João Gilberto foi fundador e dissidente da bossa nova

Cantor faz composições de outros autores parecerem suas e tornou-se eterno com muito pouco, em intervalo muito curto

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

AE
O cantor João Gilberto apresenta-se no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em agosto de 2008
Faz 11 anos que o canto de João Gilberto se fez ouvir pela última vez num disco inédito. "João Voz e Violão" chegou às lojas, em janeiro de 2000, cercado de expectativas, inclusive porque era uma produção assinada por Caetano Veloso.

Quebrava nove anos de ausência dos estúdios de gravação e anunciava o silêncio já em sua capa, estampada por uma moça (a atriz Camila Pitanga) que pedia "psiu" com a boca e o dedo indicador. Versões quase nuas de "Chega de Saudade" e "Desafinado" confirmavam a vocação do João maduro para o dito pelo não dito.

O músico tinha então 68 anos, e o tempo que faltava para completar 80 foi preenchido pelas camadas mais espessas de silêncio em sua história desde a consagração, a partir de 1958. A primeira década do século 21 foi de recolhimento e reclusão para o artista-artesão hoje octagenário. As últimas apresentações documentadas no Brasil aconteceram em 2008, e shows anunciados para 2009, na Espanha, acabaram cancelados por problemas de saúde.

Não é possível afirmar que o mito tenha se retirado, mas suas maneiras de agir na velhice o aproximam, mais uma vez, da linhagem de Dorival Caymmi (1914-2008), baiano como ele, inovador como ele, discreto como ele. João, como o pai simbólico, é homem de obra chocantemente concisa. O poder de influência é inversamente proporcional ao pequeno número de clássicos inscritos no cancioneiro brasileiro.

A parte mais substancial do legado musical de Caymmi foi concebida entre 1939 e 1957, embora algumas composições importantes sejam datadas de 1960 ("São Salvador", "Eu Não Tenho Onde Morar"), 1964 ("…Das Rosas"), 1965 ("Morena do Mar"), 1972 ("Oração de Mãe Menininha"), 1975 ("Modinha para Gabriela", "Retirantes"), 1977 ("Milagre").

João irrompeu quase exatamente onde e quando Caymmi estancou. Compositor menos que esporádico, ele inventou a batida da bossa nova, organizou intuitivamente o movimento, fez composições de outros autores parecerem suas e tornou-se eterno a nossos ouvidos com muito pouco, em intervalo muito curto.

O relicário mais valioso de João brota de três LPs lançados entre 1959 e 1961, nos quais estão condensados e congelados sambas de bossa com cheiro de eternidade, como "Chega de Saudade", "Desafinado", "Lobo Bobo" (1959), "Samba de Uma Nota Só", "O Pato", "Corcovado", "Meditação" (1960), "O Barquinho", "Insensatez", "Este Seu Olhar", "Coisa Mais Linda" (1961).

A voz discreta de João tinha, entre suas (muitas) missões, o intuito de neutralizar o trovão vocal de Caymmi e de sua geração, mas a reverência retorcida à tradição fazia parte do DNA do inventor desde a origem. Eram de Caymmi quatro das mais arrepiantes releituras que João entremeava à novidade da bossa: "Rosa Morena" (1959), "Doralice" (1960), "Samba da Minha Terra" e "Saudade da Bahia" (1961). A suavizade do tratamento de João, sobretudo nas duas últimas, fez ver que Caymmi, vozeirão à parte, era bossa-novista muito antes de a bossa ser formulada pela trinca formada por João, Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

João acrescentaria à sua discografia poucos e relevantes títulos, em especial "João Gilberto en Mexico" (1970, com "Ela É Carioca", "O Sapo" e "De Conversa em Conversa"), "João Gilberto" (1973, com "Águas de Março", "Na Baixa do Sapateiro" e "Eu Vim da Bahia"), "Amoroso" (1977, com "Wave", "'S Wonderful" e "Retrato em Branco e Preto") e "Brasil" (1981, em trio com Caetano e Gilberto Gil, com "Aquarela do Brasil" e a caymmiana "Milagre"). Por mais notáveis que fossem esses e outros títulos, a história de João Gilberto poderia ser contada sem grandes prejuízos apenas por intermédio da trilogia de 1959-1961 – o resto é quase silêncio.

Em algo João é diverso do antecessor e inspirador Caymmi. Se este pôde se recolher em paz, a estridência vinda de fora sempre interferiu no canto quase calado de João. Na bossa, ele foi simultaneamente fundador e dissidente – único migrante nordestino numa turma de resto povoada por (muitos) rapazes e (poucas) moças cariocas de origem rica, ele era diferente de todos que floresceram ao seu redor, adubados por sua presença quase ausente.

O contraste se agravou e se agrava mais e mais à medida que as décadas avançam, graças a legiões sempre crescentes de artistas “novos” que desobedecem o professor e conservam a dita MPB num atoleiro de não-invenção movido (quase parando) à base de banquinho e violão. Imitando João, seus seguidores soam tão distantes dele quanto Juazeiro de Ipanema.

João não fala, além de pouco cantar. Não parece possível saber o que pensa do moinho vagaroso que se nutre daquilo que ele inventou no intervalo-cometa 1958-1961. O modo como escolheu envelhecer, seguindo Caymmi e tornando cada vez mais explícito seus desejos de silêncio, parece ser em si uma resposta.

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