Madonna, a ¿bête de scène¿, supera críticas e mostra que reina na França

Daniella Franco, de Paris |

Acordo Ortográfico

Madonna comprovou, no sábado, porque é chamada de bête de scène (bicho de palco), na França: aos 50 anos de idade, e três décadas de carreira, a veterana foi capaz de eletrizar os 70 mil espectadores que estiveram no Stade de France, em Paris, no primeiro dos dois shows em que a cantora apresentou a turnê Sticky & Sweet na capital francesa.

O contexto não era dos melhores: no sábado, a França amanheceu sob críticas contra Madonna nos maiores jornais do país, qualificando-a como desbotada, vulgar, limitada, prestes a perder a majestade, na idade de ser avó e até como uma expert da falsificação, acusando-a de fazer playback em cena. Coincidência ou não, o livro Life With My Sister Madonna (A vida com minha irmã Madonna), de autoria de Christopher Ciccone, irmão da cantora, delata o que chama de verdadeiros aspectos da personalidade da diva pop: despotismo, egoísmo, avareza e ingratidão.

Se Madonna foi destruída nos bastidores, no palco incorporou fênix e confirmou por que ela pode sempre renascer das cinzas: para os fãs, ela só não é única, como imortal. E quando aparece no centro da cena, sentada em um trono, segurando um bastão de realeza, vestida à la dominatrix, ela comanda o espetáculo por duas horas, e, absoluta, denota seu poder de majestade. Podem amá-la ou não, podem criticá-la à vontade, que, independente disso, Madonna segue como o grande nome da música pop, capaz de sempre evoluir e surpreender a cada aparição, analisa Damien Davy, fã da cantora desde os anos 1980 e que, a partir de 2001, começou a acompanhar suas turnês; ele, inclusive, já havia garantido seu ingresso para o segundo show em Paris, no domingo.

O show, passo a passo

Sticky & Sweet é aberto com um remix e a animação do hit 4 Minutes e segue com Candy Shop e Beat Goes On, duas faixas do novo CD, Hard Candy , lançado em abril. Em Human Nature, a cantora relembra a parceria com Britney Spears, que aparece em um clipe enquanto Madonna assume o palco sozinha com sua guitarra. Na sequência, apresenta Vogue em uma coreografia sexy e dançarinos mascarados. Into the Groove leva o público ao delírio com sua resistente performance pulando corda. Se está mesmo na idade de ser avó, como dizem por aqui, suas netas vão precisar de muito fôlego para acompanhá-la.

Na continuação do espetáculo, a diva pop vai evoluindo, mesclando hits novos e antigos, e crescendo a cada música. Uma versão rock de Borderline levanta até os comportados espectadores nas arquibancadas. Em seguida, entoando a nova She's Not Like Me, quatro dançarinas imitam Madonna com figurinos de diferentes personagens encarnados pela cantora nos videoclipes de Like a Virgin, Material Girl, Express Yourself, e Open Your Heart. Ela não sou eu, ela não tem meu nome, canta, enquanto despe suas sósias e finaliza com um beijo em uma delas ¿ ato ícone de seus shows.

Outro dos grandes destaques da noite foi Music, de uma fase já atual da cantora, momento em que foi extremamente aplaudida. La Isla Bonita ganhou uma original versão dancing/latina acompanhada de violinos e ilustrando uma faceta gipsy de Madonna, com danças, ritmos, instrumentos e figurinos ciganos.

A segunda metade da apresentação traz Get Stupid, com o polêmico e comentado vídeo que, em um primeiro bloco, apresenta uma sequência de imagens de ditadores, como o africano Mugabe, o iraniano Khomeini, o norte-coreano Kim Jong-Il e também o candidato republicano à presidência norte-americana, John McCain. Já no segundo bloco, figuram Madre Teresa de Calcutá, Nelson Mandela, John Lennon, Michael Moore, e, por fim, o canditato democrata à presidência dos EUA, Barack Obama, momento em que a cantora finaliza, com um sonoro You decide (você decide). Madonna pode ser tudo, até política.

No bloco final do show, ela canta as tão esperadas 4 Minutes (apoiada por imagens do ídolo pop Justin Timberlake e figurino de gladiadora), Like a Prayer, Ray of Light e uma versão heavy metal de Hung Up. Na última música, Give It to Me, como uma verdadeira monarca, ela avisa: No one is gonna stop me! (ninguém vai me parar). Realeza de atitude nobre, ela agradece aos súditos antes de sair da cena onde, em um painel, brilha Game Over. Porque com Madonna sempre existe um novo capítulo, um novo jogo, uma nova partida, muitas histórias e a certeza de que seu reinado ainda durará muitos anos.

Público: dos oito aos 80

Uma prova de que Madonna é unanimidade está na composição de seu público. Se boa parte dos fãs da cantora tem origem no começo dos anos 1980, um grande número de adolescentes também prestigia a diva. Assim como os espectadores GLS marcaram presença, famílias inteiras, com pai, mãe e filhos, também figuraram no Stade de France, ao lado de casais de namorados, grandes grupos de amigos e gente de diversas partes da Europa, apesar de ela passar por vários países europeus. Não é anormal que os súditos acompanhem a majestade por onde quer que ela vá.

Enquanto isso, no meio da multidão, bandeiras verde-amarelas vão se revelando: os brasileiros também fazem parte do espetáculo. Na arquibancada, um grupo animadíssimo dança o tempo inteiro, se diferenciando do nem tão efusivo público francês. Érika Martins, Guilherme Marconi e Gissa Bicalho são de Belo Horizonte e estavam em Paris a trabalho. Exaltados, revelam que assistir a Madonna em Paris tem muito mais glamour. Sobre a cantora, Guilherme é categórico: Madonna não está restrita ao mundo da música, porque ela é tendência, ela dita moda, ela influencia a sociedade de uma maneira geral, como uma verdadeira rainha. Já Érika lamenta a dificuldade de comprar os ingressos no Brasil ¿ todos acreditam que não vão conseguir um lugar para ver Madonna no Rio ou São Paulo.

Vestida com a camiseta da Madonna e acompanhada pelo marido e pelas filhas de 4 e 6 anos, Valérie Angel conta que também foi ao show de Nice, no dia 26 de agosto, primeira aparição da cantora na França com a nova turnê. A francesa acredita que nenhuma crítica pode ser mais forte que seu ídolo: Nada tira o brilho de Madonna, explica.

O quê? Estão dizendo aqui na França que ela está velha?, inconforma-se Magalie Regnier. Duvido que qualquer um chegue à idade dela com a mesma disposição, com a mesma energia. É puro complô contra ela, mas os fãs sabem o seu verdadeiro valor, defende.

Claire Paoleti relata que veio da Córsega, ilha do sul da França, especialmente para ver o show. Extasiada, fica em dúvida na preferência da melhor música e finaliza por dizer que a escolha é uma tarefa muito árdua. Basta dizer que ela é 'magnifique?, pergunta.

Mas o deslumbre não é unânime. Na saída do estádio, um grupo que não quer se identificar está indignado. Não gostamos, faltou muito para ser um bom show, afirmam os fãs, para em seguida repetir as críticas dos jornais: Ela envelheceu e já não tem a mesma voz. Ainda na arquibancada, Sabrina Saduni defende que o show de 2006, da Confessions Tour, foi superior. Mas eu já vim avisada de como seria o Sticky & Sweet, li bastante sobre este show na internet e sabia que não seria dos melhores, lamenta. Ela mudou um pouco seu estilo e pode ser que essa transformação não agrade a todos tão rapidamente. Mas o show foi ótimo. Para mim, ela está até mais elegante, explica Jean Christophe.

Ao término do show, enquanto os franceses esvaziavam o estádio, o grupo brasileiro ainda permanecia na arquibancada, dançando. Maravilhados, não encontravam palavras para descrever sua emoção. Olhos lacrimejantes, Gissa Bicalho explica que já não tem mais dúvidas: Depois desse espetáculo, eu preciso ir ao show no Brasil. Vou conseguir essas entradas de qualquer jeito.  Ela garante que o público brasileiro vai dar uma animação diferente ao espetáculo. Em tempo: no sábado, a produtora Time for Fun anunciou um novo lote de ingressos para os shows de Madonna no Rio de Janeiro e São Paulo, nos dias 15 e 21 de dezembro ¿ privilégio que não tiveram os fãs franceses.

Set list

Introdução: vídeo remix de 4 Minutes e Die Another Day
"Candy Shop"
"Beat Goes On"
"Human Nature"
"Vogue" (com remix de "4 Minutes" e "Give It To Me")
"Die Another Day" (remix com coreografia sem Madonna) 
"Into the Groove"
"Heartbeat"
"Borderline"
"She's Not Me"
"Music"
"Rain" (remix com vídeo)
"Devil Wouldn't Recognize You"
"Spanish Lesson"
"Miles Away"
"La Isla Bonita" (com trechos de "Lela Pala Tute")
"Doli Doli"
"You Must Love Me"
"Get Stupid" (com trechos de "Beat Goes On", "Give It 2 Me", "4 Minutes" e "Voices")
"4 Minutes"
"Like a Prayer" (com trechos de "Don't You Want Me" e "Feels Like Home")
"Ray of Light"
Express Yourself (a capella)
"Hung Up"
"Give It 2 Me"

Compre músicas de Madonna .

Leia mais sobre Madonna .

    Leia tudo sobre: madonna

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG