Maria Bethânia: “Fome de cultura cresce no mesmo volume da estupidez”

"Oásis de Bethânia", 50º CD da cantora, chega às lojas a partir de 30 de março

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Tomas Rangel / Divulgação
Maria Bethania
Quinze rosas absolutamente vermelhas adornam um vaso sobre a mesa. Em instantes entra Maria Bethânia para um bate-papo com jornalistas, na sede da gravadora. É o lançamento oficial de “Oásis de Bethânia” (Biscoito Fino), que já estava em pré-vendas no iTunes Brasil. Em apenas uma semana o 50º CD da cantora conquistou o quinto lugar entre os mais vendidos, ao lado de "21" de Adele, "The Wall" de Pink Floyd e "Nothing but the Beat" de David Guetta.

Mas não se engane quem pensa que Bethania aderiu de vez ao ciberespaço. “Não sei nada disso, estou por fora de todos os nomes. Sei que vocês estarem aqui para me ouvir é coisa do século 18, coisa antiquíssima. Eu me sinto assim. Quando me falaram que era legal lançar o disco na internet primeiro, achei maravilhoso. Mas disse que não era para contar comigo. O que sei é sentar e conversar com as pessoas”, afirma a cantora.

Tomas Rangel / Divulgação
Bethânia apresenta a versão em LP do novo trabalho
Maria Bethânia terá um aplicativo, disponível a partir desta quarta (28), nos gadgets da Apple (Iphone, Ipod e Ipad), com fotos, discografia e informações sobre o novo disco. E ainda ganhará a “Rádio Maria Bethânia”, ferramenta com todas as suas músicas na gravadora e links para o iTunes e as redes sociais. “Se é útil para o trabalho, para a música, é interessante. Confesso total ignorância”, continua ela.

Poesia em debate

No começo do ano passado, Bethânia se viu no centro de uma discussão acalorada nos meios culturais. O Ministério da Cultura (MinC) a liberou para captar R$ 1,3 milhão e criar um blog de poesia. A ideia era que o site trouxesse diariamente um vídeo da cantora interpretando obras sob direção de Andrucha Waddington. Com a polêmica, ela deixou a ideia do blog de lado. “Não abortei o blog porque nem engravidei”, brinca.

“O projeto era do Hermano Vianna e do Andrucha. Eles me convidaram e aceitei na hora ser a intérprete deles. Mas aí teve o desagravo soturno. Hermano então cancelou o projeto. Era algo útil, bonito. A internet tem essa agilidade que é imprescindível. A poesia tem que chegar a qualquer lugar com esta rapidez. O meu nome ficou mais evidente, porque causou frisson. Sou muito séria, vivo a vida sossegada. Tem uma hora que isso incomoda. Aí aproveitaram para me bater. Mas sou como Chico (Buarque): quebro não, sou macia”, explica ela citando verso da letra "Querido Diário".

Mas os projetos envolvendo as leituras de poesia continuam a toda. Para ela, o Brasil vive uma crescente fome de cultura. “Percebo que a receptividade da poesia só aumenta, de forma alucinante. A Bienal do Livro é uma loucura. O povo tem fome de cultura. É uma fome que cresce no mesmo volume da estupidez, mas a estupidez faz mais barulho. O som da poesia é o de uma pétala caindo no abismo”.

Valmir Moratelli
Bethânia: 50 discos

Shows no segundo semestre

Primeira cantora brasileira a atingir a marca de um milhão de discos vendidos, com “Álibi” (1978), Bethânia envereda agora para outros rumos. O novo projeto tem formato diferente do que ela vinha apresentando. Nas 10 faixas do CD, sendo cinco delas inéditas, Bethânia convidou um artista para fazer arranjo original. Djavan assina “Vive”, na qual toca violão; Lenine está em “Velho Francisco”, de Chico Buarque.

A ausência do seu irmão Caetano Veloso é sentida. Ela trata de explicar o motivo: “Na primeira lista que fiz, ele estava incluído com uma canção estranhíssima, que fez em 1967 para mim, a partir de um poema de Sade Miranda. Mas depois percebi que a música estava sobrando no repertório. Mas vou levar para o show”, promete. Shows, aliás, só no segundo semestre.

A foto do CD, feita por Gringo Cardia, mostra o sertão de Alagoas, numa paisagem árida. Sobre a temática agreste e silenciosa que a foto de apresentação propõe, Bethania diz que é um lugar de fuga para seu imaginário de criação. “O sertão é onde não tem nada. Não tem água, falta tudo. É o limite que Deus coloca ao ser humano. Para mim, é como se fosse uma fonte, nascente pura. Tenho sempre que lembrar que existe esse lugar no meu país. Me bota do tamanho que eu sou. É a vida seca. É o filho de Deus, criado sem apoio, sem ajuda, sem nada. Retrata a coisa árida do mundo, e ao mesmo tempo o amor que o sertanejo tem por sua terra”, filosofa a cantora.

Divulgação
Capa do novo CD
"Oásis de Bethânia" (Biscoito Fino)
1 – Lágrima (Candido das Neves)
2 – O Velho Francisco (Chico Buarque)
3 - Vive (Djavan) - Inédita
4 - Casablanca (Roque Ferreira) Inédita
5 - Calmaria (Jota Velloso) - Inédita
*Citação: Não Sei Quantas Almas Tenho (Bernardo Soares) Edição Fauzi Arap
6 - Fado (Roque Ferreira) - Inédita
7 - Barulho (Roque Ferreira)
8 – Calúnia (Marino Pinto / Paulo Soledane)
* Citação: Lágrima (Sebastião Nunes / Garcia Jr. / Jackson do Pandeiro)
9 - Carta de amor (música e letra: Paulo Cesar Pinheiro) - Inédita
* Texto: Maria Bethânia
10 – Salmo (Rafael Rabelo e Paulo Cesar)


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