa-Lobos com muita paixão e garra. A crítica foi muito positiva. Graças a Deus correu tudo bem, e a música falou mais alto.

BBC Brasil: Nas audições em Londres e Nova York, há algum limite no número de estrangeiros a ser contratado para que não representem uma grande proporção na orquestra? Ou isso não é uma questão?
Roberto Minczuk:
Sem dúvida daremos oportunidade aos talentos brasileiros. Sabemos de músicos extraordinários que hoje atuam no exterior e gostariam de retornar ao Brasil. Só não o fizeram até o momento por não encontrarem condições adequadas. Acreditamos que a reestruturação da OSB pode ser a chance que tanto esperam. As grandes orquestras do mundo são formadas por músicos de vários países. A OSB, na sua origem, foi formada por imigrantes europeus.

BBC Brasil: As novas contratações representam quase a metade dos músicos da orquestra. Algumas pessoas consideram que, após uma mudança tão profunda, a OSB passará a ser outra orquestra. O que será feito para recuperar a identidade da orquestra e reconstruir a sua imagem?
Roberto Minczuk:
A partir de agora, com melhores salários e condições que a orquestra nunca teve antes, os músicos poderão se dedicar muito mais à OSB. Desenvolveremos a identidade da orquestra muito rapidamente, pois não mais teremos os problemas de afinação e limitação técnica que tínhamos no passado. Além disso, estamos focando no repertório clássico, ideal para a formação do conjunto, a disciplina musical, o senso de estilo, a leveza e a sonoridade. Outro ponto importante é que, com a maior dedicação que o projeto prevê, teremos a possibilidade de realizar ensaios de naipes, o que sempre foi uma demanda dos nossos músicos. Sobre reconstruir a imagem da Fundação, devo dizer que estou chocado com a quantidade de inverdades que são veiculadas nos meios online e impressos. A internet tem este lado perverso, especialmente por meio do Facebook, de permitir tudo. Acredito que as mentiras não resistirão ao tempo e ao trabalho. Muito em breve, as pessoas, especialmente do meio musical, mais atingidas pelas distorções disseminadas pela rede, perceberão que muita coisa foi corrompida e que a Fundação sempre se comportou de forma séria e íntegra.

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