Leonard Cohen fala sobre fé, dinheiro e orações

Aos 74, cantor fala sobre volta aos palcos e compara vida na estrada ao monastério

New York Times |

No dia seguinte ao seu primeiro show nos Estados Unidos em 15 anos, Leonard Cohen sentou em uma suíte de um hotel em Manhattan se submetendo desconfiado a uma entrevista que incluiu uma pergunta sobre as músicas que teria no iTunes de seu laptop. Como resposta, ele tocou um hino em hebraico e em seguida cantou junto com uma das fábulas morais country de George Jones.

Eu tive escolhas desde o dia em que nasci / Havia vozes que me diziam o que era certo e errado, Cohen cantou com sua severa voz de barítono. Se eu tivesse escutado, não, eu não estaria aqui hoje / Vivendo e morrendo pelas escolhas que fiz.

Devoção religiosa tem muito peso na vida e na música de Cohen e ela assume diversas formas. Após um período de cinco anos em um monastério Zen Budista e complicações legais variadas, ele está de volta à estrada: uma tarefa que parece combinar sua busca por realização espiritual com um esforço para recuperar sua base financeira, perdida quando sua antiga empresária roubou seu dinheiro enquanto ele vivia como um monge no topo de uma montanha em Los Angeles.

Foi um problema longo que veio de uma desastrosa e preguiçosa indiferença em relação à minha situação financeira, disse Cohen sobre os procedimentos legais que se seguiram e que renderam a ele 9,5 milhões de dólares ¿ dinheiro que ele ainda está para receber. Eu nem sabia onde ficava o banco.

Então dia 2 de abril, por motivos práticos e estéticos, Cohen dará início a uma turnê de dois meses pela América do Norte, incluindo uma performance no Coachella Valley Music and Arts Festival dia 17 de abril. Para completar, músicas da apresentação realizada no Beacon Theater no último dia 19 serão disponibilizadas para audição no site National Public Radio (nos endereços npr.org/music ou nprmusic.org).

A turnê mundial de Cohen, que na verdade começou em maio de 2008 em sua terra natal, o Canadá, está programada para seguir até o final do ano, uma façanha para um homem com sua idade. Aos 74 anos, Cohen é nove anos mais velho que Mick Jagger e dois anos mais velho que John McCain. Mas ele é incrivelmente flexível, entrando e saindo do palco durante suas performances de três horas e repetidamente dobrando os joelhos para cantar.

Roscoe Beck, diretor musical de Cohen, conta que mesmo nos voos mais longos Cohen permanece em seu assento de pernas cruzadas e costas retas em uma pose de monge. Quando questionado se ele também faz yoga para manter força e agilidade para suas apresentações, Cohen, em seu comportamento cortês porém reservado, sorri e responde: Esta é a minha yoga.

Na verdade, Cohen parece ver apresentações ao vivo e orações como aspectos da mesma operação divina. Há semelhanças entre a qualidade do cotidiano na estrada e no monastério, diz. Há um senso de propósito no qual muito material externo é naturalmente descartado e o que resta é uma rotina severa e rigorosa que torna a capacidade de concentração muito maior.

Novas gerações

Cohen afirma que parou de excursionar em 1993 em parte porque ele estava bebendo muito vinho tinto entre os shows. Mas mesmo com seus problemas financeiros, ele teve que ser persuadido a voltar para a estrada, diz Rob Hallett, o produtor da turnê. Durante três anos, todas as vezes que eu ia a Los Angeles eu tentava convencê-lo a fazer isso, conta Hallett. Mas ele pensou que ninguém se importaria.

Depois de 99 shows em lugares tão distantes quanto Bucareste (Romênia) e Auckland (Nova Zelândia), Cohen sabe agora que isso não é verdade. Ele foi introduzido ao Rock and Roll Hall of Fame em 2008, mas diferente de muitas figuras da música pop que surgiram nos anos 1960 ele nunca se expôs demais e manteve um ar de mistério sobre suas músicas e sobre ele mesmo.

Nos anos em que ele esteve afastado, o trabalho ainda estava lá para ser encontrado e as pessoas se mantiveram na sua cola, diz Hall Willner, o produtor musical responsável pelo concerto tributo Came So Far for Beauty que excursionou pelo mundo entre 2004 e 2005. Os álbuns continuaram a ser citados como influência de jovens como Kurt Cobain e Jeff Buckley.

Graças a essas novas gerações de artistas e ouvintes, canções mais recentes como Hallelujah se tornaram tão conhecidas hoje quando Suzanne e outras composições dos primeiros trabalhos de Cohen. Hallelujah foi gravada quase 200 vezes com duas versões diferentes alcançando o top 10 da parada britânica no final de 2008 e foi interpretada por um participante de American Idol no ano passado, o que lhe deu mais um impulso

Como muitas de suas canções foram gravadas por outros artistas, muitos de seus novos admiradores associam seu trabalho com aqueles que o popularizaram, como Rufus Wainwright e Buckley. Mas Cohen afasta a idéia de que essa turnê teria a intenção de reclamar a autoria dessas músicas. Meu senso de posse é muito fraco, ele responde. Não é resultado de disciplina espiritual, eu sempre fui assim. Meu senso de propriedade sempre foi tão fraco que eu não prestei atenção e perdi direitos autorais de muitas dessas canções.

Sobre o significado dessas composições, Cohen é tímido e evasivo. Ele confessa que muitas delas são orações abafadas, mas ele não está disposto a revelar nada além disso. É difícil explicar uma oração.

Ele é um judeu obediente que respeita o sabá mesmo durante a turnê e se apresentou para tropas israelenses durante a guerra entre árabes e israelenses em 1973. Então como ele combina essa fé à prática do Zen Budismo? Allen Ginsberg me perguntou a mesma coisa muitos anos atrás. Na tradição Zen que eu pratico não há afirmação de divindade, então teologicamente ela não é um desafio à crença judaica. Zen também lhe ensinou a parar de querer ganhar e a se preocupar menos com as escolhas que faz. Todas essas coisas têm o seu próprio destino e cada pessoa tem seu destino. Quanto mais velho eu fico, mais certeza eu tenho de que eu não estou comandando o show.

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