Johnny Alf volta aos palcos em São Paulo

Cantor e pianista, um dos pais da bossa nova, estava afastado dos palcos há quase três anos

Carlos Augusto Gomes |

"É minha vez de cantar? Ai meu Deus". A frase, dita em tom de lamento, saiu da boca de Johnny Alf no meio do show que ele fez sábado no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Foi sua volta aos palcos, depois de quase três anos afastado dos holofotes devido a graves problemas de saúde. Uma volta meio cambaleante, é verdade - o cantor e pianista, de 79 anos, estava se recuperando de uma gripe e sua garganta cismava em falhar.

A voz vacilante, é bom dizer, não tirou o brilho da noite. Afinal, o show contou com a participação especial de duas das maiores cantoras do Brasil, Alaíde Costa e Leny Andrade. E o repertório, com uma ou outra exceção, foi Johnny Alf do início ao fim. Ele, o homem que fazia bossa nova antes da bossa nova existir e autor de clássicos como "Eu e a Brisa" e "Ilusão à Toa". E, mesmo assim, pouco lembrado nas comemorações de 50 anos da bossa.

Alf já misturava samba com altas doses de jazz antes mesmo Elizeth Cardoso gravar canções de Tom Jobim com acompanhamento de João Gilberto no violão no álbum "Canção do Amor Demais", considerado o marco inicial da bossa nova. Mas, como demorou para estrear em disco (e nunca fez concessões ao gosto popular), acabou eclipsado por outros artistas.

No show do último sábado, no entanto, Alf recebeu o reconhecimento que sua obra merece. "Esse homem é o papa da bossa nova", resumiu uma falante Leny Andrade, antes de elogiar suas qualidades de músico e letrista. A julgar pelos aplausos, o público que lotou o Sesc Vila Mariana - os ingressos estavam esgotados - concorda totalmente com a cantora. Alf, fiel a seu estilo calado, limitou-se a sorrir.

Ele abriu a noite com um de seus maiores sucessos, "Rapaz de Bem". Antes de cantar, já havia advertido a plateia que sua voz não estava nos melhores dias. Disse que havia pensado até em cancelar os shows, mas seu empresário tanto insistiu que ele mudou de ideia. Além da canção que abriu a noite, ele cantou apenas outras duas. No restante do show, permaneceu discretamente no piano.

Mas uma dessas três canções, sozinha, já valeu o ingresso. Foi "Corcovado", de Tom Jobim. A música prevista no roteiro era outra, mas Alf avisou à banda que não conseguiria cantar. Começou então a tocar "Corcovado" de improviso. Cantou de um modo quase falado, já que sua voz não permitiria muito mais. Mas o fez de maneira brilhante - emocionante e sutil ao mesmo tempo, como só os grandes intérpretes são capazes.

No restante do show, a voz ficou a cargo principalmente de uma inspirada Alaíde Costa e de uma Leny Andrade visivelmente feliz por fazer parte da volta de Alf aos palcos. O repertório teve clássico atrás de clássico - destaque para "Ilusão à Toa" com Alaíde, "Céu e Mar" com Leny e, para fechar a noite, "Eu e a Brisa", novamente com Alaíde.

    Leia tudo sobre: johnny alf

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG