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I Chinese Democracy /I : como Axl Rose passou todo esse tempo

New York Times |

Acordo Ortográfico

Por Jon Pareles

Tudo o que tenho é tempo precioso, canta Axl Rose na faixa principal de Chinese Democracy - o novo álbum do Guns NRoses - e ele deve ter plena consciência do significado desta frase. Aos 46 anos, Axl Rose - o único integrante da formação original da banda - precisou de 17 anos, mais de US$13 milhões e um batalhão de músicos, produtores e conselheiros para lançar Chinese Democracy , o primeiro álbum da banda desde 1991.

Chinese Democracy é o Titanic dos álbuns de rock - não o filme, mas o navio; apesar de ser também uma produção monumental de estúdio, assim como o filme. Grande demais, repleto de excessos e obsessões, feito com tecnologia de ponta e, certamente, o final de uma era. É também um navio naufragado, emborcado por pretensões e por uma produção de proporções monumentais. Em suas 14 canções há nuances de ferocidade e desespero, além de explosões de virtuose musical. Mas, os músicos foram esmagados por inúmeras camadas de truques de estúdio e um toque de auto-piedade. O álbum termina com uma sequência de cinco baladas bombásticas. 

O novo álbum soa como o último e sonoro suspiro do reinado do pop star: o tipo de músico cujo sucesso explosivo no início da carreira já conseguiu garantir um público fiel, direitos autorais abundantes, ambições crescentes e prazos perigosamente estendidos. O mercado fonográfico do século 21, bem mais magro e frágil que no passado, está longe de conseguir manter esse tipo de perfeccionistas excêntricos (Axl conseguiu ser mais rápido que Kevin Shields do My Bloody Valentine que ressurgiu em turnê este ano, mas não lançou nenhum álbum desde Loveless , a principal obra da banda, lançada em 1991). O novo paradigma do rock ¿ um retorno à década de 50 e início de 60 - é gravar rápido, com baixos custos e mais freqüência, saindo em turnê em seguida: Antes que a próxima sensação do YouTube roube a atenção de seus fãs em potencial.

Chisese Democracy é um acontecimento tão tradicional que, a essa altura, nenhum álbum poderia corresponder às expectativas e fascinação reprimidas facilmente. Ao longo das duas últimas décadas, o álbum de estréia do Guns N Roses, Appetite for Destruction , já vendeu 18 milhões de cópias somente nos Estados Unidos. A formação original da banda, especialmente o time de cordas liderado por Slash e ritmado por Izzy Stradlin, colaborou para cunhar uma combinação incoerente de glam, punk e metal por trás da voz orgulhosamente abrasiva de Axl, que conseguia saltar de um rugido de barítono a um berro agudo. Falando sobre sexo, drogas, bebidas e o estrelato em suas canções, Axl foi uma típica história de sucesso dos anos 80, surgindo do nada e chegando à MTV. Ele mesmo se descreve como uma criança violentada, que veio do coração da América e conseguiu sair de Indiana e reinventar-se como um genuíno astro de rock de Hollywood: carismático e volátil, nunca fingindo ser controlável.

Entre turnês, vícios dos integrantes da banda e ligações com modelos, o Guns N Roses persistiu, fazendo um EP e dois álbuns que renderam milhões de dólares em vendas: Use Your Illusion 1 e 2 , lançados simultaneamente em 1991. Os álbuns foram seguidos de uma coleção incoerente de regravações do punk rock, The Spaghetti Incident? , lançado antes da banda se desintegrar em 1993, deixando Axl como proprietário da marca Guns N Roses. É claro que uma nova banda seria completamente diferente, mas não restavam dúvidas de que Axl tivesse algo mais a dizer a respeito.

Ele vem anunciando a iminente conclusão de Chinese Democracy desde 1999 e cantando várias canções do álbum em turnês desde 2001. Gravações não autorizadas realizadas diretamente de shows e versões inacabadas de estúdio em circulação na internet tiraram um pouco da surpresa do álbum concluído. Mesmo assim, ano após ano, Axl trabalhou incessantemente as canções. Os créditos do CD trazem uma lista de 14 estúdios.

Há anos Axl vem sendo taxado como o Howard Hughes do rock, já que seu empresário já vinha reclamando desde 2001 ¿ o que na verdade não foi uma coisa ruim, pois desavenças e obsessões resultaram em grandes canções. Porém, apesar de ser um notável produto de excessos, o novo álbum é uma decepção. A versão criada por Axl para o Guns N Roses, formada por músicos profissionais independentes que ele pode demitir quando bem entender, deixa seus piores impulsos completamente fora de controle.

O Guns N Roses não deixa de ser um trabalho em grupo: as canções de Chinese Democracy são creditadas a Axl juntamente com muitos músicos que já passaram pela banca desde meados dos anos 90. Os guitarristas Buckethead e Robin Finck, o baixista Tommy Stinson e os bateristas Josh Freese e Brain impulsionaram Axl para o rock, enquanto outros o levaram a fazer baladas. Se compararmos a nova versão da banda com a antiga, poderíamos dizer que o estilo de compor de Axl nos últimos tempos está mais próximo do exibicionismo de November Rain do que da propulsão de "Welcome to the Jungle", ou ainda pelo repique dos acordes de guitarra de "Sweet Child of Mine". A única canção de Chinese Democracy escrita por Axl sozinho, This I Love, é de longe a faixa mais melodramática do álbum: e ele ainda dá uma exagerada na atuação soltando um vocal trêmulo e pulsante em homenagem a Freddie Mercury.

Como os antigos CDs do Guns N Roses, Chinese Democracy se alterna entre arrogância e dor, lamentos e sarcasmo. O Axl de hoje se apresenta como alguém sitiado por todos os lados, um sujeito encurralado que não tem nada a perder. Ele é atormentado por demônios interiores e, no lado de fora, por antagonistas, amantes e usuários que não param de traí-lo e explorá-lo. Perdoem aqueles que violentam minha alma, ela canta em voz baixa e áspera em Madagascar, em meio ao som de trompas entoando um hino fúnebre (em seguida a canção dá lugar a uma colagem de diálogos cinematográficos e discursos de Martin Luther King Jr).

Toda a mão-de-obra de Axl e seus diversos lineups, tanto entusiasmados quanto chamativos demais, aparecem no novo álbum. Juntamente com seu co-produtor, Caram Costanzo, Axl simplesmente continua empilhando sons. Orquestra de cordas? Acordes de um piano de brinquedo? Vozes murmurando em línguas estrangeiras? Harpa? Corais? Eu Tenho Um Sonho? Tudo isso está presente no novo álbum, juntamente com uma incansável percussão e legiões de guitarras.

Chinese Democracy revela diversas camadas arqueológicas, incluindo itens que talvez não causem mais tanta fascinação depois do final dos anos noventa e início de 2000: o som do Metallica em Enter Sandman reproduzido na mal-humorada e pretensiosa Sorry; os efeitos de distorção do Nine Inch Nails em Shackler's Revenge; as guitarras contínuas do U2 e a batida marcial no início de Prostitute; uma combinação de piano e cordas de Elton John (com arranjos de Paul Buckmaster, seu parceiro de longa data) e os crescentes de guitarra do Smashing Pumpkins em Street of Dreams.

As introduções das canções estão entre os melhores momentos do álbum. Ostentando o que o tempo e o dinheiro podem alcançar, há chamarizes desnecessários, como um canto de coral à capela em Scraped, uma sirene combinada com a voz estridente de Axl em Chinese Democracy e o início filtrado em narrow-band de Better. Esta faixa acaba atropelando o que o Guns N Roses faz tão bem ¿ saltar rapidamente dos riffs do hard rock para o reggae rock metálico, chegando às melodias dos hinos entoados em estádios. A faixa If the World abre com acordes de guitarra acústica, sugerindo o som de um oud do Oriente Médio, mas transitando entre ritmos com efeito de pedal de wah-wah e cordas - lembrando uma trilha sonora de blaxploitation - enquanto Axl solta algo que parece um falseto soul.  

Isso é insano? Às vezes sim. E o Axl está ligando para isso? Parece que não. Eu sou louco!, grita ele sobre o som furioso de guitarra e percussão de Riad N' the Bedouins, e ao mesmo tempo posa de maníaco alegre em Shackler's Revenge. Em Scraped ele se alterna entre depressivo e maníaco, avisando Não venham tentar nos interromper agora em um refrão ao estilo Led Zeppelin. Catcher in the Rye ecoa os Beatles em sua melodia enquanto faz uma alusão a Mark David Chapman, que estava carregando o livro de mesmo nome quando assassinou John Lennon: Se eu pensasse que fosse louco/ Bem, talvez me divertisse mais, canta ele.

Mesmo quando ele supostamente é ele mesmo, Axl sempre é elaborado demais. Ele força sua voz com efeito overdub de todas as maneiras ¿ cantando estridentemente, aos soluços ou aos berros ¿ enquanto os guitarristas Finck, Buckethead e Ron (Bumblefoot) Thal fazem solos nervosos, sob a ordem de lamuriar mais alto e subir o tom mais rapidamente.

A loucura de Chinese Democracy não está na arrogância selvagem e barulhenta que o jovem Axl e seus parceiros arruaceiros dos anos 80 deram ao recém-formado Guns N Roses. É a atenção maníaca aos detalhes que se faz possível na era do Pro Tools: a infinidade de recursos para refinar cada instante de uma faixa, a possibilidade de refazer cada som e arranjo de um acompanhamento musical, testar cada solo de guitarra já tocado em uma canção ¿ ou ainda tudo isso de uma só vez ¿ e, em seguida, jogar um arranjo de cordas por precaução. Esse enfoque microscópico está obviamente presente ao longo de Chinese Democracy : cada nota parece ter sido ajustada, afinada, polida ¿ e, em seguida enfiada em uma canção que já está transbordando de virtuosidade. Em momentos nos quais a mistura realmente se torna insana, como no final de Catcher in the Rye, o nome de uma canção de Meat Loaf resume tudo: Everything Louder Than Everything Else, ou seja, tudo é muito mais alto do que qualquer outra coisa.

É fácil imaginar Axl determinado a exceder sua própria juventude atrevida e sua antiga banda, mas com bem menos perspectivas e centenas de novas faixas com o passar dos anos. Se o Guns N Roses tivesse lançado Chinese Democracy em 2000, isto ainda teria sido um acontecimento, mas talvez também fosse tratado como o álbum de transição na carreira da banda. Porém, ao segurá-lo e remendá-lo por tanto tempo, Axl pressionou a si mesmo para torná-lo memorável ¿ principalmente se, seguindo o mesmo ritmo, o próximo álbum da banda só sair em 2025. E os fãs estavam esperando que ele afrontasse o mundo novamente, não que ele viesse com mais uma edição digital. Em algum momento durante todos esses anos de trabalho, de maneira teatral, as confusões mentais tomaram o lugar do coração.

Enquanto Axl lamenta o amor acabado ou jura encarar a vida sozinho, sem comprometimentos, a música de Chinese Democracy vai aumentando o volume, terminado em um estrondo por todos os lados, de maneira tão frenética a ponto de quase destituí-lo de pausas para respirar. É difícil enxergá-lo como as canções o fazem: aquele anti-herói sitiado, sozinho contra o mundo, quando ele está dividindo seu bunker com um batalhão de pessoas contratadas.

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