João Brasil e o sucesso entre Londres e o `Faustão¿

Artista fala de sua trajetória como músico 'de verdade' até alcançar o sucesso como DJ

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Divulgação
Mashups de Hot Chip com Luiz Caldas, Guns `n Roses e Wando garantiram notoriedade ao DJ João Brasil
O carioca João Henrique Martins Rodrigues tem 32 anos e é músico. Formou-se pelo Berklee College of Music, nos Estados Unidos. Estudou harmonia, arranjo, contraponto, canto, música clássica, eletroacústica, jazz. Acabou por se especializar em produção de música eletrônica, embora de início pretendesse ser cantor pop de banda. Como cantor pop de banda, com vozeirão colocado nalgum lugar entre Renato Russo e Ed Motta, lançou em 2007 "Baranga", de levada bem black Rio, que se tornaria sua primeira música conhecida. Em 2008, apresentou o álbum "8 Hits", de funks satíricos na linha de "Baranga", sob o nome artístico João Brasil.

Rápida e inesperadamente, a identidade João Brasil apossou-se de João Henrique etc. e tal, virando de pontacabeça todos os seus planos e sonhos profissionais. Também formado em publicidade, João mora em Londres, aparece no Domingão do Faustão, elabora trilha sonora para o Réveillon na praia de Copacabana e se torna cada vez mais conhecido, no Brasil e lá fora, como... DJ.

“Comecei a ir caindo para o lado do DJ sem querer”, explica ele, que na quinta-feira passada (dia 20) passou por São Paulo para tocar (como DJ) numa festa no clube Alley. “Aí, pensei: já que estou fazendo isso, consigo produzir minhas próprias músicas, não vou tocar só música dos outros.”

É que, não muito tempo depois do burburinho causado via internet por "Baranga", João começou a adquirir fama de fazedor de mashups. O termo é difícil de explicar, mas facílimo de entender: o primeiro mashup criado por João misturava, numa mesma música, trechos de "Over and Over", do Hot Chip, "Haja Amor", de Luiz Caldas, "Sweet Child of Mine", dos Guns ‘n Roses, e "Fogo e Paixão", de Wando. Todas essas músicas numa mesma música. Começou a tocar maluquices desse tipo na festa carioca Calzone e a ganhar notoriedade junto a públicos capazes de apreciar numa mesma noite, sem preconceitos, da banda inglesa de electro Hot Chip ao paarense Calypso, passando rock pesado, funk carioca, pop, hip-hop e assim por diante.

Trata-se de uma curiosa inversão para quem compreende DJs como não-músicos sem criatividade própria que roubam postos dos músicos “de verdade”. João é músico “de verdade”. Começou seus experimentos na universidade, com colagens conceituais de música erudita, misturando Heitor Villa-Lobos, Edgar Varèse e Karlheinz Stockhausen. “Mashup é a versão pop disso”, constata algo que percebeu fazendo. Não é raro que o conceito oriente suas misturas pop. No clube Alley, por exemplo, ele angaria empatia fazendo a sofisticada "Sexual Healing", do mestre soul norte-americano Marvin Gaye, explodir de repente nos versos “é som de preto, de favelado/ mas quando toca ninguém fica parado”, clássico funkeiro carioca de Amilckar & Chocolate.

No meio do percurso de transformação, João descobriu que suas alquimias pop faziam parte de uma cena maior. A proximidade com o funk carioca, que o acompanha desde a adolescência, acabou por aproximá-lo das festas europeias de “ghetto-tech”, ou “global ghetto”. “Comecei a entrar em campeonatos de remix, e ganhei um concurso na Alemanha fazendo remix de Crookers [produtores italianos de electro] com tecnobrega do Pará”, explica. “Fiz remix do Cansei de Ser Sexy com lambada, e comecei a ficar conhecido num outro meio que eu nem sabia que existia, o ghetto-tech. Passei a ser chamado para tocar em festas que reúnem músicas digitais de periferia do planeta: kuduro de Angola, cumbia argentina, tribal guarachero mexicano, funk carioca, tecnobrega paraense...”

Essa globalização, se assim se pode chamar, permite fenômenos como o que se verificou na boate paulistana na última sexta-feira. Um público paulistano de classe média para cima, aficionado por música eletrônica e até não muito tempo atrás hostil às diversas identidades brasileiras, se divertia dançando o funkeiro Mr. Catra, a discothèque Funkytown ou a lambada "Chorando Se Foi", do grupo Kaoma, e cantando em coro os refrões de "Deixa Eu Te Amar", do sambista Agepê, e "Adocica", do lambadeiro Beto Barbosa.

João Brasil, ele próprio, não vem da periferia. Nasceu no bairro da Gávea, filho de um médico urologista e de uma psicóloga. “Meu pai deve ter tido cinco discos na vida”, diverte-se. “Herdei dele o lado engraçado. Um urologista que trabalha dando dedada em homem pelado não pode ser sisudo”, brinca. João se diz “viralata” de família de origem europeia, indefinida. A pele é bem branca, mas os olhos puxados não podem passar batidos: “Meu avô era praticamente índio, de pele escura, cabelo bem liso”.

Se ele tiver de fato essa ascendência no sangue, talvez aí estejam explicadas a hibridez europeia-periférica de sua formação musical, a antropofagia indígena guardada dentro das colagens, as trocas que mantém com funkeiros cariocas e tecnobregas paraenses – e a aversão que diz sentir por guetos e tribos, ao mesmo tempo em que se integra numa tribo maior, global.

Veja uma apresentação do DJ brasileiro no Musicalia:

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