João Gilberto não abre mão de microfone austríaco

Cantor é famoso pelo perfeccionismo e pelas manias para se apresentar em público; saiba o que é verdade e o que é lenda

Augusto Gomes, iG São Paulo |

O perfeccionismo de João Gilberto é tão famoso quanto a sua batida de violão. As lendas que envolvem suas exigências no palco, por exemplo, são inúmeras. Uma boa parte delas são apenas isso, lendas – ele não proíbe que o ar condicionado das casas de shows em que toca seja ligado (só reclama se estiver muito frio), nem faz questão de centenas de toalhas brancas em seu camarim. Mas o microfone – ou melhor, os microfones, um para a voz e outro para o violão – tem de ser de marca e modelo específicos, sim.

É a sua principal exigência: onde quer que se apresente, os microfones têm de ser da marca austríaca AKG, modelo C414. O aparelho custa, em média, R$ 2 mil e é mais comum em estúdios de gravação. João, no entanto, faz questão de usá-lo em suas apresentações ao vivo. Em 2003, quanto tocava para 17 mil pessoas no Hollywood Bowl, em Los Angeles, ele esteve a ponto de abandonar o palco porque o microfone não era o especificado no contrato. Foi até o final, mas passou a performance inteira reclamando do som.

Outro fator que João Gilberto não abre mão é o silêncio da plateia. Público barulhento, para ele, é algo imperdoável. Que o diga quem estava na inauguração do Credicard Hall, casa de shows em São Paulo, em setembro de 1999. Na ocasião, ele ficou tão irritado com as conversas – e com a má qualidade do som da casa – que discutiu com a plateia. Ao ser vaiado, retrucou: "vaia de bêbado não vale", e mostrou a língua para o público. Prometeu nunca mais se apresentar no local, e cumpriu.

O perfeccionismo do músico também é responsável por seus três primeiros álbuns estarem fora de catálogo. "Chega de Saudade" (1959), "O Amor, o Sorriso e a Flor" (1960) e "João Gilberto" (1961) estão indisponíveis por causa de uma batalha judicial com a gravadora EMI, que no início dos anos 1990 reuniu canções desses três discos numa coletânea chamada "O Mito". João odiou a remasterização feita e exigiu a retirada do disco das lojas na justiça. Até hoje, músico e gravadora não chegaram a um acordo.

Mas o bicho não é tão feio quanto parece. Na última vez em que se apresentou no Brasil, em 2008, não houve qualquer problema. Na ocasião, João tocou em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, como parte das comemorações dos 50 anos da bossa nova. Em nenhum dos shows ele se queixou do som, do público ou do ar condicionado. De ruim, só outra característica bastante comum do cantor: os atrasos. Na primeira de suas duas performances em São Paulo, ele subiu ao palco uma hora e meia após o horário marcado.

Realizado no Auditório Ibirapuera, o show teve um detalhe curioso: na metade da primeira música, "Aos Pés da Cruz", o som de uma mensagem de erro do Windows inexplicavelmente apareceu nos alto-falantes. João, no entanto, continuou cantando como se nada tivesse acontecido. A plateia respirou aliviada.

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