Lobão: "Quando fiz Faust¿o, neguinho só quis me matar"

Na terceira parte da entrevista, cantor fala de televisão, do 'Acústico MTV' e de sua relação com o pai

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Divulgação
Lobão
Entrevista com Lobão: primeira parte
Entrevista com Lobão: segunda parte
Entrevista com Lobão: quarta parte

iG: Você meteu a boca em todo mundo, fez e aconteceu, e hoje tem uns caras no seu pé, chamando de "Cordeir¿o", falando que se vendeu para a MTV...
Lobão: Isso é um absurdo!

iG: Eles n¿o têm o direito, como você?
Lobão: Isso é um absurdo! Em palestras eu falava para os estudantes: "Eu posso sair da gravadora. Eu sou o Lob¿o, você n¿o é porra nenhuma. Você tem que assinar com uma gravadora. E eu estou independente e quero assinar com uma gravadora, porque eu sou um homem de mainstream". Como uma pessoa vai dizer que estou entrando em contradiç¿o? Estava puto com as gravadoras e estou até hoje, mas sou profissional. Lulu (Santos) chegou a fazer uma coisa, que um jornalista falou pra mim. Topou dar uma entrevista, mas tinha de ser na sala do presidente da Sony. O jornalista entrou na sala, Lulu estava na mesa do presidente: "Tá vendo que eu tô aqui, né? Onde tá o Lob¿o? Na banca de jornal, lugar dele. Vamos começar a entrevista". Veja bem, eu sou o cara que viabilizei tudo isso, inclusive me autoviabilizei. Eu estava fazendo a minha revista e botando um monte de artista novo ali, mas estava ficando difícil. Nossa melhor praça, que era o Rio Grande do Sul, fez uma lei proibindo encartar CD em revista. Lancei meu disco “Cançôes Dentro da Noite Escura” (2005), que foi um dos recordes daquela coisa, umas 12 mil cópias, e ele nasce morto. A tênue teia desmoronou. Agora, por que eu, que tenho meu patrimônio, dobrei a indústria e estou voltando nos meus termos (exalta-se), estou me contradizendo?

iG: Contradiç¿o ou n¿o, faz parte do jogo cobrarem você, que usou esse discurso.
Lobão: Mas eu usei o discurso de adaptá-los a mim, n¿o de destruí-los. Eu os adaptei. Eu venci. O que vou fazer, vou ficar de mal deles? Eu fico puto (exalta-se). "Ah, agora é o Lobinho". Porque têm medo de mim. Fico puto porque est¿o falando da minha honra. No Fórum Social Mundial, com aquele monte de "universotário" gritando "abaixo as gravadoras", eu parei: "Abaixo porra nenhuma!". As pessoas n¿o entenderam. Tudo o que eu fiz foi para que tivéssemos um show business funcionando, o rádio, a imprensa e as gravadoras. Eu atuei em tudo isso, e as pessoas n¿o sacam. É óbvio que querem tirar um sarro, tudo bem. Cordeir¿o? N¿o é verdade. Sempre falei mal do “Acústico MTV”? Falei mesmo, que n¿o me sujeitava a regravar um monte de tralha. O que eu fiz? Peguei 85% de repertório que estava proibido de tocar na rádio.

iG: Por isso foi recorde negativo de vendas?
Lobão: N¿o. Atribuo ao massacre da imprensa. Quando fiz Faust¿o, neguinho só quis me matar, mas se eu n¿o fizesse o Faust¿o, eu n¿o existia mais. Se você vai pra umbanda, você n¿o fala com Exu Caveira? Tem que fazer! Tem que ter fundamento! Est¿o me botando como se fosse um cara vacil¿o, n¿o aconteceu isso. Pela primeira vez em anos, me deram R$ 2 milh¿es para fazer um disco! O mais legal é que tiveram que tirar o Lulu para eu entrar. Fora que estavam lá me tratando como aquele inimigo cordial. Continuei falando tudo o que falava, em momento nenhum parei de fazer meu discurso. Vai me chamar de vendido? Um mínimo de respeito, depois de tudo o que eu fiz, um cara que peitou as gravadoras como eu fiz (exalta-se), que se expôs feito louco, pelo amor de Deus!

iG: Qual será a próxima reinvenção?
Lobão: Não sei, depende, as coisas vêm no vai-da-valsa. Entrei na MTV, meu público agora tem 13 anos de idade. Sou esperto, não sou mau caráter. Vou agenciar minha vida. Saí da MTV no final do ano, preciso gravar meu disco, acho que esse livro vai dar um filme.

iG: O livro está indo bem?
Lobão: Best-seller total. Vendeu toda a primeira edição de 20 mil exemplares. Já estão fabricando mais 20 mil. Vou reeditar em iPad. Vou narrar em audiobook e acrescentar alguns capítulos que ficaram meio assim… a própria história do Herbert, a história do meu pai. Logo no início, digo que acho que fui pivô da morte dos meus pais, mas quando vou falar do meu pai... Está tudo escrito, mas na edição ficou fora.

AE
Lobão em 1988
iG: Também se sente pivô do suicídio do seu pai?
Lobão: Me senti. Ele era mecânico do doutor Roberto Marinho, aí se aposentou e um amigo dele, milionário, com coleção de carros, meio que emprestou um sítio enorme. Meu pai foi para lá com meu meio-irmão, que hoje tem uns 20 anos, mas idade mental de 6. Começamos a visitar meu pai, estava muito querido, mas com a paciência truncada, cego de um olho, todo vaidoso e muito competitivo comigo. Vi que estava muito deprimido, mas ficava feliz com a gente lá. Ele estava namorando uma menina de programa de 18 anos, que ficava me bolinando debaixo da mesa (ri). Eu n¿o queria ficar naquela parada, uma situaç¿o horrível. Escrevi uma carta para ele: "Pai, assim n¿o dá, me desculpa, tchau". Isso foi em outubro de 2003, ele morreu no Dia do Índio (19 de abril de 2004). Meu irm¿o me telefona: "Papai tomou veneno de rato". Me senti entregando meu pai ao destino, porque sabia que n¿o tinha estrutura, estava numa situaç¿o muito ruim. Mas eu n¿o tinha como fazer, era uma situaç¿o muito difícil.

iG: Você é isolado dentro da música do seu país?
Lobão: Sou isolado, solitário. Nesse caso foi falta de sorte, minha turma era superlegal, Júlio, Cazuza, Marina.

iG: Se Júlio e Cazuza estivessem vivos, você estaria afastado deles?
Lobão: Pode ser. A gente brigava muito. Inclusive, na última vez em que falei com Cazuza, disse atrocidades. Aliás, vou contar uma história. Estava com Ritchie no Rio, soube que Ezequiel Neves (produtor musical e jornalista que ajudou a revelar o Barão Vermelho) estava muito doente. Fomos no hospital, ele foi o primeiro cara que escreveu sobre mim na imprensa. Estava muito combalido, com traqueostomia, sem poder falar, escrever, gesticular. N¿o sei o que me deu, ele fez "aaaaaaaah" e eu: "Porra, tu tá com vontade de tirar a tubulaç¿o? Eu agito isso pra você (risos)". Aí ele: "Aaaaaaaaaaaaaah", "Ezequiel, vou tirar, mas quando chegar lá no céu fala pro Cazuza que pedi desculpa. Pô, chamei ele de careca aidético, 'vai morrer, filho da puta!'".

iG: Pouquíssimas pessoas devem saber que você é filho do mecânico do Roberto Marinho.
Lobão: É verdade. É mais longo ainda, porque meu avô paterno era amigo do doutor Roberto. Ele cuidava do pai dele, o doutor Irineu. Fiquei muito arrependido, eu ficava sempre contra a Globo, mas eles sempre foram uns queridos. Meu pai amava aqueles filhos dele, eles fizeram uma escuderia de kart na minha casa. O Zezinho era muito criança, mas eram o Bet, o Paulinho e o Jo¿ozinho. Zezinho é uns dois anos mais velho que eu.

iG: Zezinho é o...
Lobão: O Zé Roberto Marinho. O Roberto Irineu eu chamava de Bet (ri). Tomava banho de piscina na casa deles no Alto da Boa Vista, a gente tinha vidas juntas. Eles tinham milh¿es de propriedades, mas viviam na nossa casa, adoravam meu pai. Meu pai era o guru dos caras, só tinha minimagnatas na escuderia: filho do dono da Mesbla, da refinaria de Manguinhos... Peço desculpas ao doutor Roberto, porque na realidade ele me ajudou, me tirou da cadeia, e depois eu faço aquele escândalo na televis¿o dele... Telefonou pro meu pai, era muito lacônico: "filhos s¿o filhos". E ele tinha uma gratid¿o enorme, porque Paulinho morreu jovem, em 1970, num acidente de carro, e meu pai foi o primeiro a se despencar para lá e vomitar - meu pai, quando fica triste, vomita. Quando me casei, em 1994, meu pai fez um almoço, chamou todos eles. O Bet falou: "Porra, cara, você fica aí contra a Globo, a gente queria tanto ter você com a gente".

iG: Casamento de véu e grinalda também n¿o combina muito com você.
Lobão: Mas eu estava me desconstruindo, foi lindo. A gente tava muito duro, a Regina queria. Todos os Marinho foram no meu casamento. Também tem uma cena tragicômica que n¿o contei no livro, no enterro do meu pai. A gente estava duro, muito duro, fomos comprar o caix¿o mais barato. Estamos no velório, veio o Jo¿ozinho, Jo¿o Roberto. Fecha o caix¿o, levanta, o caix¿o vai abrindo, pum, pula uma flor! Aí, pum!, pula um dedo do pai! Situaç¿o constrangedora (ri), o caix¿o n¿o estava funcionando. Imagina o Jo¿ozinho. Falei: "Isso vai demorar horas, tua visita já tá sacramentada, você já está dispensado".

iG: Seu pai chegou a ser rico?
Lobão: Meu avô era rico. Meu pai foi perdendo, perdendo, perdeu tudo. No inventário, eram coisas que você n¿o pode imaginar. E filhos e filhos e filhos, primogênitos que nunca ouvi falar. Novos, eram uns três. O último era de uma fã minha! Telefonou pra oficina, queria falar com o Lob¿o. Meu pai comeu a minha f¿, aí tem um filho da f¿. Pode uma coisa dessas?

Leia a segunda parte da entrevista com Lobão .
Leia a quarta parte da entrevista com Lobão.

    Leia tudo sobre: LobãomúsicaHerbert ViannaVímanaLulu Santos

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG