Jay-Z: o homem de negócios que faz música

Rapper está lançando seu novo álbum, Blueprint 3

Jon Pareles, The New York Times |

No dia 31 de julho, o rapper Jay-Z ocupou o palco central do festival All Points West em Jersey City, estado de Nova Jersey, para um show que tinha aceitado fazer apenas oito dias antes - quando o Beastie Boys, banda principal, teve de desistir da apresentação devido a uma cirurgia de emergência de um de seus integrantes. Sem problemas: apesar do tumulto das sessões de gravação de última hora e do processo de negociação e promoção de seu novo álbum, The Blueprint 3 , Jay-Z conseguiu encaixar mais um show em sua agenda. Ele levou sua banda completa, a mesma que percorreu estádios e festivais europeus, e ainda incluiu uma canção do Beastie Boys no repertório. Milhares de vozes gritavam em uníssono um de seus versos mais conhecidos: "Não sou um homem de negócios, sou o próprio negócio!". 

Em suas canções, Jay-Z é determinado ao ostentar suas ambições para os negócios e como estas vêm mostrando suas compensações. Novos CDs costumam ser lançados às quintas-feiras; o rapper, porém, teve influência suficiente para agendar o lançamento de Blueprint 3 para a sexta-feira 11 de setembro ¿ data que marca o oitavo aniversário do primeiro volume de Blueprint . Ele acabou antecipando o lançamento para quinta-feira, supostamente em razão de canções vazadas na internet ¿ embora tenha autorizado prévias gratuitas do álbum completo na internet através do serviço de assinatura Rhapsody e do The Leak, do site MTV.com. Jay-Z se auto-intitulou o artista mais pirateado da história, o que deve ter surpreendido Bob Dylan e o Grateful Dead (o lançamento na quinta-feira também oferece mais três dias de vendas para contabilizar nos rankings de discos).

Neste novo trabalho, Jay-Z mais uma vez aborda o que é ser um rapper maduro: rico, famoso, respeitado e chegando aos quarenta. No álbum American Gangster, de 2007, ele fez incursões alternadas por seu alter ego ¿ o traficante Frank Lucas ¿ para garantir um pouco mais de ação. Mas, com a faixa What We TalkinAbout, que abre o novo álbum, ele rejeita a ficção e promete fatos: nada de fantasias desta vez. Seus principais problemas nas novas canções são rivais invejosos e opositores, além da pressão auto-imposta de continuar em ação, como diz a faixa On to the Next One.

Para manter-se interessante, Jay-Z usa de toda sua habilidade em suas composições ¿ jogos de palavras, alusões a sua vida bem documentada, uma nova cadência verbal para cada canção ¿ fazendo com que o ouvinte acabe sendo cativado por suas melhores canções. Blueprint 3 é um álbum inconsistente, que se excede em produções elaboradas e auto-satisfatórias, mas, quando Jay-Z é levado pela batida certa, fica evidente de onde ele tirou toda sua arrogância.

Kaney West e Rihanna participam do álbum em Run This Town

Ao longo de todo o álbum ele cita seus carros caros, seu loft em TriBeCa, sua posição na lista dos 100 artistas mais bem pagos segundo o site Forbes.com (apesar de sua posição ser bem inferior à de sua esposa, Beyoncé), além de seu papel ¿ uma pequena participação ¿ na eleição de Barack Obama. O rapper, porém, insiste em afirmar que os negócios não passam do meio para alcançar seu objetivo: fazer música e manter vivo o hip-hop. É isso aí: depois de se vangloriar de suas proezas empreendedoras e conquistas materiais por mais de uma década, Jay-Z insiste que isso tudo é irrelevante.

Gosto de música, posso viver sem os negócios. Acho que todo artista deveria ser remunerado por seu trabalho, mas negócio é negócio. Para mim, isso é uma parte necessária, mais do que algo do qual eu goste. Quero ser lembrado como artista em primeiro lugar, mas isso não depende só de mim, declarou o rapper em seu estúdio em Chelsea, o Roc the Mic.

Aos 39 anos, Jay-Z é uma anomalia reinante do hip-hop: um adulto que tem a cabeça no lugar e é focado na carreira, mantendo-se no topo das paradas. Suas canções contam e recontam a trajetória da pobreza ao estrelado de Shawn Carter, nome verdadeiro de Jay-Z, que cresceu no conjunto habitacional Marcy Houses, em Bedford-Stuyvesant - considerado uma das piores áreas de Nova York - e traficava drogas antes de entrar no hip-hop. Ele disse na ocasião do lançamento de seu primeiro álbum: Eu era o cara de 26 anos mais maduro que se podia imaginar. Depois disso, tudo do que ele se gabava se tornou realidade.

Topo das paradas

A maioria dos rappers teria sorte de ter um ou dois álbuns no Top 10 antes de ser derrubado pela concorrência mais jovem e mais audaciosa. Jay-Z, porém, alcançou o topo e lá se manteve desde seu primeiro álbum, Reasonable Doubt , de 1996. Tanto este quanto os outros nove álbuns solos subseqüentes venderam pelo menos um milhão de cópias nos Estados Unidos.  

Em Blueprint 3 , ele menciona  mais de uma vez que já teve 10 álbuns em primeiro lugar: Talvez agora 11, ele acrescenta na faixa Thank You (Na verdade ele teve oito álbuns na primeira posição: todos os álbuns de Jay-Z desde 1998. Os outros dois foram colaborações com R. Kelly e Linkin Park).

Com a esposa Beyoncé, que o supera na lista dos artistas mais bem pagos

De 2004 a 2007, Jay-Z foi presidente da gravadora Def Jam Recordings, que lançava seus álbuns desde 1997. Ele trabalhava regularmente no escritório e fechou contratos como o de Rihanna, que se junta a Jay-Z e a Kanye West na faixa Run This Town, de Blueprint 3 .

Ele diz que, ao trabalhar em um selo importante, aprendeu que a primeira coisa que você tem se lembrar todos os dias é por que você chegou onde está. Se você perde a paixão e o fogo, começa a fazer as coisas automaticamente.

No ano passado, quando seu contrato com a Def Jam chegou ao fim, ele enfrentou as novas condições econômicas do pop ¿ queda na venda de CDs, fazendo dos shows e licenciamentos fontes de renda mais confiáveis ¿ e saiu das gravadoras já estabelecidas no mercado. Ele firmou um acordo de 10 anos, por US$150 milhões, com a promotora de shows Live Nation, incluindo seus álbuns, turnês, publicações e todo processo referente à produção e divulgação do artista, ao mesmo tempo em que financiava sua própria gravadora, a Roc Nation: Seus álbuns serão produzidos e distribuídos (mas não detidos) pela Atlantic Records, e em seguida pela Sony. 

Jay-Z completa 40 anos em dezembro, e ele tem plena consciência de que quem faz hip-hop geralmente é mais jovem. Você acaba se afastando do hip-hop quando fica mais velho porque isso já não tem muito a ver com o momento em que você está vivendo, disse ele. Não tem muita gente que amadurece no rap porque ele só existe há 30 anos. Na medida em que as pessoas forem amadurecendo, os temas vão se expandindo - mantendo o público fiel por mais tempo. Mas, hoje em dia, acaba sendo difícil, porque o rap é visto como uma coisa pra gente jovem. Você quer ser tocado no rádio, e você tem que fazer um refrão que pegue, que pareça com as outras coisas que estão tocando no rádio. Ele ri. Não eu, o velhaco aqui.

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