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Marcelo Camelo BR Sou

Diego Fernandes |

Acordo Ortográfico

Por Diego Fernandes

Não deve ser fácil. Apostas feitas, dados rolando sobre o feltro, e eis que chega Sou (ou "Nós", dependendo de como você olhar para capa ao lado), Marcelo Camelo em seu primeiro e aguardadíssimo trabalho solo desde o anúncio no hiato de atividades do Los Hermanos. "Solo", no caso, sendo um termo aberto a interpretações: Sou é rico em colaborações e participações, resultando num belo vislumbre de novas possibilidades dentro da sonoridade introspectiva associada ao cantor e compositor.

O grupo instrumental paulista Hurtmold participa de quatro faixas, entre elas "Téo e a gaivota" (que aparece aqui em versão deveras diferente da original, revelada inicialmente como um exercício instrumental com o barulho do mar se misturando aos acordes). A parte instrumental de "Téo" soa um bocado como Tortoise das antigas (banda instrumental americana à qual o Hurtmold já foi exaustivamente comparado), com guitarras disformes, vibrafones e efeitos sonoros vintage - e, se o vocal de Camelo não adentrasse o áudio na casa do minuto e meio, dificilmente seria vinculada por um ouvinte desatento à carreira do hermano. "Todo amor encontra sempre a solidão", avisa, no pessimismo romântico que já é uma instituição da MPB.

No aspecto lírico, Marcelo prossegue na diluição dos arroubos passionais que pontuavam suas letras em nome da incorporação de alguns maneirismos MPBísticos bastante notáveis, por vezes breves como haik-kais ("Menina bonita bordada de cor, eu vi primeiro, eu vi primeiro"). Camelo solo não soa hermético como sua antiga banda o fez em 4 , mas por vezes suas escolhas parecem insondáveis: talvez num exercício de textura, as melancólicas "Saudade" e "Passeando" curiosamente (desnecessariamente) figuram em duas versões cada (uma instrumental, ao piano, e outra semi-, com escassa performance vocal), e são por certo as faixas que se acotovelam entre si pelo título de mais melancólica do álbum.

Talvez a maior semelhança de Sou com os três últimos discos do Los Hermanos seja o fato de privilegiar audições repetidas. O que soa impenetrável numa primeira ouvida - tal como 4 e mesmo Ventura - é mais o tipo de sentimento expresso nas canções do que a moldura sonora em si. Dentre as músicas que realmente arrebatam numa primeira audição, vale destacar o quase-afoxé expansivo de "Menina Bordada" e "Vida Doce" (com uma harmonia vocal que remete a Jorge Ben). "Janta", cantada em português e inglês em parceria com o prodígio Mallu Magalhães, também captura o ouvido de imediato, com clima folk tristonho e incandescente.

A mensagem de Sou , desde sua capa, é tão óbvia que esbarra no didático: o cantor está só, mas em boa companhia. Mesmo num formato menos coeso e sem o contraponto de Rodrigo Amarante, Camelo deu um belo pontapé inicial em sua carreira, com um disco que se sai muito bem em diminuir as expectativas quase religiosas em torno de sua barbada figura.

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