Jeneci resgata a sanfona abolida pela bossa nova

Instrumento, abolido da música popular "sofisticada", está presente na música do cantor

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Augusto Gomes
Marcelo Jeneci ao lado da mãe, Gloria
Como um rapaz de 28 anos que leva uma sanfona para o palco pode soar novo em 2010, num país que foi dominado pelo instrumento há mais de 60 anos, quando o pernambucano Luiz Gonzaga fez fama nacional a bordo de "Asa Branca" (1947), "Assum Preto" (1950), "Paraíba" (1952), "O Xote das Meninas" (1953) e "Vozes da Seca" (1953)? As águas que rolaram por baixo dessa ponte ajudam a explicar não só os caminhos e descaminhos da música brasileira, mas também as transformações por que vem passando o próprio país.

Popularizador do baião, do xote e do xaxado, Luiz Gonzaga representava o novo em 1949, um novo que vinha do Nordeste. Mas envelheceu cem anos de repente uma década depois, quando surgiu o violão de outro nordestino, o baiano João Gilberto, e em sua esteira todo o movimento carioca de classe média alta da bossa nova. Graças à influência de Gonzaga, meninas de sociedade aprendiam a tocar acordeom no Brasil dos anos 1950. A partir do final da década, uma das primeiras atitudes da bossa nova foi banir a sanfona da música popular dita "sofisticada". À parte iniciativas esparsas como a de Gilberto Gil, de compor e gravar em 1973 "Eu Só Quero um Xodó", em parceria com Dominguinhos, a sanfona até hoje não perdeu de todo um status marginal à chamada MPB.

"Hoje parece difícil de acreditar, mas vivia-se sob o império daquele instrumento", historia o jornalista Ruy Castro na biografia da bossa Chega de Saudade, editada em 1997. "E o pior é que não era o acordeom de Chiquinho, Sivuca e muito menos o de (João) Donato – mas as sanfonas cafonas de Luiz Gonzaga, Zé Gonzaga, Velho Januário, Mário Zan, Dilu Melo, Adelaide Chiozzo, Lurdinha Maia, Mário Gennari Filho e Pedro Raimundo, num festival de rancheiras e xaxados que parecia transformar o Brasil numa permanente festa junina." Na definição do biógrafo, o baião de Gonzagão era "aquele ritmo que, para alguns, só servia como coreografia para se matar uma barata no canto da sala."

As manifestações antinordestinas pós-eleições de 2010 demonstram que até hoje o preconceito de origem social expresso nessas (entre)linhas ainda não foi superado – e é para desentristecer essa via que trabalha Marcelo Jeneci, paulistano na certidão de nascimento e no sotaque, mas filho e neto de migrantes conterrâneos e contemporâneos de Gonzagão. Não se trata de um manifesto consciente, pois Marcelo retira em parte o sotaque nordestino das sanfonas que toca e, em alguns (bons) momentos, se aproxima mais do tango argentino que do forró.

Ele diz não perceber nenhuma rejeição à aventura de incorporar a sanfona imemorial em formatos mais pop-roqueiros. "Sanfona agrada a todas as sogras", graceja. "Quando saí daqui de casa e fui morar na zona oeste, a janela do meu quarto era meio na rua. Aconteceu umas três vezes de eu estar tocando sanfona e a campainha tocar. Era uma senhorinha, 'nossa, que bonito o som da sanfona, era você que estava tocando?'. Eu, com 18 ou 19 anos, já pensava: deve ser mãe de uma gatinha. Pior que agrada mesmo às sogras, porque tem alguma lembrança, um cheiro de mato, uma saudade, uma coisa da nossa alma brasileira mesmo…" Marcelo está casado com uma pernambucana, Verônica, que é também sua empresária.

Augusto Gomes
Manoel Jeneci, pai de Marcelo
O pai ajuda a decifrar o fenômeno: "A música nordestina é a música de São Paulo também, né?". O filho manipula a sanfona para demonstrar suas peculiaridades. "É instrumento de cego, você tem que tocar sem ver", diz, explicando sem querer um símbolo por trás do Assum Preto "cego dos óio" de Gonzagão. "Imagina ele com 17 anos segurando um bicho pesado desses", preocupa-se Glória, que ficou "horrorizada" quando teve de levar o filho (então com 15 anos) a programas de TV com o grupo de pagode Balança Brasil, empresariada por Rick Bonadio. "Pensa só, a música era 'Sabonete do Amor', uma gostosa de tapa-sexo entrava no palco cheio de espuma e eu lá no teclado, nascendo buço no rosto", ri Marcelo.

Manoel fala do instrumento que conhece por dentro, conectando-se sem querer ao tempo em que via filmes com orquestra no cinema de Caruaru: "A sanfona é considerada uma orquestra, dá para fazer uma orquestra nela". Seu filho fala com prazer sobre Roberto, Erasmo e Guilherme Arantes, ao mesmo tempo que comete o ato falho de, ao falar sobre um artista da MPB, chamá-lo de "Caetano Buarque". Consta que, mesmo sem possuir qualquer conexão aparente com as sanfonas de Gonzagão, o pianista pop paulistano Guilherme Arantes chorou um rio ao ouvir pela primeira vez o trabalho musical de seu conterrâneo Marcelo Jeneci.

Em mais duas matérias, Jeneci fala do disco "Feito pra Acabar" e de suas influências .

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